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Sabedoria antiga dos benzedores une plantas medicinais, orações e fé


Do IHU, 08 Novembro 2017
Por Helen Martins, publicada por Globo Rural


Conheça a crença na tradição de cura pela natureza e pela fé. Antropólogo e neurocientista comentam o significado da prática no Brasil e no mundo.

Plantas medicinais, orações e fé. É o que o Globo Rural mostra na reportagem sobre benzedeiras e benzedores, feita no Paraná.

Na casa onde as plantas medicinais se espalham até pela calçada, vive a benzedeira Agda de Andrade Cavalheiro. E de planta ela entende bem. “De planta eu entendo de tudo”, conta. Com tanto conhecimento, Agda é famosa na cidade de Rebouças, no Paraná. Recebe sempre a visita de gente atrás de cura. Uma hora procuram plantas medicinais outra hora é um benzimento. Com um raminho de arruda e o terço na mão, Agda vai benzendo quem a procura

Um outro tipo de benzimento é feito com a costura de pedacinhos de pano durante as orações. O comprimento da linha é medido na parte machucada do corpo da pessoa. Agda diz que a reza recupera contusões e dores musculares. “Quando terminar, eu tenho que deixar pendurado, quando inteirar três vezes, eu jogo no fogo ou formigueira”, explica.

O uso das plantas medicinais ela aprendeu com o pai, mas a benzer, foi depois que teve os filhos. “Comecei a ter as crianças e levar no benzedor e comecei a aprender”.

Aprendeu a ponto de, hoje, benzer até a distância. “Deus sabe onde eles estão e o que eles precisam. Nós somos como um celular: nós mandamos a mensagem e Deus manda a resposta na hora. Nós terminamos a oração e de lá ele já tá mandando a benção que precisa. Não custa nada. Para mim veio de graça e de graça sairá”, afirma Agda.

O benzimento é costume antigo e está no dicionário. Benzer vem do latim bene dicere, que significa bem dizer. Dizer bem de alguém e fazer o bem. Quem explica sua origem é o antropólogo João Baptista Borges Pereira. “No Brasil está desde o Descobrimento porque é uma herança do catolicismo português. Em Portugal, as mulheres ou são benzedoras ou são demoníacas. Pode fazer o bem ou o mal. Quanto mais a mulher envelhece, ela vai se tornando feiticeira e indesejável. Mas no Brasil, a benzedeira passa elementos sincréticos, misturados, com influências indígenas e africanas, ligada às influências portuguesas. Elas tinham uma preocupação grande de fazer o bem. As benzedeiras fundamentalmente são pessoas do bem”.

Não é qualquer um que sabe as plantas certas para cada problema. E, dependendo da quantidade, a mesma erva que pode curar, também pode fazer mal. Assista a reportagem completa no vídeo acima e veja a explicação das benzedeiras sobre os diversos tratamentos. Benzedores dos municípios de Rebouças e São João do Triunfo, no Paraná, se organizaram e hoje têm até carteirinha da Secretaria de Saúde. Agora, a luta é para que outro município vizinho, Irati, também faça a sua lei. Oitenta e sete anos e a benzedeira Selmira Killer ainda cuida sozinha do seu quintal. Assim fica próxima do seu passado, de trabalhadora rural desde os dez anos de idade.

No centro dos canteiros planta hortaliças, na beirada, as ervas medicinais. Ela mora sozinha em Fernandes Pinheiro. Cidade que, pelo jeito das crianças no meio da rua, a caminho da escola, parece bem tranquila. Mesmo assim, Selmira, benzedeira requisitada, toma suas cautelas. “Homem eu benzo só de longe. Mulher e criança eu benzo de perto, homem não”.

Selmira fala sobre os santos que estão presentes em seu altar. “São Bento, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora das Graças, Menino Jesus e o monge João Maria”.

Ela conta que a fé era maior antigamente. “Antigamente era porque não tinha médico nada. Só Deus. Só Deus e fé nos santos nos protetores deles. Só remédio de horta, de mato”.

Dar continuidade a essa fé é uma preocupação para benzedores mais antigos, mas não para Selmira. “Os que estão vindo no mundo vão precisar e tem que ter gente que ajude”.

Para ela, o sucessor está definido: o neto, o geógrafo Antônio Michel Killer. Mas ele diz que não basta aprender só as orações. “Não. É o primeiro passo. Você pode fazer pra você, sua família. Depois, se for tocado, se tiver o dom, esse dom divino que as benzedeiras possuem. Deus tem que dar o dom”.

A proximidade com a avó, levou o geógrafo e aprendiz de benzedor, Michel, a se envolver na busca da valorização desse ofício tradicional. O município de Rebouças foi o primeiro a regulamentar o ofício. Começou com um levantamento das pessoas que possuíam esses conhecimentos tão antigos, essa sabedoria na área da saúde.

Como a população continua procurando, a atividade se mantém viva. No levantamento feito, em 2008, foram encontrados muitos benzedores e detentores de outros ofícios tradicionais como remedieiros e parteiras. Em Rebouças, foram 134. No município de São João do Triunfo, 167 e, em Irati, 187.

Os números surpreenderam. Acreditava-se que seriam bem menores. Isso porque a atividade era exercida quase que escondida. “No começo tinha até medo de falar que eram benzedeiras até pra gente por causa dessa repressão histórica que existe desde o século passado”, fala Michel.

Desse levantamento veio a formação do movimento Aprendizes da Sabedoria e ganhando visibilidade e coragem, os benzedores começaram a denunciar o preconceito. O tema é polêmico e muitas benzedeiras falam que já foram chamadas de feiticeiras.

O neurocientista, Sérgio Felipe de Oliveira, especialista em medicina e espiritualidade, fala sobre o assunto. “Hoje a Organização Mundial da Saúde (OMS) já admite a questão espiritual e existe muito estudo sobre espiritualidade na prática clínica. Quando a medicina oficial, o SUS(Sistema Único de Saúde), resolve dialogar com as benzedeiras, encontra-se um ponto que permite o integrativo e esse ponto beneficia o paciente. A força da fé é tremenda, mas precisa haver afeto e amor. Uma relação fria não abre caminhos. Uma relação de afeto e amor soluciona milhões de problemas”.

Os saberes populares estão presentes em duas políticas do Governo Federal: a política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos considera "o valioso conhecimento tradicional associado ao uso de plantas medicinais" capaz de ajudar na qualidade de vida da população.

E, na política nacional de práticas integrativas complementares em saúde, que visa integrar a medicina tradicional e terapias alternativas, estão novamente as plantas medicinais.

Mas a primeira lei municipal que reconhece os ofícios tradicionais de saúde popular, foi aprovada em Rebouças. Na cidade, as carteirinhas são emitidas pela Secretaria Municipal de Saúde.

“Eles se sentem mais seguros, digamos assim, valorizados pelo trabalho deles, pela cultura que eles vêm desenvolvendo há anos e não nos atrapalha desde que quando tiverem essas pessoas procurando por eles, eles também peçam que essas pessoas procurem pelo posto de saúde, que levem ao médico. Trabalhamos numa certa parceria”, afirma a secretária de Saúde do município, Tânia Maria Selhorst.

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