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"Viagem apavorante" Relatório da Unicef sobre abusos e tráfico de migrantes



Do IHU,  13 Setembro 2017
Por Roberta Gisotti, publicada por Rádio Vaticano, 12-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.


"O problema é sempre manter o coração aberto", insistiu ontem o Papa falando sobre o tema da migração, ao ser entrevistado no avião por jornalistas na volta de sua viagem à Colômbia. "Embora não seja suficiente apenas abrir o coração - acrescentou –quem está no governo deve lidar com esse problema com a verdade do governante, que é a prudência". "Saber quantos postos tem à disposição" - explicou - e "lembrar-se que não somente é preciso recebê-los, mas também integrá-los".

Nesse sentido também se orienta o relatório “Viagem apavorante” divulgado no dia 12 de setembro pela OIM-Organização Mundial para as Migrações e UNICEF, com base em 22.000 testemunhos de refugiados que cruzaram o Mediterrâneo fugindo de seus países ou à procura de uma vida melhor.

Entre os entrevistados, estão também 11.000 crianças e adolescentes menores de 25 anos, que sofreram em grande parte - 47% - abusos e práticas de exploração, número que sobre para 77% na rota do Mediterrâneo central, considerada a mais perigosa devido à atividade dos grupos criminosos. E, quem mais corre riscos do que qualquer outro país, são os jovens provenientes da África subsaariana, mais de 70% acaba vítima de violações e de tráfico de seres humanos. Os mais explorados são adolescentes com menor nível de educação, até 9 em cada 10. Em média, os jovens pagam entre US $ 1.000 e US $ 5.000 para fugir de sua terra e muitas vezes chegam à Europa com dívidas, o que os expõe a riscos adicionais. Estão fugindo principalmente de guerras, conflitos ou violências: apenas um terço dos adolescentes e menos da metade dos jovens deixa a pátria ilegalmente por motivos econômicos. Mais de 100.000 migrantes menores de 18 anos enfrentaram a “Viagem apavorante” no Mediterrâneo em 2016, e muitos estavam desacompanhados. No primeiro semestre de 2017, os menores não acompanhados que chegaram à Itália foram mais de 90%.

Entre os milhares de jovens entrevistados, Aimamo, 16 anos, que chegou sozinho na Itália vindo da Gâmbia, disse que foi forçado por meses, quando chegou à Líbia, a um trabalho físico extenuante pelos traficantes. "Se você tentava escapar, - relembra com terror - atiravam. Se você parava de trabalhar, eles te batiam. A gente era um escravo. No final do dia, te trancavam lá dentro”.

Proliferam o tráfico e as outras atividades criminosas relacionadas com a exploração da emigração. Cerca de 90% das pessoas que entraram ilegalmente na Europa em 2015, recorreu a serviços de facilitação organizados. De acordo com as estimativas da Europol, 20% dos traficantes suspeitos monitorados têm ligação com o tráfico de seres humanos e 22% com o tráfico de drogas.

Aumenta também o racismo e a discriminação contra os migrantes nos países onde transitam e onde se estabelecem.

O relatório apela a todas as partes envolvidas - países de origem, de trânsito e de destino, a União Africana, a União Europeia, as organizações internacionais e nacionais com o apoio da comunidade de doadores - para dar prioridade a uma série de ações: estabelecer rotas regulares e seguras para as crianças migrantes; fortalecer os serviços de proteção das crianças migrantes e refugiados nos Estados de origem, de trânsito e de destino; encontrar alternativas para a detenção de crianças migrantes; atuar nas fronteiras para combater o tráfico e a exploração; combater a xenofobia, o racismo e as discriminações contra todos os migrantes e refugiados.

No momento "faltam políticas reais e integradas por parte da União Africana e da União Europeia", como destaca Andrea Iacomini, porta-voz da UNICEF-Itália, entrevistado por Alessandro Guarasci.

“Por agora, podemos afirmar com certeza que as crianças - jovens e adolescentes - durante essas viagens são vítimas de escravidão: são reduzidos a verdadeiros escravos. As suas declarações apontam exatamente nessa direção: crianças que, de alguma forma, são ameaçadas de morte ou estupradas se tentam fugir dessas situações de exploração. Por isso, é claro que o quadro, sem uma ação conjunta dos governos e das ONGs, tenderá sempre a piorar”, diz Andrea Iacomini.

Você está confiante com os resultados propostos por Paris, na recente cúpula Europa-África sobre os migrantes, segundo os quais é prevista e formação de centros de acolhimento no sul da Líbia?

Estou confiante; precisamos estar vigilantes, especialmente por que, durante o debate desses dias, surgiu um fato importante. Não foi através do código de conduta e do fim das operações no mar que se reduziu o fenômeno dos fluxos; houve acordos na Líbia que hoje eram inevitáveis e a respeito dos quais estamos ao lado do governo italiano. No entanto, fica pendente uma questão fundamental: não é possível continuar a sustentar os centros de detenção - são 34 – nos quais estão aprisionados muitas crianças, menores e mães. É uma estrutura que deve ser absolutamente fechada; pedimos aos governos que apresentem alternativas; e, acima de tudo, é evidente que o contexto da Líbia, se continuar tão instável, não promete nada de bom também a esse respeito. Há um enorme problema; no entanto, podemos dizer que depois de Paris talvez tenha se aberto uma brecha que antes não existia. Será preciso observar por um período um pouco mais longo e investir maciçamente em ajudas que não contemplem apenas ‘caminhões’ de dinheiro; hoje, é preciso investir em educação, porque esse Relatório mostra um dado fundamental: nove em cada dez crianças, nove meninos e adolescentes em cada dez daqueles de que estamos falando, infelizmente têm níveis de educação muito baixos ou quase nulos. Pois bem, investir em educação significa ter a capacidade de criar também uma futura classe de liderança consciente dentro da Líbia, mas também dos países de trânsito, porque não podemos esquecer que essas viagens dizem respeito ao Níger, grandes áreas do país em que, infelizmente, ocorre a viagem dessas crianças.

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