Pages

As esquerdas frente ao mundo dos problemas cotidianos

Do blog da boitempo, 05 de outubro, 2017

O pêndulo da nossa tragicomédia, ou da praxiologia da transformação social
O Blog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Edemilson Paraná.

Entrando já no quinto texto de nossa polêmica, os acordos e desacordos parecem se tornar mais claros, algo que pode nos encaminhar, assim, para um novo ponto de ancoragem – a partir de onde, claro, poderíamos continuar essa talvez interminável discussão.

Iniciando nosso debate, apresentei (aqui) uma proposta de leitura das esquerdas que nos permitisse avaliar seu estado atual, ao que Tupinambá comentou (aqui) apontando que os três tipos em que dividi sua tragédia presente (esquerda parlamentar-institucional, radical-saudosista e fragmentária-pós-moderna) tratava-se, em verdade, de frações complementares não de uma situação trágica, mas cômica. Em um tratamento outro dessa inaudita e já existente complementação prática, argumentou o autor, poderia residir uma saída para o falso dilema da fragmentação das esquerdas, em verdade já resolvido. Acolhendo, em grande parte, sua sugestão-crítica, contra-argumentei (aqui) que só poderíamos assumir sua proposição de maneira produtiva em relação aos objetivos de transformação social inicialmente colocados se a situarmos frente ao problema do poder, da luta de classes e do acúmulo de força social; algo que nos levaria, por fim, ao tragicômico de nossa situação.

Em sua última intervenção (aqui), nos convidando a aplicar um método análogo a “olhar menos para onde o dedo aponta, e mais para a ponta do dedo”, Gabriel propõe que “dado que a esquerda quer mudar a sociedade à qual pertence, então o melhor índice de seu acúmulo de força é sua capacidade de mudar aquilo que, na própria esquerda, marca sua inserção social”, o que recoloca e reafirma a situação em tela no patamar daquela comédia de nós mesmos.

Um debate em forma de pêndulo

Até aqui, o debate, face à importância que demos a cada uma das dimensões apresentadas, vem se desenvolvendo, então, como algo que parece ser um pêndulo (do tragicômico): sustentamos um corpo (as esquerdas) amarrado pelo mesmo fio (a necessidade de transformação social). Os pólos desse “movimento” constituem-se pelo o que supostamente caracterizaria, grosso modo, os diferentes pontos de vista aqui contrapostos: se olhamos a esquerda de fora para dentro, em chave trágica (Paraná) ou se de dentro para fora, chave cômica (Tupinambá). Reconhece-se, naturalmente, de parte a parte, que sem espaço para ambos pólos nosso ‘fio’ da transformação social simplesmente não seria capaz de se movimentar: uma vez que o movimento, quando ativo, alimenta-se, inevitavelmente, de ambos os opostos, estes são interdependentes. Mas, diante daquilo que detectamos como uma aparente inércia estacionária do sistema (longe, portanto, do alcance em amplitude de ambos os extremos), nos perguntamos sobre a direção e a intensidade da força a ser aplicada para iniciar essa desejada dinâmica frente às condições adversas do ambiente que nos circunda.
A esquerda de dentro para fora: o polo (cômico) de Tupinambá

Dito isso, nos voltemos ao pólo de Tupinambá. Uma vez que lhe parece problemático “fazer essa avaliação a partir de um ‘mais além’ da própria esquerda”, Gabriel está convencido de que as perguntas a serem colocadas no centro da investigação são:


“Como que as esquerdas governam a si mesmas em seus diferentes veículos midiáticos, instrumentos políticos, projetos sociais, no trato com o dinheiro, com o tempo e o trabalho das pessoas? Comparada às empresas, ao Estado, ao tráfico, às congregações religiosas – que sempre soubemos analisar a partir da tangibilidade do poder e de suas estruturas organizacionais – como nós nos saímos?”

