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‘Somos governados pelo que há de mais vil e torpe na política brasileira’, diz Milton Hatoum

O escritor, tradutor e professor Milton Hatoum (Foto: Adriana Vichi / Divulgação)


Por Paulo Henrique Pompermaier
Da Revista Cult, 20 de outubro de 2017


Guardadas as devidas proporções, a censura e a repressão vividas na ditadura militar têm paralelo com o Brasil de 2017, acredita Milton Hatoum. Por isso, afirma, muitos jovens podem ler A noite da espera, seu novo romance ambientado entre os anos 1960 e 1970, à luz dos últimos acontecimentos políticos do país. “A censura a manifestações artísticas que acontece hoje também acontece no romance”, afirma à CULT. “Tudo isso é atual, como a própria repressão, mesmo que não seja hoje tão brutal quanto foi naquela época. Há indícios de um obscurantismo terrível”

Primeira parte da trilogia O lugar mais sombrio, o romance conta a história de Martim que, exilado em Paris, relembra os anos que viveu em Brasília, para onde se mudou em 1967 após a separação dos pais. Então com 16 anos, ele vive o duplo trauma do abandono da mãe e da convulsão política e social do país. Apesar de não ser autobiográfico, o romance está relacionado com as vivências de Hatoum, que se mudou para Brasília em 1967, aos 15 anos, para estudar arquitetura, e viveu em Paris em meados da década de 1980.

O autor sustenta que o livro pode – e até deve – ser lido numa chave contemporânea, apesar de iniciado há mais de cinco anos, “quando o Brasil era um país muito diferente”. Hatoum acredita que artistas e intelectuais também devem se manifestar politicamente. “Hoje somos governados pelo que há de mais vil e torpe na política brasileira. Não sei como agem os outros artistas, mas eu não me calo diante disso, e nem devo calar”. Leia entrevista a seguir.

CULT – Em seu novo livro, A noite da espera (2017), a separação dos pais do Martim parece quase se tornar uma metáfora para o rompimento que o Brasil experimentava com a ditadura militar. Em que medida Lina e Rodolfo assumem essa figura?

Milton Hatoum – O pai do Martim retrata um pouco do autoritarismo brasileiro, dessa figura patriarcal, do macho violento que não admite a separação da mulher nos termos em que aconteceram. Ele também é uma figura que traumatiza o filho, que já é traumatizado pela separação da mãe, uma separação também brusca e inesperada. E o movimento da mãe é o movimento de emancipação não só desse casamento opressivo, mas também uma emancipação intelectual e moral, digamos assim. É uma personagem um pouco misteriosa, a gente não sabe o destino dela, onde ela está, o que está fazendo, supostamente ela está dando aulas de francês, viajando com o amante. Mas é um momento de ruptura da instituição do casamento e também da ruptura política. São duas rupturas que confluem para o tema do romance, o da família e o da política. E são os dois abalos que causam trauma no filho.

Este romance parece seguir a linha na qual você trabalha de, por meio do registro memorialístico, fazer de regiões específicas, como Manaus, metáforas de rupturas e do contexto histórico brasileiro

O que eu tentei fazer foi elaborar um microcosmo ficcional em que as tramas familiares estão em consonância com as relações sociais e com o fundo político, inclusive com as políticas urbanas. A destruição de Manaus, do centro histórico etc, está em Dois irmãos (2000), em Cinzas do norte (2005) e agora, de uma forma mais expressiva talvez, em A noite da espera – pelo menos nos dois primeiros volumes, que são irmanados. No terceiro há um deslocamento porque ele é ambientado na França. Eu não quis escrever um romance ostensivamente político, mas a história desse grupo de personagens é ambientada em Brasília nos momentos mais brutos da ditadura brasileira, então é inevitável falar da política, assim como do destino de cada um, de suas vidas. No fundo é um modesto romance de formação, um romance de aprendizado que evoca muitas coisas – a formação intelectual, sentimental, oral e política dos personagens. E cada um assimila a informação de acordo com seu desejo, seu sonho, suas ambições. O mais inativo deles é o narrador, Martim, que não é um militante político, ele tem uma amargura que o paralisa. Isso também está na forma do romance, nas anotações salteadas, sem sequência, com várias interrupções, silêncios e solidões.

