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China Miéville: Por que a Revolução Russa importa?

Cem anos atrás, a insurreição bolchevique encabeçada por Lênin derrubava séculos de feudalismo na Rússia. O que isso significa para o mundo hoje?


Do Blog da Boitempo, 6 de Outubro, 2017
Por China Miéville.


No centenário da Revolução Russa, o mestre da escrita China Miéville narra, em Outubro: história da Revolução Russa, a extraordinária história de um dos momentos decisivos do século XX. Neste artigo, publicado originalmente no jornal britânico The Guardian, e traduzido para o português por Samuel Cardoso para o Esquerda.net, ele defende a importância de refletir sobre o legado da Revolução de 1917 hoje.

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Mais do que qualquer outra coisa, a revolta socialista na Rússia, em outubro de 1917, é uma história extraordinária. O culminar de meses de grandes transformações durante esse ano, iniciados em fevereiro após o derrube popular do tsar Nicolau II e do seu regime, é um jogo intenso de intriga, violência, lealdade, traição e coragem.

Mas qual o sentido atual desses extraordinários eventos que tiveram lugar em tempos e mundos distantes? Após 1989 e a queda do stalinismo, a cultura mainstream colocou a Revolução no túmulo e celebrou o seu enterro – em concordância com a afirmação falaciosa de que o derrube de regimes escleróticos e despóticos representava a derrota da Revolução. Estes eventos extraordinários são hoje apenas avisos ameaçadores? Ou serão outra coisa? A Revolução importa sequer?

Importa. Porque as coisas já foram diferentes uma vez. Por que é que não poderiam ser diferentes novamente? Embora tenha um enorme fascínio e tenha sido muito inspirado pela Revolução Russa, que celebra este ano o seu centenário, quando me perguntam por que é que ela ainda importa, a minha primeira reação é uma hesitação. Um silêncio. Mas, tal como as palavras, uma chave para perceber a Revolução de Outubro é uma certa ausência de palavras.

Podemos saber no nosso âmago que ela importa, mas parece uma forma defensiva, arrogante e dogmática “explicar” a “importância” da Revolução: uma propensão para “explicar” tudo não é um problema exclusivo da esquerda, mas é particularmente exasperante quando vem de radicais comprometidos, pelo menos teoricamente, com a discussão da história contra a corrente, com a criação de contra-narrativas, com o questionamento de opiniões recebidas, incluindo as suas próprias. (Um impacto benéfico dos últimos acontecimentos políticos invulgares – Corbyn, Sanders, Trump, as eleições presidenciais francesas, e com mais a surgir proximamente – tem sido a carnificina das certezas políticas, a humilhação daqueles que tudo sabem).

Na Rússia, o estado de Putin sabe que a Revolução importa, o que o coloca numa posição estranha. Comprometido com o capitalismo (o capitalismo gângster não deixa de ser uma forma de capitalismo), dificilmente se poderá reclamar como herdeiro de uma insurreição contra esse sistema: ao mesmo tempo, a curiosa nostalgia simbólica, oficial e semi-oficial, com a Grande Rússia, incluindo a que remete para o stalinismo, impede que a Revolução seja banida da memória coletiva. Arrisca-se a ser, como o historiador Boris Kolonitsky aponta, “um passado bastante imprevisível”.

Numa viagem recente a São Petersburgo, perguntei a amigos russos como é que o governo lidaria com esta contradição, se a isso fosse obrigado. Recordaria o centenário com uma celebração ou como uma maldição? “Dirão que houve uma luta “, foi-me dito, “e que, no final, a Rússia venceu.”

Esta é uma das grandes tragédias da Revolução: a sua pertinência é afirmada enquanto a sua substância é esvaziada. Uma visão da emancipação global expressa como uma melodia num enorme ressoar chauvinista.

Num certo sentido, é indubitável que 1917 importa. Afinal, pertence à história recente, e não há nenhuma esfera do mundo moderno que não tenha sido tocada pela sua existência. Não influenciou apenas os partidos social-democratas, fundados em oposição a abordagens revolucionárias – e obviamente constituindo-se enquanto seus inimigos –, mas também à grande escala da geopolítica, onde os padrões mundiais de submissão e competição e os estados que constituem o sistema foram claramente alterados pela Revolução, da sua degeneração e de décadas de impasse. Da mesma forma, bastante afastados do reino austero do estado, os artistas russos de vanguarda Malevich, Popova e Rodchenko, entre outros, permanecem inseparáveis da Revolução que tantos deles abraçaram.

A sua influência é incomensurável: Owen Hatherley, crítico de cultura, apelida o construtivismo como sendo “provavelmente o movimento artístico e arquitetónico mais intenso e criativo do século XX”, que influenciou ou antecipou movimentos como “a arte abstrata, o pop art, o op art, o minimalismo, o expressionismo abstrato, o estilo gráfico do punk e do pós-punk … o brutalismo, o pós-modernismo, o hi-tech e o desconstrutivismo”. Podemos traçar a Revolução no cinema e na sociologia, no teatro e na teologia, na realpolitik e na moda. É, portanto, óbvio que a Revolução importa. Tal como Lênin pode ou não ter dito, “Tudo está relacionado com tudo o resto”.