As perguntas, naturalmente, são urgentes e necessárias e tem o mérito de serem bastante objetivas. Mas Tupinambá as faz já com uma resposta em mente, algo ademais explicitado em seu texto: a de que a esquerda reproduzimos, em nosso fazer político, os mesmos mecanismos de reprodução da distinção social, adaptados que estamos ao mundo do qual fazemos parte. “Trata-se antes de uma esquerda cuja organização é tão perfeitamente compatível com o mundo que vivemos que está à vista de todos que não há nada ali que convoque ou demande alguma ‘adesão’ especial”.

Apesar desse correto diagnóstico, não fica claro, por que, a despeito dessa integração, somos tão menos bem-sucedidos quando comparados “ao Estado, ao tráfico, às congregações religiosas”? Se estamos igualmente integrados – ainda que em posições relativamente distintas –, o que explicaria essa brutal discrepância em termos de acúmulo de força social?

Uma das respostas, sugere o autor, está em nossa incapacidade para detectar e gerir adequadamente um modo de produção do sofrimento, qual seja, a tensão típica daqueles que vivem ao mesmo tempo entre transformar e reproduzir a realidade social da qual se é simultaneamente produto e produtor, algo que – no bojo de um completo descaso para com as questões materiais da vida cotidiana – enfraquece nosso potencial de mobilização social.

Essa resposta, correta apenas parcialmente, revela as desventuras do método aplicado: a exagerada aproximação do “dedo” em relação ao campo de visão desfoca aquilo que se aponta, tornando a falange mais relevante na cena do que realmente é. O risco dessa distorção é o de apresentar como geral uma realidade que, em verdade, é particular. Vejamos.

O que o empresário, o pastor, o traficante, o político dirigente do Estado, para citar os exemplos mencionados, têm em comum para, cada um a seu modo, acumularem poder social enquanto falhamos?1 Sem muito esforço, encontraremos também ali, não raro, mesmo que em formas e tonalidades as mais diversas, a integração prática ao mundo, a busca e a realização de distinção social, a reprodução de uma considerável diferença material para com seus funcionários, fiéis, comandados, eleitores de que fala Gabriel. Encontraremos também formas de sofrimento inerentes ao desencaixe entre exploração do trabalho e consumo abundante, desejo e realidade, presente e futuro, e a dificuldade incontornável que é suportá-lo cotidianamente – já que sofrer as contradições e dores da existência não é um privilégio dos revolucionários (e aqui, claro, a ideologia como campo de disputa e luta social volta à baila).

Mas seguindo o raciocínio proposto por Tupinambá poderíamos responder que se trata da devida atenção que estes dão, comparado ao descaso por parte da esquerda militante, às exigências e necessidades da reprodução da vida material no interior de suas atividades. Novamente, a resposta é correta apenas parcialmente.

Isso porque não consta que o problema da reprodução material das condições de existência seja novo ou esteja completamente fora do radar organizativo das esquerdas – talvez isso seja válido para a esquerda estudantil e universitária mais abastada, mas certamente não o é para uma enorme gama de movimentos sociais, centrais sindicais, associações comunitárias, partidos. Seria ingênuo e historicamente incorreto, portanto, imaginar que esta questão aparece ou se impõe apenas agora. A profissionalização, a “liberação” de militantes, as eternas discussões sobre formas mais ou menos estáveis de sustentação econômica da atividade política, entre tantos outros temas correlatos vem sendo debatidos, testados e problematizados nas esquerdas desde os seus primórdios – com resultados às vezes mais, às vezes menos desejados. Tampouco é nova, no interior das esquerdas, a tensão ou cisão subjetiva entre reproduzir e transformar a sociedade, ou mesmo os problemas relacionados às diferenças de classe, raça e gênero de/entre seus integrantes. (E ao lermos o texto de Gabriel somos ironicamente remetidos ao prefácio de ‘A situação da classe trabalhadora na Inglaterra’, em que Engels se orgulha de ter ele mesmo renunciado “ao mundanismo e às libações, ao vinho do Porto e ao champanhe da classe média” para consagrar “quase exclusivamente minhas horas vagas ao convívio com simples operários”).

