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A Ciência Econômica e o mito do Homem Necessitado



Do IHU, 04 Novembro 2017
Por Félix Talego


“A tradição do republicanismo, as místicas oriental e ocidental e as novas contribuições do feminismo e do ecologismo não consagram a Necessidade. Não compartilham que uma vida boa seja um bom nível de vida. Não acreditam que pobreza seja primeiro, nem necessariamente, carência material ou escassez de coisas, mas, ao contrário, submissão e servidão; que, como consequência, riqueza não é, ou não é primordialmente, abundância material, mas domínio. Não acreditam que os bens da terra sejam fundamentalmente 'recursos' para a finalidade superior da Produção”, escreve Félix Talego, professor de Antropologia Social na Universidade de Sevilla, em artigo publicado por Ctxt, 01-11-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

São muitos os pensadores, pré-modernos e modernos, que demonstraram que a simplicidade, a moderação, a serenidade e a contemplação são atributos que adornam toda pessoa madura, e que estes são os valores que foram cultivados nas comunidades em que o respeito a cada pessoa brilhou mais que as conquistas e os monumentos. Dois breves exemplos: na metade do século XIX, assim se expressou David Thoreau, em Walden (1854):

“... os mais sábios sempre viveram uma vida mais simples e austera que os pobres. Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e gregos formaram uma categoria tão pobre em riquezas exteriores, e rica em interiores, como nunca houve.”

E já no século XX, Antoine de Saint-Exupéry deu à mesma ideia mais vigor poético em O Pequeno Príncipe (1943), ao mesmo tempo em que refutava, do modo mais simples que conheço, a Ciência Econômica:

“- Bom dia’ – disse o principezinho.

- Bom dia – disse o vendedor.

Era um vendedor de pílulas especiais que aplacavam a sede. Toma-se uma por semana e já não se sente necessidade de beber.

- Por que você vende isso?’ – perguntou o principezinho.

- É uma grande economia de tempo – disse o vendedor. Os especialistas calcularam. São poupados cinquenta e três minutos por semana.

- E o que se faz com esses cinquenta e três minutos?

- O que se deseja...

- Eu, pensou o principezinho, se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, caminharia tranquilamente para uma fonte...”.

Apesar disso, os economistas e os ministros, sejam de qual partido for, continuam empenhados em seguir aumentando nosso nível de vida, erradicar a pobreza (compreendida como carência material) e conquistar para a humanidade inteira (e para eles) a opulência material e conforto ideais.

Todas as autoridades econômicas e a maioria social global têm claro o que é uma vida boa: um bom nível de vida, onde haja muito o que consumir e voracidade insaciável de coisas e entretenimento. Assim, viver é consumir e estar entretido, para o que é necessário trabalhar, argumento invertível: é preciso consumir para continuar criando postos de trabalho, pois que vida seria essa em que não se pudesse trabalhar para consumir para trabalhar para consumir...? É uma necessidade; é a Necessidade. Por acaso nós, seres humanos, não somos animais necessitados? Efetivamente, por trás da ideia do “nível de vida”, sustentando-a, está toda uma antropologia, uma concepção do ser humano: um animal necessitado, ainda que ele mesmo não acredite nisso e parece que não se comporta em conformidade.
Genealogia do mito

A noção de um ser humano universalmente necessitado é relativamente nova no acervo de ideias, crenças e mitos que dotaram as culturas de sentido. É o que ensina a história comparada das crenças e religiões. Começa a amadurecer no século XVIII, no marco de uma polêmica entre ilustrados, os chamados mercantilistas, que argumentaram a favor e contra o que chamavam de “a utilidade da pobreza”.

O problema de fundo que animou o debate foi a “preguiça”, desinteresse e subsequente abandono de seus empregos por muitos pobres, assim que eram levados a aumentar o tempo e o esforço na tarefa. Nas discussões, foram decisivas as contribuições de Bernard Mandeville (A Fábula das Abelhas, 1714) e de Adam Smith (A Riqueza das Nações, 1776).

No seio desta polêmica começou a se especular sobre as necessidades humanas, desde de posições que buscavam o modo de suscitá-las contra a preguiça e o absentismo, até as que já acreditavam em um homem abstrato, essencialmente necessitado e sempre propenso a intercambiar para satisfazer algumas necessidades potencialmente infinitas. Assim figura o Homem abstrato universal de Adam Smith, em sua citada obra, decisiva para a Ciência Econômica, até o ponto que tal Saber passa a andar com esse tratado, elogiado ainda hoje por seu abundante discipulado.

Thomas Malthus, outro dos pais da Economia, tornou sua a ideia do Homem universal necessitado em seu Ensaio sobre o princípio da população (1798), e fez alguma contribuição importante: delineou que não só todo homem está em perene necessidade, como também que a humanidade toda, desde sempre, esteve em perpétua necessidade, porque uma “lei natural” determina que a população cresça mais que os alimentos. Isso conduz, afirmava, a uma inexorável guerra pelos alimentos, que as classes superiores venciam com sua maior previsão.

