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Quem protege as crianças dos protetores?

Há algo de sintomático no uso estratégico do tema da "proteção da infância"no interior do embate político brasileiro recente. Não foram poucas as ações feitas tendo vista a pretensa necessidade de proteger as crianças da sexualidade presente na vida social.
Da Folha de São Paulo, 24 de Novembro, 2017
Por Vladimir Safatle


Marcelo Cipis/Editoria de Arte/Folhapress

De onde se seguem mobilizações de toda natureza visando preservar a infância, como se os contatos com a sexualidade fossem imediatamente convites ao abuso, à redução do outro à condição de mero objeto. Como se a sexualidade fosse irremediavelmente ligada à violência e a formas de desrespeito social.

Mas poderíamos nos perguntar se é, de fato, desejável proteger as crianças; não seria melhor, ao contrário, proteger as crianças de seus pretensos protetores?

Pois notemos, inicialmente, como a transformação da infância em um espaço livre da sexualidade é simplesmente impossível e profundamente indesejável.

As sociedades disciplinam desejos, definem padrões sexuais de conduta desde a mais tenra idade. Basta nascer para estar exposto à sexualidade do outro, às suas fantasias e narrativas. A voz da mãe, o olhar do pai, o toque dos irmão já estão carregados de sexualidade.

Mas não estamos expostos apenas ao outro mais próximo, como os membros da família, Estamos expostos também ao Outro como sistema social de normas. Normas sociais, instituições das mais variadas formas, como igreja, escola, família, empresa, fábrica, campo: todas lidam com a tentativa de disciplinar o que há de mais indeterminado e móvel em nós, a saber, nosso vínculo afetivo e corporal com outros.

Esse sempre foi o real problema com a dimensão do sexual: ela não tem forma clara, não tem limites definidos, colocando-nos sempre diante de algo que parece forçar nossas identidades em outras direções.

Por isto, podemos dizer que aqueles que querem proteger crianças estão, normalmente, à procura de constituir uma hegemonia que se passa por lei da natureza. Eles querem continuar a ditar, para nossas crianças, o que sexualidade deve ser e como ela deve ser vivida, impedindo que essas mesmas crianças desenvolvam a capacidade de lidar e responder à complexidade que as experiência sexuais produzem.

Estes que querem proteger crianças sempre as "protegeram", o que não as impediu de produzir as mais diversas neuroses e formas de sofrimentos. O tema do abuso é, ao menos neste contexto, apenas um pretexto para tentar defender-se contra a circulação da sexualidade.

Não se trata de ignorar o número brutal de abusos sexuais contra menores, assim como a necessidade de lutar contra eles, mas simplesmente de lembrar que não se combate abusos e violências retirando a sexualidade da esfera pública e social.

Combate-se, primeiro, levando pessoas a verem que abusos e violência nada tem a ver com a afirmação da sexualidade, pois se tratam de fenômenos de ordem completamente diferente. Desejo e brutalidade não andam juntos, assim como também não andam juntos desejo e posse (o que, em uma sociedade como a nossa, parece contra intuitivo, e isso talvez seja o que há de mais urgente a ser modificado). Essa distinção é importante para levar pessoas a se colocarem mais claramente contra a violência coercitiva.

Segundo, combate-se o abuso levando pessoas a conseguirem lidar com a despossessão e a desapropriação de si que as relações sexuais muitas vezes provocam, ou seja, levando-as a não compreenderem toda despossessão como um abuso.

Sempre haverá uma dimensão desreguladora e confusa nas relações de desejo e melhor seria se estivéssemos conscientes disso. Como dizia Freud, melhor ensinar às crianças não nossos pretensos ideais, mas os caráteres contraditórios e complexos da experiência social, permitindo-as desenvolver modalidades singulares de formas de ação e respostas a tais complexidades.

Nesse sentido, seria melhor uma sociedade na qual as crianças não estão "protegidas", mas onde elas têm a possibilidade de desenvolver capacidades singulares para lidar com o que, verdade seja dita, ninguém sabe como lidar, já que não somos nós que lidamos com a sexualidade. Talvez seja melhor dizer: é a sexualidade que lida conosco, e muitas vezes sem que nós sequer saibamos

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