Mas surge de novo uma hesitação, uma sensação de que esta abordagem, por muito importante que seja, contorna a questão fundamental sem lhe responder. Por outras palavras, por que é que a discussão enfurece as pessoas?

Tornou-se senso comum admitir que a história é mais tenaz do que Francis Fukuyama sugeriu, mas ainda nos encontramos, apesar de tudo, na era pós-Tatcher da TINA – there is no alternative [não há alternativa] – em que, tirando momentos específicos de exceção que são cada vez mais reduzidos, os fundamentos da sociedade não devem ser postos em causa. Até mesmo discutir um sistema baseado em algo além de lucro, controlado pela base, é olhado com desdém, apesar da implementação cada vez mais sádica da austeridade. É precisamente esta visão de uma alterativa, e de uma que teve a audácia, no início, de ser bem-sucedida, para derrubar o in- ou o ainda não-defensável, que outubro importa. É por isso que existe raiva, em todos os lados, mais do que irritação ou divertimento. Porque o que está em jogo não é apenas a interpretação da história, mas é também a do presente. A questão de se as coisas tinham ou se têm de ser desta maneira.

O que é partilhado pela maioria daqueles que se opõem a tudo mas que lamentam a Revolução de 1917 é a convicção de que a última excrescência do stalinismo foi o resultado inevitável da Revolução. Certamente que isto pode ser argumentado: na maior parte dos casos é, contudo, tomado como mais ou menos autoevidente. Não que exista algo que se aproxime de uma perspetiva monolítica anti- ou pró-revolucionária, que englobe socialistas de várias filiações, liberais, conservadores, fascistas e outros.

Enquanto alguns podem descrever os bolcheviques como equivocados e trágicos, é mais comum serem considerados perversos e sedentos de poder. Há uma atração para um conto de moralidade grosseira. Podemos discordar, por exemplo, das conclusões do historiador Orlando Figes sem questionar a seriedade da sua pesquisa, mas a sua afirmação em A Tragédia de um Povo que “o ódio e a indiferença ao sofrimento humano estavam, em diversos graus, enraizados nas mentes de todos os líderes bolcheviques” é simplesmente absurda (e o seu fascínio desaprovador pelos seus casacos de couro não deixa de ser curioso).

No campo oposto, existem algumas pessoas verdadeiramente crentes, como a minúscula e grotesca Sociedade Stálin. No entanto, para a maior parte das pessoas que vêm na Revolução um motivo para celebrar, a questão é: qual a data a partir da qual devemos começar o luto? Se uma tradição emancipatória foi quebrada, quando foi a rutura? 1921? 1924? 1928? 1930? Que combinação de fatores explica a degeneração? A carnificina da guerra civil? As intervenções aliadas, incluindo, com entusiasmo, do lado dos pogromistas antissemitas? O fracasso das revoluções na Europa?

O que é partilhado é uma sensação de rutura, de quebra e perda, onde o liberalismo e a direita veem inevitabilidade. Muitas vezes se diz que “o germe de todo o stalinismo estava no bolchevismo desde o início”, escreveu, em 1937, o dissidente bolchevique Victor Serge. “Bem, não tenho objeção. Apenas que o bolchevismo também continha muitos outros germes, uma massa de outros germes, e as pessoas que viveram o entusiasmo dos primeiros anos da primeira revolução socialista vitoriosa não devem esquecê-lo. Julgar o homem vivo pelos germes da morte que a autópsia revela no cadáver – e que ele pode ter carregado nele desde o seu nascimento – é uma atitude sensata?”

Esta excelente citação tornou-se um cliché do socialismo anti-stalinista. O que por vezes escapa aos seus entusiastas é que Serge iliba o bolchevismo de conduzir inevitavelmente ao stalinismo, mas não de toda a responsabilidade. Qualquer movimento que evite a hagiografia, que avalie criticamente as suas próprias tradições, é saudável e confiante. Isso significa ter em conta não apenas a guerra civil e o isolamento forçado do regime, a fome, o colapso industrial, agrícola e social, mas também a degeneração política dentro dos bolcheviques, nos duros meses e anos depois de assumirem o poder.

Quaisquer que sejam as lições e inspirações que a Revolução oferece, presenciam-se com frequência situações um pouco ridículas que passam pela recusa de avaliar tudo isto de forma rigorosa e pelo desejo de tratar o partido de Lênin em 1917 como o paradigma para hoje. Nas discussões de alguns grupos radicais, podemos inclusive identificar claramente a influência dos tons excêntricos e do vocabulário da literatura socialista traduzida há um século atrás. Isto não significa que seja dada à Revolução demasiado importância, mas sim que a importância lhe é atribuída pelas razões erradas. Não é necessária uma reconstituição lisonjeira: isso não é fidelidade. Quaisquer que sejam as particularidades da Rússia de 1917, a Revolução serve hoje não só pela reflexão analítica que oferece mas também enquanto horizonte, pelo simples facto, trágico e momentâneo, de que as coisas foram diferentes um dia e que, portanto, poderão um dia voltar a ser diferentes. É o que a liga às indignidades, à violência, à desigualdade e à opressão de hoje e àquilo que elas produzem, tal como em circunstâncias muito diferentes fizeram há um século: uma necessidade de uma reconfiguração radical.