A conclusão na qual se sustenta o texto de Gabriel é, então, objeto direto ela mesma da crítica que articula. Mas tal exercício de autocrítica seria talvez ainda mais potente se não apresentasse como universal um problema que é particular, não das esquerdas, mas de uma esquerda: aquela que não tem como “seu” o problema da produção material de sua própria existência. Essa esquerda, sabemos, é bastante restrita em tamanho e representatividade social. E mesmo que não o fosse, nossa tragédia, ou tragicomédia, conforme argumentei anteriormente, está para muito além desta esquerda privilegiada material e intelectualmente. A desorientação de que falo acomete mesmo as suas frações, organizações e movimentos mais orgânicos, inseridos e enraizados na luta popular e de massas, mesmo aqueles que todos os dias falam de dinheiro, administração, tempo e logística para o fazer militante.
O poder e a política frente aos problemas da vida cotidiana

Mas se as respostas oferecidas por Tupinambá até aqui acertam e contribuem sobremaneira, ainda que sem dar a devida atenção ao que julgo central, cabe voltarmos à pergunta a respeito daquilo que nos diferencia negativamente frente àquelas entidades, instituições, grupos e setores sociais capazes de maior acúmulo de forças. Eis, então, uma resposta: o fato de que, diferente de nós, todas estas oferecem, ao seu modo, e ainda que por vias consideradas inusitadas, soluções para problemas concretos e objetivos da vida social. Tais instituições resolvem os problemas das pessoas, e, em geral, aqueles considerados mais urgentes.

O risco, então, de argumentos, por vezes temperados de moralismo, que se sustentam nos conhecidos “ir ao povo”, “ter coerência”, “a prática é o critério da verdade”, tão comum entre as esquerdas, é o de escorregarmos em certo “basismo” – a ponto de nos cegarmos, por exemplo, para o fato de que entre os quadros dirigentes de todas as revoluções do século XX haviam integrantes quando não de classes abastadas, de setores médios intelectualizados. O problema do que se passou a ridicularizar como “esquerda de iPhone” ou “esquerda caviar”, com o perdão do palavreado, não são as iguarias que eventualmente compõem ou deixam de compor sua dieta, mas sua incapacidade e indisposição para entender o que ocorre a sua volta, para oferecer e articular medidas concretas e objetivas de melhoria da vida das pessoas, em torno do qual elas se sintam impelidas a lutar coletivamente para realizar. Pensemos nos três mais relevantes problemas do Brasil contemporâneo aos olhos das maiorias sociais: o desemprego, a violência e a corrupção – junto de uma descrença generalizada nas instituições de nossa fraturada democracia representativa. Quais são as propostas2 e posturas das esquerdas frente a esses três problemas nevrálgicos? Quando não total ignorância, encontramos relativização de sua gravidade, propostas irreais, ou um conjunto de bordões vazios de protesto voltados para e marcados pelo apego àquelas mesmas instituições que o povo vem sendo rapidamente ensinado a desprezar. É precisamente por essa razão, mais do que qualquer outra, que estamos, como corretamente detecta Gabriel, “sentados em cima do poder”.

Pode residir justamente aí, então, o equívoco em secundarizar o problema estratégico do acúmulo de força social, como se ele “já estivesse resolvido”. Isso, que pode recair em um excesso de apego à dimensão ético-comportamental da organização das esquerdas, esvazia o necessário esforço de análise acurada da conjuntura e da realidade concreta, a dura empreitada de constituição de propostas e programas, e a articulação de uma estratégia robusta e coerente de ação política, correndo o risco de substituí-la por uma espécie ineficaz qualquer de “ascese” proletária, que buscar expiar culpa burguesa como se fizesse revolução. Tudo somado, nossa falência intelectual e política acaba transformada quase num problema de parcimônia, engenharia institucional, disposição voluntarista, ou “local de fala”. No caso em tela, distinto, a opção é por um mecanismo de gestão do poder no interior das esquerdas que seja capaz de demonstrar, na prática, sua eficácia e, assim, obter adesão social. A busca é salutar, mas o risco, fruto da mencionada secundarização, permanece.

