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Em Curitiba, um sopro de vida

O fotógrafo Gustavo Jordaky registra as angústias e alegrias dos moradores da capital paranaense

Da Carta Capital, 29 de Outubro, 2017
por René Ruschel

Gustavo Jordaky

"A vida com todos os seus percalços, vale a pena", diz o paulistano de origem

O fotógrafo Gustavo Jordaky é um especialista em retratar a vida. Todos os dias ele percorre as ruas de Curitiba em busca de um novo enredo. Nas praças e ruas, nas vielas de qualquer periferia, nos lugares mais recônditos e esquecidos, ou até mesmo nos bairros valorizados da “República”, Jordaky consegue enxergar a realidade.

Não bastam apenas o foco e o clique da câmera. Mostrar e contar um pouco da história dessa gente esquecida é parte de seu cotidiano.

Há três anos, esse paulistano de 30 anos, radicado há 12 em Curitiba, se dedica à arte de mostrar a vida como ela é. O projeto Humans of Curitiba (www.humansofcuritiba-blog.tumblr.com), inspirado no seu quase homônimo Humans of New York, criado pelo fotógrafo norte-americano Brandon Stanton, é acompanhado por mais de 45 mil seguidores.

No Facebook, ele interage com seus “amigos”. O interesse pela fotografia nasceu ao acaso. “Comecei fotografando paisagens. Até o dia em que retratei um homem sentado num banco da praça. Aquela foto mudou minha vida”, lembra.


Jordaky: diário visual (Foto: René Ruschel)

Tímido, Jordaky clicou o solitário personagem a distância. Acabou surpreendido pela reação do cidadão. “Ele percebeu que eu o havia fotografado e pediu que sentasse para ouvir sua história.” Era a mesma de milhões de moradores de rua que perambulam pelas cidades. Alcoólatra, perdeu o emprego, a família, a casa, os amigos e o respeito.

Desde então, são quase 650 imagens. Ouvir histórias o fez alguém melhor. “Aprendi a não julgar. Cada personagem tem sua história e seus motivos. Quando ando pelas ruas, tenho uma visão da vida, dos indivíduos e da própria cidade diferente do que era há três anos.”

Nessa empreitada, Jordaky conheceu os mais diversos tipos. Não faz distinção. Pelas ruas, aborda moradores de rua, prostitutas, figuras folclóricas, homens e mulheres, jovens, pedintes, drogados ou mesmo aqueles a caminho do trabalho.


A muçulmana, pelas lentes de Jordaky (Foto: Gustavo Jordaky)Seu olhar parece calejado para distinguir um alvo. Descobriu que os cidadãos, embora cercados de outras pessoas, são solitários e vivem suas crises sentados nos bancos de praças, sob uma árvore ou andando pelas ruas. Aprendeu que a vida deixa marcas em todos, sem distinção social ou de classe. “Ouvir esses indivíduos e mostrá-los pode ser uma forma de terapia. Todo queremos ser ouvidos para contar nossos dilemas.”

Mas que também existe alegria na miséria, na dor, principalmente nos olhos e nos sonhos das crianças. Uma das suas fotos preferidas é a de uma garota a dançar na rodoviária. A família, recém-chegada do Haiti, fugia da destruição do país e buscava abrigo. A menina sorria e dançava como se estivesse no palco de um grande teatro. Quem sabe um dia não estará?

O fotógrafo conheceu gente capaz de superar as adversidades mais cruéis para festejar a vida. Descobriu com eles que, na vida, é preciso fazer escolhas e seguir em frente. Aliás, essa lição é seu lema ainda hoje. Até descobrir a fotografia, Jordaky trabalhava na área de vendas. Desde então, sua vida financeira, como ele mesmo define, “vive na corda bamba”. Seu projeto ainda não rendeu dividendos que o façam sobreviver da profissão.

(
Foto: Gustavo Jordaky)Um dia, toca o telefone. Era uma oferta de trabalho como vendedor. “Balancei muito”, confessa. No dia marcado para se apresentar na empresa, desistiu. Optou por investir em seus sonhos. Apanhou a máquina, a bicicleta (sua companheira há oito anos), e saiu pelas ruas.

Em uma praça, encontrou um flautista sem as duas pernas. Uma longa conversa e várias fotos publicadas nas redes sociais renderam uma entrevista no dia seguinte em uma rádio especializada em notícias.

“O flautista era um homem feliz, realizado com a família, os filhos e como músico popular. Tive a certeza de que vale a pena apostar em nossos sonhos. Meu trabalho é uma forma de mostrar que a vida, com todos os seus percalços, vale a pena ser vivida.”


(Foto: Gustavo Jordaky)Além da plataforma digital, Jordaky sonha em publicar livros temáticos. Depois, de bicicleta, fazer uma longa viagem pelo Brasil ou pela América do Sul. Quer ser feliz e vencer seus próprios desafios.

A experiência de fotografar e contar histórias tornou-o capaz de entender a fragilidade do outro. Ele mesmo superou uma depressão ao caminhar pelas ruas como peregrino. “As fotos, embora possam chocar no primeiro instante, mostram que a vida pode ser sempre melhor”, resume.

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