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Emissão de gases estufa do Brasil tem maior crescimento em 13 anos



Do IHU, 26 Outubro 2017
Por Philippe Watanabe, publicada por Folha de S. Paulo



As emissões brasileiras de gases do efeito estufa aumentaram 8,9% de 2015 a 2016. É o segundo ano consecutivo de crescimento - o maior desde 2004 - e, mais uma vez, desmatamento e agropecuária pesaram na conta.

Os dados fazem parte do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa) e foram divulgados nesta quarta (25) pela ONG Observatório do Clima.

O Brasil emitiu 2,3 bilhões de toneladas de gás carbônico em 2016. Em 2015 havia liberado 2,1 bilhões. O aumento é o maior dos últimos 13 anos e representa a emissão mais alta desde 2008.

A elevação se deu principalmente pelo aumento do desmatamento em 2016. Em 2017, entretanto, dados recentes do governo apontam redução da destruição de florestas.

A protagonista nas emissões continua sendo a agropecuária, responsável por 74% dos gases-estufa liberados. O setor apresentou crescimento de 1,7% de 2015 a 2016.

A emissão agropecuária é dividida em direta (22%) e por "mudança de uso da terra" -o que geralmente significa desmatamento- (51%).

Todas as outras fontes de emissão analisadas pelo Seeg (energia, processos industriais e resíduos) apresentaram redução. Uma das explicações apontadas para o crescimento das emissões da agropecuária é a crise econômica.

Segundo Cirino Costa Junior, da ONG Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), as dificuldades econômicas levaram as pessoas a consumir mais carne suína e de frango e menos carne bovina.

Com a queda nos abates, mais animais ficam mais tempo nos pastos produzindo gases-estufa durante a digestão. Em 2016, o

Brasil contava com um rebanho de gado bovino de cerca de 200 milhões de cabeças.

Fertilizantes


Outro fator importante foi o crescimento do consumo de fertilizantes nitrogenados, que resultam na produção de um gás-estufa quase 300 vezes mais potente que o CO2.

Para facilitar a análise de emissões, os pesquisadores "leem" outros gases estufa como um valor convertido em CO2 -conhecido como CO2 equivalente.

"Já foram investidos R$ 20 bilhões no programa de agricultura de baixo carbono, só que não sabemos o impacto disso. Se monitorássemos esses produtores, poderíamos abrir mercados para eles [como produtos diferenciados]", afirma Costa Junior.

"Se zerássemos as emissões da agropecuária, teríamos emissões líquidas zero no Brasil", afirma Tasso Azevedo, coordenador do Seeg.

Outro ponto analisado foram os solos degradados, pois eles também emitem CO2. No país, há 175 milhões de hectares de pastagens, dos quais 45 milhões estão degradados -área equivalente à da Espanha, segundo Costa Junior.

O especialista afirma que os produtores perdem oportunidades econômicas ao não cuidarem dessas áreas.

Ele afirma que o custo para recuperação e manutenção é de cerca de R$ 2 mil anuais por hectare e que isso possibilitaria a triplicação da produção de carne, o que compensaria os gastos.

Além disso, há chance de utilização dessas áreas para outras atividades, como florestas plantadas -voltadas para celulose, por exemplo.

Contudo, ainda há dificuldades para acompanhamento dessas possibilidades.

"Na área agrícola há algumas metas, por exemplo, recuperar 15 milhões de hectares de pastagem degradada. Nós não temos quanto era, temos apenas uma estimativa, e também não temos o quanto está sendo recuperado. Nós não temos os sistemas implementados para monitorar", afirma Azevedo.

"Nós temos a tecnologia já desenvolvida na Embrapa e outros centros de pesquisa. Não tem que inventar nada. É só juntar as pecinhas. Para isso é preciso um tomador de decisões consciente e, infelizmente, no momento atual, estamos vivendo uma política de favores. Então não tem lógica nenhuma, é toma lá dá cá", diz André Ferretti, coordenador do Observatório do Clima.

Outro ponto é que o aumento das emissões foi verificado em momento de crise, no qual, normalmente, se espera diminuição de emissões.

No setor de energia houve diminuição de 7,3% nas emissões -o que também poderia ser explicado pela crise econômica. Essa queda no setor também se relaciona com o aumento do uso de energias renováveis.

"A energia eólica, apesar da recessão, gerou milhares de empregos no Brasil. Quem investiu, está ganhando dinheiro. A saída do vermelho está no verde", diz Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.

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