Tanto que em pleno AI-5 ele quer se isolar para viver só com a Dinah

Sim, porque faz parte desse de fugir a tudo, a todo esse ambiente opressor. Mas é também uma atitude ingênua, porque ele é um ingênuo, daí o romance de formação, que opera com a passagem da ingenuidade do jovem à maturidade, à vida adulta. O romance trata dessa passagem, que é menos complexa para alguns e mais demorada e difícil para outros, por isso cada personagem tem a sua personalidade. Nem todos estão ligados a atividades políticas, são personagens bastante diferentes uns dos outros. E cada leitor pensa sobre cada um como lhe for conveniente. Também há toda uma galeria de personagens que já são adultos, são mentores, como Jorge Alegre, o dono da livraria; o embaixador Faisão. E inclusive personagens de outra posição social, como a empregada, mãe do Lázaro, que trabalha na casa do Fábio, que é filho do embaixador. Essa promiscuidade, vamos dizer, é muito comum na sociedade brasileira, e era comum em Brasília. Eu tive colegas e amigos que eram filhos do poder, filhos de ministros, de secretário de segurança, de políticos, senadores, deputados da ARENA. E os filhos, às vezes, se confrontavam com os pais. A própria Dinah tem uma questão com o pai, que é um entusiasta da ditadura e do crescimento econômico.

Como você disse, o tom político é mais expressivo neste livro do que nos outros, e curiosamente ele foi publicado em 2017, um ano expressivo para a política nacional. Vê paralelos entre os dois momentos?

Isso foi inesperado, não foi calculado. O romance começou a ser escrito há mais de cinco anos e o Brasil estava em outra toada, havia um otimismo, era um país muito diferente. Agora, o que os primeiros leitores perceberam, e mesmo os editores, foi essa projeção, esse eco do romance no tempo presente. Isso foi involuntário, mas como o Brasil é um país que vive ciclos autoritários, também não estranhei muito, não fiquei perplexo com o que está acontecendo. As forças conservadoras são muito poderosas, inclusive a extrema direita está em plena ascensão agora. Então acho que muitos jovens vão ler o romance à luz do que está acontecendo hoje porque há esse paralelismo, é uma leitura possível. E vou te dizer, é até desejável no final das contas. A censura a manifestações artísticas que acontece hoje é algo que acontece também no romance, com um falso professor, um delator, que rasga uma revista de arte. Tudo isso é atual, como a própria repressão, mesmo que não seja hoje tão brutal quanto foi naquela época. Há indícios de um obscurantismo terrível, então essa leitura, essa sincronia, é bastante razoável.

Mesmo seus primeiros romances também podem ser lidos em chave contemporânea, pensando-se, por exemplo, no ataque aos direitos indígenas.

Sim, porque o passado não pode ser rígido e cristalizado, de alguma forma ele tem que ecoar no presente. Ele permite uma leitura do presente, digamos. Isso os historiadores também fazem, mas a verdade da literatura não é a verdade da história. A verdade da ficção não é uma verdade filosófica, é apenas uma verdade das relações humanas. Esperamos que o leitor pense algo assim ‘isso de fato aconteceu, isso poderia ter acontecido’. Mas para entender o Brasil de hoje é preciso ler alguns livros de história fundamentais para entender esse conluio entre os três poderes, como que estão entrelaçados, como há uma estrutura velha e arcaica que vem de muito tempo. Você entende muitas coisas do Brasil, por exemplo, lendo Grande sertão: veredas, onde essas relações arcaicas e tradicionais são mostradas no centro e no norte de Minas, nas guerras entre grupos de jagunços, alguns lutando contra o governo, outros querendo levar a modernidade para o sertão, há todo um julgamento político importante. Assim como você entende lendo Os sertões, ou Raízes do Brasil, Do império à república, Os donos do poder, são livros importantes para a gente entender o que está acontecendo hoje. Mas é possível e até desejável entender a sociedade brasileira andando pelo Brasil, saindo da nossa bolha Rio-São Paulo, do centro de São Paulo e da zona sul do Rio de Janeiro. É preciso conhecer um pouco a Amazônia, um pouco do nordeste, os interiores do Brasil. Isso eu acho que uma parte da minha geração fez. Quando eu li Os sertões quis conhecer os sertões, fui à Bahia. Isso é importante para quem escreve, e de uma perspectiva realista da literatura realista. Não que a literatura seja uma cópia da realidade, mas é uma transcendência da realidade. Basta entender o que você escreve e conhecer sobre aquilo que está escrevendo.