Voltemos agora à questão inicial: por que é que a Revolução importa? Por causa do que estava certo nela, e por causa daquilo que correu mal. Ela importa porque mostra a necessidade não apenas da esperança, mas do pessimismo adequado, e da interação dos dois. Sem esperança, o impulso milenar, não há nenhum impulso para derrubar um mundo repulsivo. Sem pessimismo, uma avaliação sincera das dificuldades que se enfrenta, as necessidades podem ser facilmente reformuladas como virtudes.

Foi assim que, após a morte de Lênin, se deu em 1924 a adoção por parte do partido bolchevique da teoria de Stálin do “socialismo num só país”. Isso contrariou um longo compromisso com o internacionalismo, fecundado na certeza de que a Revolução russa não poderia sobreviver isoladamente. O fracasso das revoluções europeias esteve na base desta evolução – foi uma mudança suscitada pelo desespero. Mas anunciar, e inclusivamente celebrar, um socialismo em autarcia foi uma catástrofe. Um pessimismo racional teria sido menos prejudicial do que esta “má” esperança.

A Revolução também importa porque foi, como podemos dizer de forma adequada, milenar. Os seus oponentes acusam frequentemente o socialismo de ser uma religião. A acusação é, obviamente, hipócrita: o anticomunismo é de forma igualmente frequente fundido com o fervor sectário do exorcismo. E, mais importante, não é uma fraqueza que, a par e dando fôlego às suas análises, os partidários de 1917 tenham sido guiados por um impulso utópico, a fome de um mundo novo e melhor, para se tornarem pessoas capazes de habitá-lo.

Todas estas razões são pertinentes e cruciais. Mas, mesmo todas juntas, continuam a não chegar. Continua a haver aquele momento glaciar, a sensação de um excesso indescritível. Uma e outra vez, nas aspirações da Revolução, nas suas circunstâncias apocalípticas, nos seus erros e vitórias, as palavras falham. Eles falham nas cartas escritas de forma quase macarrónica enviadas pelos soldados para a imprensa à medida que o ano passava, lamentando-se que a sua Revolução de fevereiro tivesse sido apocalíptica sem criar uma renovação efetiva. Elas falham nos panfletos ambíguos dos bolcheviques em julho de 1917, quando tentavam pôr um travão nas ruas inquietas. Elas falham espetacularmente quando o partido compreendeu que o seu apelo para evitar as manifestações nas ruas, que já estava preparado para ser divulgado em papel, seria amplamente ignorado. E, por isso, a meio da noite, para evitar o embaraço, essas linhas são simplesmente apagadas e o Pravda vai para as ruas no dia 4 de julho com um espaço vazio no centro da primeira página.

Este não foi o primeiro silêncio impresso da esquerda russa. Quase 60 anos antes da Revolução, o escritor radical Nikolay Chernyshevsky publicou Que Fazer?, um longo romance político que gerou um forte impacto no movimento socialista, especialmente em Lênin, que, em 1902, deu o mesmo nome à sua obra sobre organização política. A descrição de Chernyshevsky do momento crítico, um eixo da história para as possibilidades de futuro, culmina com duas linhas de reticências. Os leitores informados entenderiam que, por trás das reticências extensas, estava a revolução. Assim, Chernyshevsky evitou a censura, mas há também algo de religioso, de escatológico, nesta descrição, feita pelo filho ateu de um sacerdote. A teologia apofântica é aquela que se concentra no que não pode ser dito de Deus: um revolucionarismo apofântico, sem vergonha de ir para lá das palavras.

Virginia Woolf escreveu em Orlando que, na Rússia, “as frases são muitas vezes deixadas inacabadas devido à dúvida relativamente à melhor forma de as terminar”. Obviamente que isto é um floreado literário, uma visão comum e romantizada do essencialismo russo. No entanto, a formulação parece ser profética para esta história russa em particular. Os pontos de Chernyshevsky descrevem a própria Revolução. O espaço em branco no Pravda contém a tática. As coisas que não se conseguem dizer não são, de modo algum, tudo o que há de estranho nesta história, mas são centrais para ela.

Elas são a chave para o porquê de a Revolução importar. Porque aquilo relativamente ao qual não podemos falar podemos, pelo contrário, experienciar. É por isso que a hesitação para responder vem acompanhada de um desejo ansioso. Não de dizer, mas de fazer e ser. Não de lutar e falhar quando explicamos ou falamos sobre outubro, mas de ser parte de um.





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