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Análise | Apesar da forte violência policial, "Sim" vence referendo na Catalunha

Cerca de 900 pessoas registraram agressões policiais durante todo o domingo (1)


Do Brasil de Fato | Madrid/Espanha,2 de Outubro de 2017 às 10:32
Por Sérgio Gadini*


Portais e capas de dezenas de periódicos de diversos países do mundo repercutem as imagens das agressões nas ruas de Barcelona / Capa do jornal The Independent

O debate sobre nacionalismo neste início de século, e no contexto europeu em que as diretrizes da política macroeconômica são definidas pelo parlamento em Bruxelas, pode não fazer muito sentido para quem olha de fora. E, de fato, é preciso contextualizar!

Mas não foi esse o fato que marcou a proposta de realização de um referendo, realizado neste domingo (1), que pergunto se a população é favorável ou contrária a um estado independente da Catalunha. Desde que o Governo regional anunciou a consulta, o Governo da Espanha – sob comando do Partido Popular (PP), historicamente direitista – lançou mão de todos os métodos possíveis para deslegitimar a iniciativa: bloqueou contas, apreendeu urnas e materiais de divulgação, derrubou sites na web, prendeu servidores públicos que estariam coordenando processo e, no domingo, não deu folga. Além de bloquear internet para evitar qualquer possibilidade de votação e facilitação digital, enviou milhares de policiais para reprimir as votações nos colégios da Região. Resultado? Conforme dados divulgados nesta segunda (2), 893 pessoas registraram agressões policiais durante todo o domingo.

Além do partido governista, que apostou na repressão policial, a mídia comercial - em especial, a partir de Madrid - sentiu o revés de limitar-se em reproduzir os discursos oficiais a respeito da (i)legalidade do referendo na Catalunha e repercutir as vozes governistas, em uma suposta defesa da ‘unidade’ nacional. Parece que não adiantou muito, pois mais de 2,2 milhões de pessoas participaram do referendo. Alguns, o muitos, de acordo com a direção do Podemos, na defesa do direito de decidir e por liberdade de expressão. O voto “Sim” venceu com 90,09% (2.020.144 votos), enquanto o “Não” teve 7,87% (176.565 votos).

Na segunda, o preço da opção política governista saiu da Espanha! Portais e capas de dezenas de periódicos de diversos países do mundo repercutem as imagens das agressões nas ruas de Barcelona, Girona e demais cidades da Região. O discurso de priorizar o diálogo com a direita, sustentado pelos 'socialistas' (PSOE), também sai chamuscado, pois os dirigentes do Partido Socialista, ao longo de setembro, praticamente se alinharam ao governo do PP.

Guardadas as proporções e peculiaridades contextuais, por vários momentos, ao acompanhar o problema, foi possível lembrar o "massacre do Centro Cívico", promovido pelo (des)governo do Paraná, em 29 de abril de 2015 - Beto Richa (PSDB) e aliados-, que usou dinheiro público para agredir milhares de pessoas desarmadas, que lutavam por seus direitos e conquistas. Tristes tempos e memórias da história contemporânea.

*Sérgio Gadini é professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e pós-doutorando em Madrid.

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