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"O professor que triunfa na universidade é o burocrata"



Do IHU, 27 Outubro 2017
Por Borja Hermoso, publicada por El País. A tradução é de André Langer.


Envolto em um impecável look executivo – traje azul escuro, camisa branca e gravata vermelha – completado por ostensivas botas esportivas cor areia, viaja Nuccio Ordine (Diamond, Itália, 1958). Estamos diante de um cidadão, um professor e um ensaísta que se empenhou em resistir. Resistir, a partir da defesa das humanidades e do ensino dos clássicos, à inércia inexorável da consabida deriva mercantilista.

É por isso que Ordine se indigna contra a transformação das universidades como templos do saber em fábricas de novos profissionais perfeitamente projetados para o mercado. Por isso, clama contra a derrota do pensamento frente ao dinheiro e do curto prazo frente ao longo prazo, e, por isso, conta-o em livros-manifesto de leitura apaixonante. É o caso de A utilidade do inútil [Editora Zahar] (traduzido para 20 línguas em 30 países), um verdadeiro fenômeno editorial que consiste na reivindicação furiosa das inúteis humanidades – mais necessárias do que nunca, argumenta ele – frente aos saberes úteis, com a ajuda de um bom punhado de filósofos e escritores de todas as épocas.

E é também o caso do seu novo livro, Clássicos para a vida. Uma pequena biblioteca ideal, no qual o professor da Universidade da Calábria, longe de querer estabelecer um cânon literário-filosófico, aspira apenas a oferecer pistas, balizas a navegadores para os quais, definitivamente, o dinheiro não é tudo. Também marcam presença Einstein, Thomas Mann e Montaigne. Tanto A utilidade do inútilquanto Clássicos para a vida estão editados em castelhano pela Acantilado e em catalão pela Quaderns Crema. Ordine esteve na segunda-feira em Barcelona para falar sobre o seu novo ensaio e para inaugurar, ao lado do compositor e músico Jordi Savall, um novo ciclo de Conversas em La Pedrera.

As grandes obras literárias e filosóficas não deveriam ser lidas para ser aprovado em um exame, mas para, em primeiro lugar, experimentar prazer e, em segundo lugar, para melhorar como pessoas. Esse é o ponto de partida para este especialista no Renascimento e na vida e na obra de Giordano Bruno. Mas Nuccio Ordine não é ingênuo e sabe que a batalha está perdida de antemão. "O poder nunca quis gente cultivada; dessa maneira, é mais fácil fazê-la acreditar em coisas. Quando não se é uma pessoa cultivada, não se tem capacidade crítica. Maquiavel dizia que a humanidade está dividida entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem. Quem sabe tem sempre uma posição dominante. O segundo é um escravo do outro", explicou na segunda-feira em uma conversa com este jornal.

Ordine considera que o presente ao qual a educação e a cultura se referem é um espelho do pensamento único e da negligência, quando não da consciente negação do ensino. Ele argumenta da seguinte maneira: "Cada vez mais, nos institutos e nas universidades, o professor que triunfa é o professor burocrata, aquele que se dedica a escrever relatórios sem parar e que participa de todos os conselhos. Paradoxalmente, o professor que se dedica a ser professor tornou-se algo marginal dentro do sistema. Isso é muito grave”. Sua proposta? “A universidade e a escola devem voltar ao espírito para o qual foram fundadas. A palavra escola vem do grego skolé, que significa ‘tempo livre’, ‘ócio’. Significa que você não deve fazer algo porque se sente pressionado por uma exigência prática, mas por você mesmo, para melhorar".

Para combater esse fatalismo, nos últimos 15 anos, Ordine leu aos seus alunos um grande número de passagens de obras de escritores ou pensadores não necessariamente ligados ao temário que lhe tocava. De Borges a Pessoa e de Maquiavel a Cervantes, passando por Goethe, Saint-Exupéry, Ludovico Ariosto, Montesquieu, Homero, Hipócrates ou Stefan Zweig, entre outras dezenas de nomes, ele relacionou esses nomes a questões da atualidade. Dessa maneira ele demonstrou o que estava perseguindo: que os clássicos não oferecem apenas prazer; eles também oferecem soluções.

Para ele, quase tudo é uma questão de disjunção entre o curto e o longo prazo. Isso afeta a práxis política. Isso afeta a educação. Isso afeta o compromisso ou não daqueles que têm o dinheiro para ajudar a criar melhores gerações de cidadãos. "O mercado exige hoje uma coisa que em seis anos já não vale mais, o que impede ver as coisas no longo prazo. As profissões e os ofícios nascem e desaparecem a toda velocidade. Mas no ensino e na aprendizagem em profundidade, os prazos são de 20 ou 25 anos. E como você vai aplicar uma lógica de mercado se 25 anos depois absolutamente tudo terá mudado?" Mas resta, garante, um resquício de esperança: “Há algo que nem todo o dinheiro do mundo pode comprar: o conhecimento. Isso é fruto de um esforço que só você pode fazer, e nisso ninguém pode substituí-lo".

Ele propõe Nietzsche e seus elogios sobre a lentidão na aprendizagem como um dos modelos a seguir. E ele enfatiza que, embora os sistemas de educação ocidentais estejam avançando a toda velocidade em direção a outro modelo, que consiste em fábricas de robôs humanos muito úteis, incultíssimos e autoconvencidíssimos de sua excelência, um país tão hiper-tecnológico e tão cibernético como a Coreia do Sul intensifica seus investimentos em educação humanística. "Você sabe que, há um ano, a Unesco organizou uma espécie de campeonato mundial de filosofia e que os dois primeiros classificados eram dois sul-coreanos?", pergunta Nuccio Ordine.

“Batendo parede contra parede, todos sairão perdendo: Catalunha e Espanha”


Nuccio Ordine visitava Barcelona e a pergunta não se fez esperar. Uma jornalista perguntou-lhe sobre qual autor clássico recomendaria para entender o que está acontecendo na Catalunha. O professor italiano não fez rodeios: “Chocando parede contra parede todos sairão perdendo, Catalunha e Espanha. O povo catalão, de grande abertura, precisa pensar em uma Europa unida e em fazer desaparecer as barreiras entre a Catalunha, a Espanha, a Itália, a Espanha, a França. Para nos orgulharmos da nossa cultura, temos que nos orgulhar da Europa". Ele terminou da seguinte maneira: "Homero não é grego, ele é de todos. Cervantes não é espanhol, ele é patrimônio de todos. E Ausiàs March não é valenciano, ele é de todos".

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