Você enquanto escritor incorpora um pouco aquela figura do intelectual sartriano, de se expressar politicamente. Qual o papel das artes, da literatura, do intelectual neste contexto do país?

Eu acho que o intelectual não deveria ficar calado. Eu mesmo, nas crônicas que publico, nas palestras que dou, quando o assunto político aparece, o tom é sempre crítico a essa situação. Houve de fato um golpe parlamentar, isso ninguém tem mais dúvida, só quem articulou o golpe ainda rechaça essa versão – que nem é versão, é um fato. E o poder foi assaltado por uma quadrilha. Hoje somos governados pelo que há de mais vil e torpe na política brasileira. Não sei como agem os outros artistas, mas eu não me calo diante disso, e nem devo calar. Inclusive assinei um manifesto agora, que começou com artistas plásticos, contra toda essa censura e obscurantismo que está ai. Mas isso deve servir para todos, para o cidadão comum, até mais porque a arte não é sacra, também somos cidadãos comuns. E acho que a posição do intelectual deve ser independente também. Por isso traduzi o livro do Edward Said, Representações do intelectual (2005), que é uma série de ensaios sobre a posição do intelectual no mundo contemporâneo, em que ele fala da independência, da ação crítica do intelectual.

Como sua vivência e suas memórias de Paris e Brasília ajudaram a compor o livro?

Na verdade, há alguns indícios autobiográficos, mas eu elaborei outras histórias, outras narrativas, e eu não sou nem um pouco esse Martim, por exemplo. Todos os personagens são construções. Amigos de Brasília dificilmente vão se reconhecer diretamente, talvez um ou outro traço, um modo de ser de um ou outro personagem. A memória só faz sentido quando ela inventa, quando ela se torna imaginação, que é a força motriz da literatura. Agora, eu falei de lugares que eu vivi, justamente para expressar essa verdade interior, que é a verdade das relações humanas. Dificilmente eu teria escrito um romance ambientado em Brasília, e depois em São Paulo no segundo volume, sem ter vivido nessas cidades. E depois em Paris, claro, que aparece como o lugar do exílio. Eu quis escrever um romance construído em três tempos: o parisiense, em que ele transcreve e revisa as anotações dele, as memórias; o tempo presente da narrativa, que é Brasília de 1968 a 1972; e o tempo mais recuado que é das reminiscências, da vida dele em São Paulo na infância, com a família, os avós. E são três tempos porque, no fundo, o fio da narrativa é o fio da vida. Só que é um fio sinuoso, com interrupções, lacunas, nós. É um fio que lembra um pouco o traçado, o desenho de um labirinto. E por trás de tudo isso tem a poesia, a tradução, os poetas brasileiros, de língua inglesa e francesa, tem a formação literária do narrador principal.

Em uma entrevista de 2015 você diz que depois de terminar essa trilogia não iria mais escrever, pois disse tudo que tinha para dizer. Essa posição ainda se mantém?

Naquela época eu estava muito cansado com esse livro, estava há muito tempo trabalhando nele, e eu pensava que ia esgotar tudo que tinha a dizer, mas hoje não sei. Tenho escrito alguns contos, um dia talvez possa reunir para publicação. Mas é tanto trabalho para fazer, preciso reescrever todo o segundo volume, reescrever o terceiro. No momento em que eu perceber que não tenho mais nada a dizer, nem inventar sobre minha experiência vivida, eu paro. Não quero escrever qualquer coisa, publicar por pura vaidade ou para ganhar alguns cobres a mais. Tem tanta gente escrevendo que eu nem acho que a gente deve escrever tanto, só devemos escrever o necessário, o que for impossível não escrever. E é por isso que a gente escreve, quando o desejo de escrever prevalece sobre o silêncio. Quando isso não acontecer é melhor silenciar, e é preciso ter coragem para silenciar também. Raduan Nassar é um corajoso, não tinha mais nada a escrever e parou, o que não deixa de ser admirável.

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