Com isso não se quer diminuir a importância do trabalho de base, da organização popular enraizada, atenta às condições e necessidades das maiorias, da construção de uma esquerda coerente e convincente em sua ação multitudinária, antes o contrário, trata-se de apontar que isso é possível justamente quando tais ações de “luta”, para lembrar um conhecido bordão militante, mostram seu potencial de realmente “mudar a vida”. Tampouco se quer defender, com isso, um horizonte rebaixado de mera gestão “melhorista” da tragédia social por meio de políticas públicas (ainda que isso seja melhor do que nada); mas sim – recordando, dentre outros, os velhos maoistas – que “ir ao povo” significa ser e resolver com o povo os problemas do povo. Enquanto não tornarmos nossos os problemas do povo – e aqui retomando a crítica de Gabriel quanto a essa própria diferença entre “nós” e o povo –, não conseguiremos apresentar uma plataforma política capaz de galvanizá-lo.

É evidente que é precisamente este o objetivo por trás da proposta de Tupinambá. Mas, para retomarmos a metáfora do pêndulo, cabe novamente demarcarmos aqui a diferença de ênfase. Enquanto para ele se trata de reelaborar o que “estamos fazendo enquanto discutimos o que fazer”, sigo convencido da centralidade de articularmos de modo criativo os circuitos e fios hoje desconectados e desencapados que ligam análise acurada da realidade, estratégia, proposição programática e acúmulo de força social. Trata-se de uma postura por demais racionalista e, por isso ingênua, alguns dirão. Mas não consta que para isso precisemos ignorar, antes o contrário, o problema da ideologia, da interpelação/subjetivação, da disputa simbólica, da construção de narrativas e dos mecanismos os mais variados de mobilização e disputa cultural, política e social.

Tratar a questão a partir das diferentes e inovadoras formas de interligar análise concreta da realidade, estratégia, proposição programática e acúmulo de força social tem o mérito, ademais, de evitar a confusão entre “resolução objetiva de problemas” e a ingenuidade típica de quem busca o “governo de si mesmo” ignorando a permanência e reprodução de estruturas sociais, da ansiedade juvenil em ver aplicada a fórceps no aqui e no agora a sociedade ideal, como se isso fosse apenas um ato de vontade. Conhecemos iniciativas e discursos dessa natureza por toda a parte, elas compõem, ademais, o problema de que se fala.

Com isso, evidentemente, não se quer dizer que as esquerdas podem se eximir de buscar produzir e reproduzir, na prática, e na medida de suas possibilidades, a sociedade que defendem – mas que isso deve ser feito levando em conta o circuito acima descrito, e não em chave moral, à revelia das condições postas pela conjuntura da luta de classes em um determinado momento.

Dito isso, Gabriel corretamente nos chama a atenção, ademais, para o fato de que


“Enquanto nós nos enxergamos do ponto de vista trágico, aparecendo para nós mesmos de maneira “antigônica” (risos) ao mundo, enterrados vivos com a cabeça cheia de ideais, para qualquer outra pessoa não há aí tragédia nenhuma, mas antes um circo que dedica suas forças “realmente existentes” à preservação de um índice distinção social e à manutenção de uma certa dinâmica de poder bastante tangível e que simplesmente não carrega nenhuma grande novidade. Nós somos antes como o pobre do Sósia, que pena para convencer os outros de que serve à honra de Tebas e não à malandragem dos deuses”.

Mas caberia novamente nos perguntarmos o que fazem, então, de diferente as “empresas, o Estado, o tráfico ou as congregações religiosas” quando, mesmo quando não resta dúvida alguma a respeito de servirem “à malandragem dos deuses”, seguem acumulando adesão, ou melhor dito, força social. A essa altura, a resposta parece clara: elas oferecem às pessoas aquilo que não somos capazes de oferecer; não honra, heroísmo ou promessa de redenção, mas soluções práticas para suas vidas cotidianas; não apenas boas e sustentáveis práticas militantes, mas a resolução de problemas concretos.