Na versão malthusiana da Necessidade, a guerra de todos contra todos, que Hobbes havia explicado com base em uma complexa inclinação da alma humana (que pretendia entender também a antieconômica tortura, ou o suicídio), fica toscamente reduzida a uma animalesca (etológica) luta pelas coisas ou “luta pela existência”. Esta mesma tese seria recolhida, cinquenta anos depois, por Charles Darwin, em A origem das espécies (1859), mas levando ao extremo o etologismo que já sustentado por Malthus: a luta pela existência e a sobrevivência dos melhores adaptados preside a evolução de todas as espécies, a humana entre elas.

Temos, pois, que a ideia de um ser humano egoísta e apropriador, sobre a qual Smith edifica sua teoria do enriquecimento da comunidade, é ampliada nas versões posteriores de Malthus e Darwin, que concebem a história da vida e a história humana como uma perene e sempre precária fuga da Necessidade, que espreita sem fim. Esta concepção pessimista do ser humano e da humanidade atinge em sua circularidade argumentativa uma aparência imponente e incontestável: como a Necessidade preside a existência, o egoísmo, a concorrência, o desejo apropriador e a luta aferrada são impulsos positivos, um “instinto da espécie”, o melhor da humanidade.

Marx concebeu outro relato sobre a Necessidade, que também contribuiu para a ascensão moderna desta. Era bom conhecedor das filosofias antigas, especialmente a grega, e acreditava que a humanidade persegue veladamente, desde o princípio, a liberdade. E também compartilhava que a liberdade só se alcança quando não há necessidade. Há, pois, em Marx, como nos antigos, a convicção de que as faculdades humanas mais elevadas só podem ser alcançadas quando a necessidade é abolida.

No entanto, a discordância de Marx com toda a sabedoria antiga, invocada por Thoreau, é radical no que se refere ao caminho para conseguir aboli-la. Marx vislumbrou que a necessidade só seria superada após sua apoteose histórica final, no limite da opulência saciada. Os sábios antigos foram mestres na arte do crescimento interior desmerecendo, aquietando a necessidade. Estes ensinaram a simplicidade e, inclusive, o desapego como via para a liberdade. Marx ensinou a saciedade opulenta estendida ao conjunto da humanidade como caminho para a liberdade. É isso o que significa a expressão “desenvolvimento das forças produtivas”. Marx nos exorta: desenvolvam as necessidades vis e se rendam a elas, pois de tal anseio nascerá ao final, paradoxalmente (dialeticamente), a liberdade superior.

Todo o socialismo posterior veio sendo fiel a este núcleo do relato de Marx e comungou com a ideia de que a liberdade será o resultado paradoxal (dialético) da apoteose da necessidade: o desenvolvimento das forças produtivas e a elevação do consumo e “nível de vida” são um meio, uma travessia do deserto, necessária para se chegar ao reino final da liberdade. A fórmula essencial do socialismo marxista poderia se expressar simplesmente assim: à liberdade pelo jugo da necessidade, mediante o trabalho.
O mito consagrado

Enfim, os pais da modernidade, ainda que com matizes, celebram todos a Necessidade e ratificam a ideia de um Homem Necessitado Universal: a Necessidade estimula o Indivíduo (Smith), a Humanidade (Malthus), a espécie humana (Darwin), a história (Marx). A necessidade aferroa, fustiga, inquieta, e por isso em sua aparência primeira se mostra importuna e adversa em seus efeitos imediatos. No entanto, segundo este mito moderno do Homem Necessitado, seria antieconômico e inclusive imoral desatendê-la: deve ser atendida para que estimule e impulsione a adquirir mais, a consumir mais, a trabalhar mais, a produzir mais, para que toda pessoa e a humanidade prossigam em prol do Futuro definitivamente prosperado de Crescimento.

Este grande relato produtivista perdeu toda a atração para as minorias intelectuais ou artísticas, mas segue alimentando de sentido a ordem de crescimento e, para a maioria, atingindo o grau de óbvio e “natural”. E permeando não pouca teoria sociológica: toda aquela que assume acriticamente o conceito “nível de vida” ou “bem-estar material”, dando por certo que pobreza e riqueza são, respectivamente, carência ou abundância de coisas.
Heterodoxias

A tradição do republicanismo, as místicas oriental e ocidental e as novas contribuições do feminismo e do ecologismo não consagram a Necessidade. Não compartilham que uma vida boa seja um bom nível de vida. Não acreditam que pobreza seja primeiro, nem necessariamente, carência material ou escassez de coisas, mas, ao contrário, submissão e servidão; que, como consequência, riqueza não é, ou não é primordialmente, abundância material, mas domínio. Não acreditam que os bens da terra sejam fundamentalmente “recursos” para a finalidade superior da Produção.

A partir destas perspectivas, o que define uma sociedade ou comunidade política não é sua opulência material, nem mesmo a melhor ou pior distribuição que exista, mas que as relações pessoais se assentem sobre o binário dominante-dominado ou, ao contrário, em uma rede paritária de convivência; se a autoridade é entre mestres e discípulos ou, ao contrário, entre chefes e subordinados, amos e escravos. A partir destas tradições, acredita-se que este mundo é mais maravilhoso que conveniente, mais belo que útil (Thoreau); que uma ocupação é útil se é bela e que o essencial é invisível aos olhos e incomensurável (Saint-Exupéry).

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