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O castelo de areia da ortodoxia econômica diante do sopro iconoclasta de Belluzzo



Do IHU, 10 de Outubro, 2017
Por: Ricardo Machado 


Luiz Gonzaga Belluzzo é discreto até quando fala. Sem grandiloquências vai desmanchando os castelos de areia da economia ortodoxa. Tal qual John Maynard Keynes, autor de sua predileção, Belluzzo, de orientação heterodoxa, dedica-se à iconoclastia econômica. Com uma ampla trajetória acadêmica e profissional, o professor e pesquisador fala do alto de sua experiência e estremece as bases da ortodoxia econômica, que raramente lhe dá ouvidos, mas que sente, a cada crise, o tremor da própria ruína.

Foi em uma fala assim, mansa e consistente, que Belluzzo prendeu a atenção de mais de 200 pessoas no Auditório Central da Unisinos na noite da segunda-feira, 9-10-2017, durante a conferência Manda quem pode, obedece quem tem prejuízo, título que dá nome a seu último livro. O evento integra a programação do ciclo de eventos Intérpretes e suas obras.

Assim como na obra literária, o tom da conversa de Belluzzo transita entre a crítica profunda e a sátira à economia. “Esse é um livro pós-crise de 2008. Trata-se de uma crítica bem humorada aos desacertos da economia ortodoxa”, explica. Segundo o professor, o principal problema da ortodoxia econômica é o próprio fundamento sob o qual se sustenta, isto é, o homem-econômico-racional, que seria capaz de escolhas de acordo com as regras da racionalidade.



Auditório Central da Unisinos recebeu público de mais de 200 pessoas para ouvir o economista Luiz Gonzaga Belluzzo (Fotos: Ricardo Machado/IHU)

É diante da falência desse indivíduo que Belluzzo convoca Keynes. “Para Keynes, a Primeira Guerra Mundial foi decisiva, porque o fez sair do tabernáculo do individualismo. Ele dizia que éramos pré-freudianos”, contextualiza. “O choque da Primeira guerra mundial foi tremendo, pois pela primeira vez usaram armas químicas, submarino e avião. Isso foi uma coisa brutal. Diante do ambiente intelectual que ele vivia, isso foi um terremoto. Percebeu que a civilização é apenas uma casca. A realidade dura era a da destruição”, complementa.

Relações

Keynes foi o primeiro economista depois de Marx a tratar das relações – “isso é o mais importante nas ciências sociais”, pontua Belluzzo –, pois só se poderia compreender as partes a partir do todo. Com isso ele fez o gancho com sua obra. “Nosso livro não é um tratado acadêmico, mas uma tentativa de fazer as pessoas comuns compreenderem o que está em jogo entre o sistema empresarial, os bancos e os governos”, destaca. “Isso é muito importante de ser observado, porque os economistas tendem a tratar os governos como entidades externas. A questão é que sem regulamentação jurídica, não há economia de mercado. Sem lei de Sociedade Anônima, não existe livre comércio. Logo, o Estado está diretamente ligado”, provoca.
Globalização

Belluzzo lembra que quando se fala o termo “globalização” há uma tendência ao entendimento do que isso significa, contudo, tratam-se, diz ele, de entendimentos muito amplos e que devemos pensar o fenômeno no particular. “A divisão econômica do trabalho é dividida por quem produz bens de consumo e quem produz bens de capitais. O problema é que o sistema de capitais tende a gerar mais riqueza financeira que riqueza real. No fundo, o que o Piketty faz é descrever como se deram as mudanças nas formas de riqueza”, analisa.

Em termos mais pragmáticos, o conferencista chama atenção para a forma como a divisão econômica do trabalho funciona na prática. “Empresas como esta [Belluzzo pega seu iPad na mão e mostra para a plateia] pensam as coisas no Vale do Silício, produzem o design e algo mais, mas mandam tudo para a China para ser produzido lá. As escalas de produção na China são monstruosas. Eles têm ganho de escala, tanto nos bens de consumo quanto nos bens de capital”, reitera. “O que vai fazer que nós entendamos a globalização, na prática, é pensarmos a relação entre EUA e China, o que, por sua vez, explica a crise. Houve uma acumulação financeira nos Estados Unidos e uma acumulação produtiva na China”, esclarece.



Política

De acordo com o economista não há como explicar a vitória de Trump, “aquele sujeito inteligente e ponderado” ironiza, sem levar em conta a desindustrialização dos Estados Unidos. “Ela [a vitória de Trump] é resultado da migração das fábricas para a China. Ele fez a campanha dizendo que iria industrializar os EUA, mas esqueceu de avisar as empresas que foram produzir na China”, assevera.

Ao finalizar, Belluzzo refletiu, uma vez mais, para a necessidade de conhecermos a história, inclusive a de nosso tempo, sem a qual não há possibilidade de se fazer economia. “Sem história não se faz ciência humana. Não há possibilidade nenhuma de explicar o que aconteceu e o que está acontecendo sem conhecermos a nossa própria história”, destaca.

Antes de se despedir lembrou de uma cena do filme do diretor italiano Roberto Andò, As Confissões, em que um monge trapista é convidado para uma reunião dos Primeiros Ministros do G8. “Em certo momento, depois de o monge ter se reunido com os ministros, uma mulher o interpela e o interroga dizendo que seus conselhos estão levando ao fim da civilização. Ao passo que o monge responde: – Minha senhora, nós temos concepções muito diferentes sobre o que é civilização”, finaliza Belluzo sob os aplausos da plateia.


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