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Quem realça descaminho bolchevique ignora a própria noção de revolução

Outubro de 2017, este mês que está prestes a acabar, foi lembrado com o centenário da Revolução Russa. Muito haveria de se dizer a respeito desse evento histórico que marcou todo o século 20.



Da Folha de São Paulo, 20 de outubro, 2017
Por Vladimir Safatle

Marcelo Cipis/Editoria de Arte/Folhapress


Outubro de 2017, este mês que está prestes a acabar, foi lembrado com o centenário da Revolução Russa. Muito haveria de se dizer a respeito desse evento histórico que marcou todo o século 20.

Ainda mais em uma época como a nossa, para a qual a ideia mesma de revolução parece não ter direito de cidade, como se fosse um momento delirante de entusiasmo ébrio do qual melhor seria se afastar. Como se fosse um convite necessário a desejos de transformação que só poderiam redundar em totalitarismo e assassinato em massa.

Mas, ao menos nesse sentido, há de se insistir como nossa época destoa radicalmente dos séculos que a precederam. Pois, desde o final do século 18, a noção de revolução será o conceito norteador dos processos políticos.

De 1789 até o final dos anos 1970 do século 20, o mundo conhecerá uma sucessão impressionante de lutas populares por modificações globais em nossas formas de vida e em suas estruturas de sujeição. Lutas que expressavam uma concepção de história e de tempo até então desconhecida.

Até meados do século 18, a história foi em larga medida aquilo que ela era para Cícero, a saber, Historia magistra vitae ("história como mestra de vida").

O que entendemos por história era o relato de fatos exemplares que poderiam nos auxiliar a nos orientar no presente, o que pressupunha continuidade profunda entre o agora e o passado.

Por ser o discurso do exemplo e do modelo, a história era o tempo da reiteração. Com a noção de revolução aparecia, no entanto, a figura de um tempo descontínuo, sem medida comum com o que até então ocorreu. Um tempo que retroativamente reconfigura os acontecimentos e modifica seu sentido.

Mais do que o tempo animado por uma crença redentora na perfectibilidade, esse tempo sem medida da revolução era, na verdade, o tempo de uma aposta. Uma aposta incerta, difícil, um lance de dados que parece abrir as melhores e piores possibilidades.

Mas uma aposta na qual se deposita a possibilidade mesma da realização de um conceito tão necessário quanto inseguro, a saber, o conceito de liberdade. Por isso, as revoluções nunca foram feitas apenas em nome da justiça social, do fim da espoliação econômica.

Elas foram feitas em nome da ideia de que a liberdade ainda não se realizou, de que o que temos é muito pouco, de que fenômenos como a espoliação econômica eram, acima de tudo, atentados contra a efetivação social da liberdade.

Se um poeta de revolução, como Vladimir Maiakóvski, podia dizer: "Dai-nos, camaradas, uma arte nova que arranque a República da escória" era porque só a liberdade que a arte procura realizar, só a transformação que ela produz em nossa gramática de afetos e em nossa percepção era capaz de retirar a vida política de sua miséria. No que se via que a mudança era mais do que uma nova ordem econômica e política. Era uma transformação na subjetividade.

Alguns poderiam se indignar com a ideia de tamanha mobilização de energia por um lance de dados. Mas partilhamos uma tradição na qual até mesmo os deuses apostam.

Que diga Jó, objeto de uma reles aposta entre Deus e o Diabo a respeito da extensão de sua fé. Se deuses apostam, por que os humanos também não guiariam suas ações por aquilo que, diante das condições atuais, só pode aparecer como uma aposta?

Mas aos atores políticos, pede-se prudência como virtude, dirão alguns. É verdade, pede-se prudência às vezes, mas nem sempre. Prudência sempre é simplesmente uma forma de servidão em relação ao presente.

Seria fácil lembrar agora que a Revolução Russa conheceu, muito rapidamente, inúmeros descaminhos. Não é o caso de esquecê-los. Mas aqueles que gostam de lembrá-los, o fazem com a esperança de retirar, de uma vez por todas, a noção de revolução do horizonte de nossas vidas.

Contra eles e contra todos aqueles que se servem das revoluções para matá-las, há de se lembrar mais uma vez de Maiakóvski: "Ao Comitê Central do futuro ofuscante, sobre a malta dos vates velhacos e falsários, apresento em lugar do registro partidário todos os cem tomos de meus livros militantes".

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