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O modelo de negócio de Woody Allen

Práticas criadas pelo diretor para realizar seus filmes economizam trabalho e garantem reputação


Da Carta Capital, 01 de Novembro, 2017
por Thomaz Wood Jr. 


Modelo de negócio é um conceito fundamental em administração de empresas. Trata-se do conjunto de premissas que estabelece como uma organização funciona e gera valor para seus donos, clientes, funcionários e outros grupos com os quais interage. Muitos gestores não têm consciência do modelo de negócio de suas empresas, mas um modelo sempre existe e guia a atuação da organização.

Modelos de negócio podem envelhecer, levando empresas ao declínio. Nas últimas décadas, o transporte aéreo de passageiros, o comércio de livros, o varejo e a mídia impressa sofreram grandes mudanças.

Alterações na regulação, no comportamento do consumidor e na tecnologia tornaram os modelos existentes obsoletos e facilitaram o surgimento de novas alternativas. As transições foram turbulentas, com o desaparecimento de empresas e empregos.

A indústria cinematográfica é um caso sempre interessante de observar. Nascido das ideias e sonhos de pioneiros como os irmãos Lumière e George Méliès, o cinema chegou cedo à Califórnia, onde o espírito francês parece ter encontrado (ou colidido com) seguidores de Henry Ford. O híbrido resultante uniu doses de arte, entretenimento e comércio, dando origem a uma indústria poderosa e influente.

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Ao longo do século XX, o modelo industrial foi aperfeiçoado e tornou-se dominante. Hoje, permite gerir produções complexas, que podem envolver financistas nova-iorquinos, profissionais de marketing californianos, roteiristas ingleses, diretores mexicanos, técnicos húngaros e atores de vários continentes.

O cinema comercial transformou-se em indústria dominada por megaproduções, geralmente com super-heróis e produzidas em série, para consumo em cinemas multiplex, acompanhadas de enormes bacias de pipoca. Faz parte de um ecossistema que inclui parques temáticos, jogos eletrônicos, brinquedos, camisetas e outras mercadorias.

Ocorre que esse modelo de negócio começa a esboçar sinais de esgotamento. Depois de sobreviver à tevê, ao videocassete e à televisão a cabo, o cinema comercial enfrenta agora rebentos poderosos da internet. Em busca de redenção, o cinemão volta as lentes para os independentes, frequentemente responsáveis por inovações artísticas, técnicas e nos negócios.

Christopher Orr descreve, na edição de outubro da revista The Atlantic, o curioso modelo de negócio do veterano Woody Allen. O diretor americano tem no currículo quase 50 filmes, vários deles geniais. Mantém há décadas um seleto grupo de devotos que não dispensa uma ida anual ao cinema para sorver 90 minutos de elegância e humor refinado, embalados por bons atores e trilhas sonoras impecáveis. As críticas nem sempre são favoráveis, mas pouco importa.

O sistema criado por Allen funciona de forma econômica, com esforço moderado e resultado satisfatório. Os roteiros vêm da pena do próprio diretor, com invejável rapidez. O elenco, sempre com grandes nomes, aceita salários magros pela possibilidade de trabalhar com o diretor. E trabalha pouco, porque Allen não gosta de ensaiar ou refazer cenas.

Ao contrário de colegas perfeccionistas, que avançam nos horários, o diretor termina seu dia de trabalho às 18 horas, ou antes. O efeito na tela pode não ser a perfeição, mas é uma imperfeição humana, muito humana.

O diretor é também adepto da prática da delegação, deixando que seus técnicos e assessores cuidem de todos os detalhes. Ao filmar, prefere registrar cenas completas em lugar de pequenas tomadas, que tomam mais tempo e exigem mais trabalho de edição. A trilha sonora é quase sempre composta por clássicos de jazz, do gosto do diretor. Tudo simples e econômico.

Seus orçamentos relativamente modestos viabilizam a obtenção de financiamentos e conferem liberdade de ação a Allen. Sua disciplina de filmagem garante o atendimento aos prazos. Mais tempo, esforço e dedicação melhorariam seus filmes? Allen declarou acreditar que não. Para ele, o sucesso depende em grande parte de “felizes acidentes”.

O modelo “indolente” de Allen talvez não seja aplicável a outros contextos. No entanto, em uma era marcada pela busca frenética do mais e melhor e pela obsessão por parecer hiperativo, seu sistema traz esperança.

Sua longevidade sugere que ócio e criatividade, combinados a talento e trabalho cirúrgico, podem gerar produtos de qualidade, que agradam a investidores, consumidores e trabalhadores.

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