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Eles vivem longe da civilização. E ensinam como fazer

Peter e Miriam Lancewood contam em livro o cotidiano nos Alpes da Nova Zelândia sem os confortos da cidade e com quase nenhum contato humano



Da Carta Capital, 21 de Novembro, 2017
por Stefanie Marsh, de The Observer 


Miriam caça, Peter cozinha

Miriam Lancewood vive fora do sistema, na natureza, há sete anos e ainda consegue apontar o momento exato em que soube que tinha realmente rompido com as normas sociais. "Foi quando surgiu a ideia de lavar meu cabelo com urina", lembra.

Ela havia começado a viver na natureza agreste, nos Alpes da Nova Zelândia, quando apresentou um problema persistente de caspa. Felizmente, lembrou do que tinha lido sobre um antigo remédio. "Sentei-me sob o sol durante uma meia hora horrível e malcheirosa para deixá-la penetrar."

Eu esperava que Miriam tivesse um aspecto sujo, talvez sem dentes, mas ela é imaculada e tem um sorriso largo, com dentes muito brancos (ela os limpa regularmente com cinzas). Nada de caspa, pernas raspadas, os odores da fogueira do acampamento. Ela tem um físico robusto: quase como Sarah Connor de "O Exterminador". Uma Sarah Connor holandesa.

Seu marido, Peter, me diz orgulhoso que ela pode vencer a maioria dos homens numa briga. "Miriam é a caçadora e eu sou o cozinheiro. Ela é muito mais forte que eu. As mulheres atiram melhor", diz ele. "E são mais cuidadosas", acrescenta Miriam. "Elas são menos impelidas pela caça a troféus. Têm menos necessidade de se afirmar."

Após cinco anos de vida nômade na Nova Zelândia, Miriam decidiu escrever um livro sobre suas experiências. O casal então se mudou para a Europa, onde passam o ano caminhando até a Turquia. A parte dois do sonho de sua vida de nunca voltar à "civilização". Então aqui estamos na Bulgária, três horas a oeste de Sofia, à margem de um rio onde o casal pode tomar banho, sentados perto da fogueira em uma floresta (o fotógrafo os encontrou antes na jornada, na Alemanha).

Fui convidada para jantar, e Peter está parado diante de um caldeirão de ferro que contém um cozido de feijão borbulhante. Há ameixas colhidas por eles, para começar. É uma ocasião emocionante para o casal: não veem outros seres humanos há 11 dias. São cinco horas da tarde. O que eles fizeram durante o dia? "Não muita coisa. Esperamos você." Nos primeiros meses de sua vida primitiva, Miriam pensou que enlouqueceria de tédio, mas logo entrou em sincronia com a natureza. A metade de qualquer dia é passada coletando lenha. Eles dormem assim que escurece. Nunca tiveram mais energia.

É um contraste marcante de quando Miriam ainda trabalhava como professora de deficientes na Nova Zelândia. Foram tempos difíceis. "Eu estava sempre estressada. E chateada, deprimida ao pensar que faria aquilo para sempre." Ela aprendeu muito desde que está livre, mas uma pergunta continua sem resposta: "Onde estão todas as mulheres?"

Quando eles topam com alguém na natureza, geralmente é um caçador, e sempre um homem. Ela pensa que talvez as mulheres tenham perdido a conexão com a natureza, "ainda mais que os homens”. “E também", acrescenta, apaixonadamente, "por que as mulheres se comportam de modo tão frágil, fisicamente? 'Não consigo levantar isso', 'Não posso fazer cocô lá fora', 'Não posso menstruar no meio do mato'." Ela acha uma pena que as mulheres percam oportunidades.

Parece que Miriam não é a única mulher que pensa isso sobre as mulheres. Seu livro será lançado no Reino Unido neste mês, mas já foi publicado na Holanda, onde se tornou uma pequena sensação. "As mulheres me escrevem todos os dias dizendo: 'Você me inspirou'", diz ela. "Ficam surpresas que seja possível viver uma vida primitiva, mas elas têm medo: 'O que há na natureza?'"


As mulheres se afastaram mais do que os homens da natureza, acha Miriam

Ela diz que as mulheres se preocupam em ser devoradas por animais selvagens ou assassinadas por um predador mentalmente desajustado, como viram em policiais nórdicos. É interessante notar que as mulheres em suas palestras na Holanda geralmente têm entre 40 e 50 anos. Talvez sejam atraídas pela história de Miriam, porque a veem como a vida alternativa que poderiam ter se fossem mais ousadas e menos conformadas. As mais jovens ainda têm pela frente as grandes decisões. E os arrependimentos. O que as mulheres lhe dizem que o livro as inspirou a fazer? "Uma delas afirmou: 'Você me inspirou a me divorciar'. Se você quer ser mais feliz, às vezes tem de mudar sua vida completamente."

