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Gigantes tecnológicos chineses Tencent e Alibaba desafiam Vale do Silício

Com inovações próprias, as companhias da China duplicam suas receitas e valores de mercado, incomodando Facebook e Amazon


Da Carta Capital, 30 de Novembro, 2017
Por Julien Girault



Jack Ma, dono da Alibaba, em evento em Hong Kong. A empresa domina metade do comércio eletrônico chinês e só cresce

Os grupos chineses Tencent e Alibaba já estão alcançando o Facebook e a Amazon em termos de valor de mercado, reflexo da emergência dessas gigantes tecnológicas na China, onde smartphones e pagamentos eletrônicos são onipresentes.

A Tencent, campeã de games e operadora do popular aplicativo de mensagens WeChat, tornou-se, na semana passada, o primeiro grupo tecnológico chinês a valer mais de 500 bilhões de dólares, superando brevemente o californiano Facebook. O líder chinês de comércio online Alibaba, cotado em Wall Street, está logo atrás, se aproximando da americana Amazon.

Isso é um verdadeiro desafio às maiores empresas do Vale do Silício, que até então estavam no seleto grupo dos cinco maiores valores de mercado do mundo. Neste ano, as cotações da Tencent e da Alibaba se duplicaram – bem como suas receitas.

"O sucesso se explica, antes de tudo, pela decolagem da internet móvel", estimulada pelos fabricantes chineses de smartphones baratos, explica Shameen Prashantham, da Escola de Comércio Ceibs em Xangai.

Cerca de 724 milhões de chineses se conectam à rede pelo celular, segundo o governo: isso aumenta as bases de usuários e o volume de dados coletados, pois "as leis sobre a privacidade são menos protetoras aqui que no Ocidente", explica Prashantham à AFP.

Um bilhão de usuários

Atualmente, a Tencent se beneficia do viciante jogo "Honor of Kings", enquanto seu aplicativo WeChat (troca de mensagens, rede social, comércio digital e jogos) tem 1 bilhão de usuários, apesar da rigorosa censura aos conteúdos.

Já a Alibaba controla metade do e-commerce chinês entre empresas e consumidores.

É claro que ambos se beneficiam dos problemas de concorrentes americanos no mercado chinês: o Facebook está proibido na China; o e-Bay se recusa; e a Amazon tem dificuldade de decolar, e recentemente teve que vender ativos na nuvem chinesa.

Contudo, "a Tencent não imitou as fórmulas ocidentais, se forçou a inovar. Deve-se a ela o desenvolvimento do pagamento eletrônico", insiste Huang Hao, pesquisador na Academia Chinesa de Ciências Sociais.

A Tencent permitiu que usuários do WeChat trocassem cartões de presentes eletrônicos, destaca, enquanto a Alibaba criou sua plataforma de pagamento online Alipay.


"Honor of Kings". O game para smartphones da Tencent é criticado por ser viciante (Foto: Reprodução)

Assim, os sistemas rivais de pagamento digital se desenvolveram graças aos aplicativos de reserva de táxi, antes de conquistar a quase totalidade das lojas e restaurantes do país, onde o cliente pode pagar com seu smartphone, ao escanear um código de barras.

"Até meu avô de 88 anos se acostumou a se comunicar e a pagar via WeChat", afirma Zhao Chen, da empresa de investimentos tecnológicos Plug-and-Play.

Batalha internacional

Além disso, há as diferenças nas formas de remuneração: a Amazon, por exemplo, cobra uma parte de cada transação, mas a Alibaba ganha a maior parte de sua renda através de publicidade direcionada.

Já a Tencent vende objetos virtuais aos jogadores de Honor of Kings, ou emoticons no WeChat, e apenas 17% de sua receita vem da publicidade – contra 97% para o Facebook.

Por fim, apesar de as receitas continuarem concentradas na China, os dois grupos demonstram "ambições globalizantes", para a "grande felicidade" do governo chinês, garante Wei Wei, fundadora o escritório GSL Innovation.

Nos Estados Unidos, a Tencent investe no Snapchat e na Tesla, enquanto a Alibaba criou laboratórios na Califórnia. "Ainda estão em período de aprendizado", indica Shameen Prashantham.

Contudo, nos mercados emergentes, elas podem se impor graças a sua experiência chinesa: Alibaba contra a plataforma Lazada, no sudeste asiático, e a Tencent investe nos aplicativos de comércio digital e de táxis na Índia.

Um desafio às gigantes americanas? Não necessariamente, segundo Wei. "Mas devem se preparar para ver esses atores chineses entrarem na arena internacional".

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