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México: uma tumba para os jornalistas

Foto: www.univision.com

Do IELA, 16 de Outubro de 2017, 
por Waldir Rampinelli


O México é o país que mais mata jornalistas no mundo. Já se vão 130 assassinatos de comunicadores desde o ano 2000 e as investigações para encontrar os culpados não prosperam. Verdadeiras zonas cinzentas cobrem estes processos. “Matem-nos a todos”, afirmou Javier Valdez, o último a ser morto, “se essa é a sentença para se noticiar este inferno. Não ao silêncio.”
Os responsáveis diretos pelo ataque ao periodismo crítico, investigativo e informativo são o governo federal, os estaduais, o narcotráfico, as milícias e as organizações criminosas. Todas estas entidades querem atuar na sociedade sem qualquer tipo de fiscalização, de crítica e de oposição. Só assim conseguem permanecer no poder acumulando verdadeiras fortunas, seja estando nas chefias de governos, seja estando no comando da economia subterrânea. A população, sem saber o que fazer, assiste bestializada a este desfile de medo e de horror.

Trabalhar em um meio de comunicação, em algumas regiões do México é quase que pedir um atestado de óbito antecipado. Um jornalista de Veracuz, região dominada pelo Cartel dos Zetas, me dizia que ao voltar de uma cobertura de um massacre perpetrado por esta organização criminosa, recebeu uma chamada em seu celular, ordenando-lhe que manchete deveria por no seu jornal, no dia seguinte, sobre o acontecido. E para reforçar o pedido, os criminosos davam os nomes completos de seus filhos e as escolas em que estudavam. Assim funciona a imprensa no interior do país. Um cartel impondo a linha editorial. Verdadeiras zonas de silêncio.

É mais fácil cobrir as guerras do Iraque e da Síria, afirmava um jornalista estrangeiro, que a República Mexicana. Enquanto lá se conhece o inimigo, o seu alcance, a sua limitação, aqui no México não se pode ver o seu olhar, pois não se sabe onde ele está. “Periodismo bajo riesgo”, como se diz. A decomposição do tecido social é tão grande, que já se tornou comum comentar que determinados jornalistas cobrem a “Guerra de Guerrero”, ou a “Guerra de Veracruz”, ou a “Guerra de Michoacán”, referindo-se a estados da República. A estratégia usada já não é mais um jornalista viajar sozinho, mas em grupo, para a auto proteção. E o presidente mexicano, cinicamente, fala que o país vive em uma democracia e caminha para ser uma potência no século XXI.

Na Cidade do México, os jornalistas se sentem um pouco mais protegidos no tocante aos grupos criminosos. No entanto, são demitidos sumariamente das empresas de comunicação quando começam a incomodar os poderosos. O caso mais notório foi o de Carmen Aristegui, quando tornou público o escândalo da “Casa Branca”, uma mansão “comprada” pelo presidente Enrique Peña Nieto de uma empreiteira que havia prestado serviços onerosos ao Estado. O mandatário simplesmente fez chegar ao proprietário do meio de comunicação o seu descontentamento com a série de reportagens que o envolvia diretamente com a corrupção. Pronto. Carmen estava na rua. O povo logo entendeu e fez manifestações públicas em defesa da liberdade de expressão. Aqui na capital do país não se mata, demite-se!

Há um verdadeiro estreitamento da liberdade de expressão no país, onde cada vez se torna mais difícil fazer jornalismo livre. Os jornalistas que mostram o vínculo entre a política e o narcotráfico, são assassinados; os que fazem matérias de investigação documentando a corrupção, são demitidos; e os que pensam de modo distinto, são punidos com a perda de seus programas. A verdade foi soterrada. Vive-se um autêntico estado ditatorial.

Uma das maneiras de denunciar os assassinatos contra jornalistas é aproveitar a visita de um chefe de Estado estrangeiro e fazê-lo ver a realidade mexicana. Foi o que aconteceu com Justin Trudeau, primeiro ministro do Canadá, que esteve no México neste mês de outubro de 2017. Trudeau ficou pasmo com o pouco avanço em relação aos 43 de Ayotzinapa, com os feminicidios e com os crimes contra os jornalistas.

Apesar de toda esta situação de morte, de dor e de lágrimas, muitos jornalistas mexicanos continuam seu trabalho com valentia, coragem e honestidade. Sem complacências. Possivelmente, esta força venha de grandes periodistas que fizeram grandes reportagens, marcando para sempre os comunicadores mexicanos. O primeiro deles foi Ricardo Flores Magón, com seu jornal Regeneración, um verdadeiro precursor da Revolução Mexicana de 1910; o outro, John Reed, com seu México Insurgente, em 1914; e por fim, John Kennet Turner, com seu México Bárbaro, em 1909. Não existe história do passado, já que ela atua sobre o hoje; é, portanto, sempre uma história do presente.

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