O problema central, novamente, não é, então, que estamos excessivamente adaptados ao mundo e que, assim, instrumentalizamos nosso antagonismo político em prol de nossa distinção social – isso, repito, quase todo mundo faz. O problema é que, diferente dos demais, não oferecemos, em meio ao desespero da existência, nada pelo o que valha a pena lutar, nenhum horizonte concreto de melhoria objetiva da vida – algo que “empresas, o Estado, o tráfico ou as congregações religiosas” prometem realizar (e não importa muito, nesse caso, o juízo que façamos disso como conservação ou transformação) e, não raro, realizam. Ou seria apenas coincidência o fato de que, enquanto toda a esquerda brasileira afunda em insignificância, um Lula condenado e prestes a ser preso por corrupção mantenha altos índices de intenção de voto? Se “pena[r] para convencer os outros de que serve à honra de Tebas e não à malandragem dos deuses” ainda é um problema nosso e de nosso humanismo de salão, certamente não o é de quem joga o grande jogo da política das massas.

Quer dizer, não deixamos de convencer as pessoas centralmente porque “nosso trato atual com o poder dentro da esquerda é um índice bem mais convincente do que é que faríamos caso mais pessoas aderissem ao nosso campo político”, mas simplesmente porque nada do que fazemos ou falamos é suficientemente atraente para quem vive sob o signo da urgência. Sobra “todo poder aos sovietes”, falta “pão, paz e terra”.

Seguindo esta trilha, pensemos por um momento nas revoluções. As revoluções não guardam apenas uma promessa de vida futura, mas uma potente agenda de luta presente, quando, de certo modo, fica claro que o custo de se manter certo arranjo societal é muito mais alto do que o preço a pagar pela sua transformação radical; quando os trabalhadores sentem, percebem ou se convencem realmente de que “não tem nada a perder a não ser suas próprias correntes”. Revoluções são transbordamentos societais brutais e envolvem, sim, a luta por uma melhoria das condições de vida no presente, no agora. Cabe lembrar ademais que, se a relação entre as classes é processual, como o é também o imbricamento entre capital e luta de classes, a luta política tem ela mesma o poder de formar, educar, empoderar, subjetivar, constituir. Novamente, por trás daquele chavão de que “a luta muda a vida” há a ideia de que esta institui um novo ethos (e aqui talvez caberia o paralelo de pensarmos a relação entre catolicismo e protestantismo na Reforma: mais do que a reconfiguração da ideia de redenção, o poder de massas do segundo se deu, sobretudo, por sua capacidade de articular uma nova ética que se encontrava com as demandas de uma vida em transformação). Fica claro, assim, que meu argumento oferece mais um deslocamento em ordem e ênfase, um ajuste, do que uma negação da interessante e fecunda proposta de Gabriel. Examinemos esse movimento a partir de outro aspecto.

Mais à frente, encarando a militância como uma forma de sofrer, produto de uma identidade dilacerada, Gabriel sustenta que


“a esquerda não se dissemina socialmente quando seus ideais circulam na mídia, mas quando sua posição de enunciação se torna cada vez mais comum. E isso não acontece quando os outros passam a assumir a nossa postura, mas quando nossas organizações, sistema de valores, enquadres teóricos, etc., são marcadas de cabo a rabo pela problemática da reprodução concreta da vida, que é o ponto de inserção da militância no mundo”.

Se não há quase nada a discordar a esse respeito, cabe destacar que é perfeitamente possível retirar dessa afirmação as consequências da ideia que estou empenhado em defender, qual seja, a de que o acúmulo de força social está intimamente vinculado a um tratamento adequado da “problemática da reprodução concreta da vida”. No entanto, o que aparece para Gabriel como consequência direta de uma nova postura militante, me aparece como causa desta: é precisamente por colocar esta questão no centro de sua ação e reflexão que as esquerdas podem reorientar suas práticas e comportamentos, reorientação esta articulada em termos do circuito acima descrito. Esta é a questão, relacionada a uma compreensão da transformação disruptiva e sempre renovada do modo capitalista de produção da vida social, inclusive em seus aspectos subjetivos, simbólicos e ideológicos, que nos empurrará para formas outras de investigar, compreender e intervir no mundo. É ela que fez Engels, para voltar ao nosso pitoresco exemplo, renunciar “ao mundanismo e às libações, ao vinho do Porto e ao champanhe da classe média” em busca do entendimento mais acurado possível da situação dos trabalhadores – o mesmo Engels que, no Anti-Duhring, observará que “a hegemonia política teve por base, em todas as partes, o exercício de uma função social”. Sabemos que um real compromisso intelectual e político com esta dimensão encontrará enormes dificuldades para se desenvolver em ambientes marcados por dogmatismo e/ou celebracionismo performático – algo infelizmente não raro entre nossas esquerdas.