A semente de sua ideia foi plantada na Índia, onde eles se encontraram há 12 anos. Peter tinha 52, era um ex-criador de carneiros, arborista e palestrante em universidades. Miriam tinha 22 e queria ver o mundo. Juntos, eles viajaram durante alguns anos antes de se mudarem para a terra de Peter, a Nova Zelândia. Em 2010 eles venderam ou deram a maioria de suas posses e partiram em sua experiência radical, vagando e acampando na imensidão da natureza. Era Miriam quem carregava a grande faca de caça e sabia usar seu rifle Steyr Mannlicher .308. Sem eletricidade, tecnologia digital ou relógio, a experiência deveria durar um ano. E isso já faz muito tempo.

“Na Europa é delicado, porque você nunca pode se afastar o bastante", resmunga Peter. Felizmente, "somos totalmente mestres em desaparecer na floresta". O problema de Miriam é que você não pode usar ou portar uma arma na Bulgária sem licença, ou ela teria matado e preparado uma lebre para o jantar. Eles me mostram como vivem. Sua casa é uma barraca tubular verde-cáqui para três moradores, com dois sacos de dormir no interior, colchonetes e duas mochilas cheias de suprimentos rudimentares. Comida e utensílios são arrumados sobre a relva. Canecas de ágata, um prato preto de garimpeiro que se tornou em parte redundante, pois eles perceberam que "garimpar ouro é a experiência mais miserável que se pode ter". Miriam me mostra seu arco e flecha. É lindo, brilhante e colossal.

"Pode ser muito desagradável, às vezes é horrível", lembra Peter. A primeira experiência terrível de Miriam foi abater seu primeiro animal: um gambá. "Eu era vegetariana desde que nasci, mas estava cada vez mais fraca. Acordávamos com dor de estômago por tentarmos nos aquecer."

Ela montou uma armadilha, mas falhou na hora de matar o gambá. Sentiu-se enjoada, mas o animal frito era delicioso. "Mais tarde, senti orgulho de mim mesma." Ela usou o arco e flecha para caçar cabras. O casal também comeu cervos mortos que os caçadores deixavam para trás. Peter me diz que quando os camponeses ingleses se estabeleceram na Nova Zelândia trouxeram consigo porcos-espinhos. Miriam se espanta: "Mas na Grã-Bretanha não restaram lugares selvagens, não é?"

Se você quer sair do sistema, é vital preparar-se. Miriam e Peter passaram meses em treinamento para seu primeiro inverno em South Marlborough, na Nova Zelândia: caminhadas longas e cansativas, cursos de primeiros socorros, leitura de livros sobre sobrevivência e obtenção de alimentos, decidindo exatamente de quanta farinha, favas e sacos de chá precisariam. Praticaram enxergar no escuro com caminhadas noturnas. Miriam não é uma teórica da conspiração, mas se orgulha de ter aprendido técnicas de sobrevivência, caso venha o fim do mundo.

Às vezes eles voltam à civilização para enviar um e-mail ou se abastecer de suprimentos ou (no caso de Miriam) escrever um livro. Isso não é trapaça? Peter discorda. "Como vivemos fora da sociedade, não há regras. Podemos passar da Idade da Pedra à grande cidade e voltar. É uma combinação única de vida primitiva e modernidade." O que acontece se eles se separarem? Miriam diz que ela tentaria encontrar outro parceiro de aventura. Peter diz em tom fleumático que ele estaria morto, de qualquer modo. Certamente nenhum dos dois quer voltar a uma vida moderna ocidental: a luz artificial é brilhante demais, o barulho é barulhento demais, o sono é intermitente, a comida os deixa constipados.

A pergunta que muitas vezes os leitores fazem a Miriam é como eles conseguem viver como vivem. "Temos poupanças, gastamos muito pouco, cerca de 5 mil dólares da Nova Zelândia por ano, basicamente para comida". Mas ela quis escrever seu livro por outros motivos. "Para mostrar que no século XXI é possível levar uma vida diferente", em que os relacionamentos duradouros podem dar certo. "Muita gente me escreve: 'Estou tão feliz por ler que ao menos alguém está vivendo em harmonia. Um casal que passa 24 horas juntos'"

"Já fui casado duas vezes antes", diz Peter cinicamente, embora Miriam goste da sofisticação cosmopolita dele. O único namorado que ela teve queria ter uma casa grande e filhos. Ela não.

Miriam acha que a chave de um bom relacionamento é o desejo de autoconhecimento: "Se ele diz algo que eu considero um insulto, eu penso: 'Por que considero isso um insulto?' Eu o uso como um método de reflexão para saber mais sobre mim mesma."

"Nós nos recusamos a brigar", diz Peter. Quando ele a aborrece, explica Miriam, "eu finjo que não escuto". Viver nessas circunstâncias físicas não os força a ser dependentes? "Chamamos isso de interdependência independente", explica Peter. "Às vezes sob tensão extremaficamos um pouco nervosos..." (por exemplo, quando os dois quase se afogaram numa corredeira da Nova Zelândia). Miriam completa o pensamento: "... então você se torna mais consciente de como os fatores externos afetam o seu humor". O livro sugere que eles têm um relacionamento aberto, mas não sei como isso pode fazer diferença, pois nunca encontram ninguém.

Eles gostariam de conhecer alguns ciganos na Bulgária, para trocar experiências de nômades. Os pobres não se sentem diminuídos por sua experiência? "Não, são as classe médias que não gostam de nós", diz Peter, especialmente os homens. "Muitos de meus velhos amigos estão rompendo por causa disso. A maioria dos homens da minha idade está derrubada. Eles não podem dormir no chão, são gordos, não podem caminhar muito tempo. Eles têm inveja. Principalmente dela", diz ele, olhando para sua mulher. "Querem saber como fazer isso."

Como se casar com uma mulher 30 anos mais jovem? A diferença de idade pode ser difícil de ignorar. Miriam a menciona várias vezes em seu livro, principalmente por causa de quem pergunta. Para eles não é um problema, mas Peter estaria aqui com uma mulher de sua idade? "Nunca conheci uma mulher de 60 anos que queira viver como eu", diz ele.

Miriam e Peter costumavam usar a palavra "armadilha" para descrever como os outros vivem. Eles nunca quiseram ter filhos, e contam com outra inovação moderna, o DIU de Miriam, para ter certeza. Dizem que seria impossível viver na natureza com crianças. Então elas são uma armadilha? "Para nós, seriam", diz Miriam. "Você precisa ter uma renda regular, precisa se fixar." Ela ri: "Me assusto só de pensar nisso".

Miriam descreve como os homens que encontram em suas viagens de repente se abrem sobre suas vidas: "Eles dizem que gostariam que suas mulheres saíssem com eles para caçar, ou que se tivessem novamente a opção não teriam filhos. Esse foi o fim de sua liberdade, dizem."

Ela olha para Peter: "Conhecemos um sujeito, lembra dele?, que disse: 'Não vejo a hora de meus filhos terem idade suficiente para saírem de casa'. E eu perguntei: 'Quantos anos eles têm?', e ele disse: 'Três e cinco'."

Havia um piloto que lhe disse que tinha fantasias recorrentes de empurrar sua mulher para fora do helicóptero. A teoria de Peter é: "A civilização moderna, a vida nos subúrbios simplesmente não se adapta à natureza dos homens. Ela deixa os homens sentindo-se constantemente sem desafios. Eu diria que um terço da população está seriamente infeliz." Ele acha assustador que, com os avanços do controle de natalidade, a maioria das mulheres ainda prefira ter filhos. "Conheci tantas mulheres interessantes de seus 20 anos, depois vêm os 30 e elas sucumbem à pressão. Você pensa: 'Por que você não fez outra coisa com sua vida?'"

O verdadeiro problema, na visão de Peter, é que todo mundo é obcecado por segurança, ao ponto em que isso interfere com sua capacidade de pensar logicamente ou encontrar a felicidade. "Tem quem diga que vivemos o sonho deles, e eu lhes digo: 'Façam isso'. Mas dizem: 'Oh, não posso', e eu digo: 'Como assim, não pode? É claro que você pode'. E elas parecem um pouco confusas com essa declaração, porque é verdade."

Talvez, digo eu, seja porque preferem uma ruptura mais temporária com a sociedade: quando você abandona sua profissão, vende tudo, não há retorno.

"E esse", diz ele, com satisfação, "é exatamente o ponto." Miriam assente com a cabeça. "Porque quando você corta com sua vida entediante, infeliz, posso garantir que nunca mais vai querer voltar."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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