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Clarice Lispector à cabidela

“De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue” (LISPECTOR, 2016, p.404)

Do Le Monde Diplomatique, novembro 24, 2017
por Fábio Guimarães Liberal


O gosto de Clarice Lispector pela receita de preparo da galinha com o sangue aparece algumas vezes na ficção da autora num misto de desejo e moralidade, afinal matar um animal e consumir o seu sangue confronta os ideais pacíficos da civilidade.

Clarice Lispector é o tipo de escritora capaz de se alimentar com recursos mínimos de objetividade. Uma barata, trem ou ruído são mais que suficientes. Essa habilidade de redimensionar a banalidade deu vazão a um universo existencialista profundamente marcado pela fixação no aspecto ordinário da vida. A galinha está entre as compulsões da autora, retratada geralmente como portadora arquetípica do sacrifício. O fascínio pela criatura não se esgota no animal. É também fruto do gosto pela cabidela, ou molho pardo como prefere adotar Clarice em seus contos. A receita, preparada com o sangue da ave, aparece algumas vezes na ficção da autora num misto de desejo e moralidade, afinal matar um animal e consumir o seu sangue confronta os ideais pacíficos da civilidade.

Câmara Cascudo explica que o termo “cabidela” teria surgido a partir da palavra “cabo”, utilizada tanto para fazer referência às extremidades dos animais quanto a seus órgãos internos. Na Portugal do século XVI, os círculos mais ligados à corte se diferenciavam do restante da população se utilizando do termo “galinha ao molho pardo”. Esta distinção de classe talvez esteja na origem da variação da expressão no Brasil: enquanto a porção mais pobre do país adotou o linguajar vassalo, a mais rica assumiu a fidalga.

Clarice era uma mulher de classe média atraída pelo sabor perfumado do molho escuro e pelo simbolismo que o prato carrega. A visceralidade do corpo e da alma sempre fora seu eixo temático. Nele há espaço para o compadecimento com o fato do principal ingrediente, a ave, possuir status desfavorável dentro da hierarquia dos animais, mesmo entre aqueles mais consumidos pelo homem. Se por vezes a escritora exagera na caricatura da galinha como um ser escandaloso e desprovido de ordenamento motor, em outras lhe restitui alguma nobreza e sagacidade. Tem consciência da pouco consideração que o bicho tem perante bovinos, caprinos e suínos; que a coisa mais banal para o senso comum é uma titica de galinha; que uma pessoa com comportamento sexual promiscuo é um/uma galinha. O mesmo acontecendo no mundo anglofônico onde chamar um indivíduo de birdbrain (cérebro de galinha) é equivalente a tê-lo como um sujeito excepcionalmente apalermado.

É preciso ressaltar que até os anos 1950 a galinha era um animal muito presente nos quintais das casas brasileiras, mesmo nas cidades mais modernas. Por se tratar de um animal de pequeno porte, o abate, pelo menos do ponto de vista pragmático, nunca fora um grande empecilho. O atual complexo industrial brasileiro de avicultura, desencadeado pelo processo de urbanização do país ocorrido nos últimos 60 anos, foi decisivo para tornar a prática do abate “artesanal” obsoleta.

O fato de ter experienciado o abate em escala doméstica e problematizá-lo numa época em que era comum a prática ressalta a sensibilidade de Clarice para com os animais, embora não no sentido moral da ética animalista contemporânea e sim dentro de uma perspectiva mais íntima que busca refletir sobre a tradicional oposição entre corpo e alma. Afinal, o gênero de Clarice não permite romancear a vulnerabilidade da galinha para ilustrar uma opção pelos mais fracos ou para direcionar críticas a estrutura produtiva da carne. O bicho incorpora, pelo contrário, a ambiguidade de tornar aceito o caráter violento da vida e ao mesmo tempo considerar a truculência um desvio de conduta. Ao representar o fatalismo impresso em determinados impulsos humanos, o destino culinário da galinha oferece o lado conflituoso dos nossos anseios por civilidade devido a própria violência que sombreia os processos civilizatórios.

Um prato tão rico quanto a cabidela esconde um conjunto de práticas adquiridas ao longo do tempo e um complexo simbólico a ser explorado. Certos alimentos despertam respeito por aquilo que são capazes de aludir. O pão, por exemplo, mesmo entre os ímpios tende a ser visto com afeição por evocar um gesto típico da solidariedade humana. No caso do sentimento de Clarice pela galinha imersa em seu próprio sangue a deferência parece derivar da ideia tradicional do sangue como essência da vida, a seiva revestida de atributos sagrados e, por isso mesmo, quando transformado em ingrediente motivo de cuidados especiais. Seu potencial contaminante está conectado com os limites de uma ordem cósmica. Sendo uma escritora que se impõe o trabalho metafísico, Clarice se nutre da iguaria atroz tanto pelo desejo quanto pela metáfora.

O sangue fora de seu curso venoso altera a ordem, ressalta a morte, nos lembra do abate, de nossa brutalidade. Filha de refugiados de guerra, Clarice desconfia da civilidade, da frivolidade que tende a incentivar; a capacidade de maquiar a violência a ponto de fazê-la parecer o oposto de si mesma. O abate incomoda, mas se o concebemos como parte da vida precisamos encará-lo para entendermos o que é ser livre. Trata-se do esforço do artista cuja arte depende da manutenção de qualquer fração genuína de vínculo com a força criadora. Precisa da porção menos normatizada de seu ser. Ao comer a cabidela Clarice se percebe mais desgarrada.

A profundidade incerta, sem selo de inspeção, torna-se para ela uma ferramenta de luta contra a pacificação/domesticação que a superfície das experiências impõe. Aqui é possível associar a postura intelectual da escritora ao pensamento de Adorno, para quem a experiência na acepção da palavra só é possível a partir do confronto audacioso com alguma ameaça. No caso da bravata alimentar, a ameaça está refletida na lâmina da faca, não quando o instrumento serve de picotadora de legumes à brunoise ou julienne, mas quando desliza terrivelmente sobre o pescoço da galinha.

Num diálogo entre os personagens Ulisses e Loreley, extraído de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice dá indícios de sua justificativa moral por se lambuzar na cabidela. “ Claro que devemos comê-la, é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue”. Há certo espanto nisso, mas talvez certa razão em indagar: será que a crise atual do humanismo tem a ver com nossos estômagos excessivamente embrulhados.


Fábio Guimarães Liberal. Jornalista, mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba UFPB.

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