Ainda nesta via, Tupinambá acerta novamente quando aponta, ademais, que “ao contrário do que se pensa, sofrer é uma atividade institucional – a história das formas de sofrer é a história das formas de organização coletiva”. Mas o ponto aqui, novamente, são as implicações que disso obtemos, já que as pessoas não parecem buscar apenas a reconfortante compaixão do sofrimento compartilhado, mas uma forma minimamente produtiva – para voltarmos à Igreja, ao tráfico, aos aparelhos do Estado – de encaminhá-lo. O que temos nós a oferecer nesse caso? Onde estamos falhando?
De volta ao pêndulo: coordenando a ação

Talvez possamos, como venho sugerindo, procurar as pistas na deficiência das leituras e diagnósticos, na insuficiência programática, na desorientação estratégica e na indisposição para disputa social em torno de uma ação política que seja criadora o suficiente para conectar as pontas desamarradas entre pragmatismo e combatividade, preocupação com a melhoria imediata das condições de vida e orientação para a construção de uma sociedade radicalmente diferente; uma ação que permita, de alguma forma, ligar as lutas no capitalismo com aquelas face ao capitalismo.

Ocorre que a avalanche de transformações que vêm ocorrendo desde o último quarto do século XX nos tirou o chão debaixo dos pés. O capitalismo mudou, o mundo do trabalho mudou, a política mudou e, ao menos até aqui, não fomos capazes de nos reposicionar organizativamente frente ao novo cenário. Como fazê-lo, eis o nosso “quê fazer”. Dessa forma posto, parece simples, mas o desafio é hercúleo e merece o melhor de nossas energias revolucionárias. Neste ponto, as críticas e sugestões de Tupinambá têm muitíssimo a oferecer. Fica evidente que compartilhamos o que se entende pelo fio, o corpo, e a necessidade de dar dinâmica ao pêndulo da luta política à esquerda. Se a força aplicada virá de um lado ou de outro não é uma questão menor, mas talvez possamos coordenar juntos a ação, na medida de nossas forças e possibilidades, de modo a finalmente ativá-lo em amplitude.

***

Notas

1 Em 2015, procurei tratar deste tema neste mesmo Blog da Boitempo, no texto ‘Disputar o povão: neopentecostalismo como luta de classes’. Para uma reflexão, também de minha autoria, sobre o papel das esquerdas organizadas frente ao fenômeno dos “rolêzinhos” em 2014, clique aqui.
2 Toco neste problema no texto ‘Da direita à esquerda: a crise diante da falta de um projeto de país‘, publicado em 2015 neste mesmo Blog da Boitempo.

***

Edemilson Paraná entrevistou, junto com Gustavo Capela, o marxista paquistanês Tariq Ali para a nova revista da Boitempo, a Margem Esquerda n.29. Volume temático dedicado à questão indígena, a edição conta com um dossiê sobre “Lutas indígenas e socialismo” coordenado por Silvia Adoue, composto de artigos dela, de Jean Tible, de Laura Zúñiga Cáceres e de Gabriel Moraes Ferreira de Oliveira, e textos de Luiz Bernardo Pericás, sobre a questão agrária no Brasil hoje e de Marina Ghirotto Santos sobre o “bem viver”. A seção clássico traz uma preciosa reflexão de José Carlos Mariátegui sobre a questão indígena. A seção de poesia traz um poema de Carlos Federico Abente Bogado, traduzido e selecionado por Flávio Aguiar. Na seção de imagens, coordenada por Sergio Romagnolo, a artista convidada é Regina José Galindo. A revista ainda conta com artigos de Marcio Pochmann, Marco Fernandes e Celso Frederico, além de homenagem a Miguel Urbano Rodrigues e diversas resenhas e notas de leitura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário