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Quem vai parar Kim Jong-un?

Do IHU, 08 Setembro 2017Por Francesco Sisci, publicada no sítio Settimana News. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


A situação norte-coreana não está nada clara, porque não estão claros os motivos e as finalidades do líder, o jovem Kim Jong-un, e não está claro aonde chegaram as negociações entre Pyongyang e, separadamente, Pequim e Washington, os outros dois atores principais do caso.

Mas está claro que Kim Jong-un não quer a guerra, porque os seus atos de provocação são sempre muito cuidadosos para não cruzar o ponto de não retorno, que seria provocar vítimas entre os vizinhos. Por outro lado, está claro que isso não está funcionando muito nas negociações em curso, por causa da rápida sucessão de testes com mísseis e agora também nucleares.

A política dos dois fornos

A Coreia do Norte, na realidade, nasceu graças a uma hábil jogada de tabela do fundador Kim Il-song entre a China e a URSS, e, nessa jogada, ela cresceu e prosperou com o filho Kim Jong-il e, agora, com o neto.

Pyongyang, de fato, inseriu-se logo entre os dissabores e os equívocos que existiam entre soviéticos e comunistas chineses ainda nos anos 1940 para avançar uma agenda coreana distinta da dos dois grandes vizinhos. Nessa habilidade de pôr a URSS e a China uma contra a outra, nasceu também o envolvimento chinês na Guerra da Coreia (1950-1953) e, depois, aperfeiçoou-se entre 1960 e 1989, quando as relações entre URSS e China se romperam, até o colapso da URSS.

Nisso, os coreanos agiram de maneira diferente dos comunistas vietnamitas. De fato, Hanói, nos anos 1970, depois do fim da guerra com os Estados Unidos, optou por se inclinar decisivamente ao lado da URSS. A Coreia do Norte, por outro lado, nunca tomou uma decisão clara e sempre aplicou uma política dos dois fornos, sem nunca romper com nenhum dos dois.

Essa política se rompeu com o fim da URSS, porque colocou a Coreia do Norte toda nas mãos da China e na impossibilidade de jogar entre dois interlocutores transversais. A partir dos anos 1990 até hoje, a história foi a de uma constante tentativa de recriar uma política dos dois fornos, política que se afirmou pouco a pouco, com a melhoria da qualidade dos armamentos que Pyongyang conseguiu obter.

Nesse processo, a iniciativa dos “Colóquios a Seis”, promovida pelos Estados Unidos e pela China, novamente cortava o caminho para as tentativas de Pyongyang de pôr um contra a outra. Mas a premissa dos “Colóquios a Seis” era que Pequim – e também Moscou – confiasse mais em Washington do que em Pyongyang, e vice-versa para Washington.

Por motivos que, porém, aqui, seria muito longo para explicar, hoje nos encontramos diante de uma situação radicalmente diferente daquela que se abriu nos anos 1990. A Coreia do Norte conseguiu obter armas nucleares e mísseis capazes de lançá-los, portanto, é uma ameaça estratégica global, não só para a Coreia do Sul, contra a qual tem milhares de canhões apontados.

Bastidores problemáticos

Por trás disso, há o fracasso de duas negociações nos últimos 20 anos, razão pela qual a Coreia do Norte, mas também a URSS e a China são céticos quanto à verdadeira vontade estadunidense de chegar a uma solução.

Há o precedente da guerra no Iraque de Bush filho e das “revoluções do jasmim” da administração Obama na Líbia e na Síria. Essas intervenções foram todas desastrosas e empurraram os vizinhos mais interessados – China, Coreia do Sul e Japão – a preferir o status quo de um Kim louco, no caso de um caos líbio, sírio ou iraquiano.

Além disso, como Gaddafi renunciou ao programa nuclear e depois foi deposto e linchado, isso cria um precedente para Kim, que não confiará em eventuais pactos que inclua, o seu completo desarmamento.

Há uma desconfiança mútua crescente entre a China, a URSS e os Estados Unidos, e a questão norte-coreana não os une, ao contrário, torna-se o primeiro campo de confronto na longa lista das questões não resolvidas. A Coreia do Norte criou uma rede de economia criminosa que financia o seu programa de armas com uma multiplicidade de fontes, incluindo o tráfico de drogas (meta-anfetaminas) e dinheiro falso (dólares e o yuan chin}es).

Além disso, há a difusão de armas de destruição em massa. Como o custo da energia nuclear e dos mísseis diminui cada vez mais, Kim pode se tornar um exemplo para todo ditador ou aspirante que circula pelo mundo. Isso complica principalmente a negociação com o Irã.

Render-se a Kim Jong-un?

Essa multiplicidade de atritos às suas costas criou um clima ideal para que a Coreia do Norte aplique a arte que aperfeiçoou no passado: colocar um o outro e, nisso, fazer surgir o seu próprio poder e a própria força de chantagem. Enquanto isso, diminui a possibilidade de recorrer a opções militares.

A economia sul-coreana cresce, e os custos de um eventual bombardeio do Norte com canhões tradicionais tornam-se cada vez mais impossíveis, enquanto a melhoria dos armamentos aumenta cada vez mais o custo de um possível confronto.

Isto é, os vizinhos estão cada vez menos dispostos a pagar por uma eventual intervenção militar, e a Coreia do Norte aumenta cada vez mais o custo de uma eventual guerra.

Nessa situação, a única resposta possível pareceria ser a de se render a Kim. Dar-lhe o que ele quer e esperar no seu bom coração. Mas, como ele não demonstrou ter um bom coração, ninguém tem vontade de ceder e de se meter em uma situação que poderia ser, de fato, sem saída. Sem contar o pesado precedente estadunidense.

Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos não podem se arriscar a se deixar ameaçar por um louco que poderia atacar Guam ou San Francisco com um míssil nuclear.

Uma aliança estratégica contra Pyongyang?

Em teoria, uma solução é possível: colocar todos os atores envolvidos com Kim em torno de uma mesa e concordar, primeiro, sobre o que fazer e oferecer, fechando, depois, as portas para a política dos dois fornos de Kim. Como Kim vai querer sobreviver, ele tentará aumentar o preço, mas, no fim, cederá.

Mas hoje é muito difícil colocar os Estados Unidos e a China em torno de uma mesa para concordar uma política comum sobre Pyongyang, porque ambos acreditam que a crise coreana está sendo usada para criar dificuldades para o outro lado.

Os chineses temem que Washington esteja tentando usar a crise para demonizar a China, pintada como o marioneteiro de Pyongyang; nisso, a crise norte-coreana seria apenas uma parte de um novo jogo da Guerra Fria que está sendo jogada na Ásia.

Os estadunidenses temem que os chineses estejam usando a Coreia do Norte para assustar os vizinhos e os de longe, a fim de expulsar da Ásia, com as boas ou com a força, os Estados Unidos, porque, se se resolvesse bem, a China ganharia o mérito, enquanto, se acabasse mal, os Estados Unidos poderiam ser acusados de tudo; nisso, muitos vizinhos asiáticos também apoiam os Estados Unidos, porque não querem que o país fora da Ásia, para se encontrarem, depois, à mercê da China.

Sem conhecer os detalhes, parece que há verdade em ambas as posições, sem contar Rússia e Japão (para citar os mais importantes), que não são simples espectadores, mas trazem conteúdos e exigências próprias para a mesa. Desse modo, ninguém parece ter um interesse real na solução da crise, e só resta a Pyongyang aumentar a aposta. Assim, torna-se fácil que, mais cedo ou mais tarde, algo escape do controle.

Nessa situação, com interesses nacionais e internacionais tão divididos e contrapostos para além da boa e ativa vontade dos mediadores individuais de cada país, é fácil continuar na espiral.

Talvez, seria preciso separar a contingência da questão norte-coreana da questão geral da Ásia. Em tal perspectiva, há problemas e preocupações que não devem ser subestimados.

Grosso modo, se a China dominasse a Ásia, pátria de 60% da população mundial e da maioria do seu crescimento econômico, ela dominaria tudo. Isso, com um sistema político e econômico não transparente e diferente do ocidental adotado por todos os lados.

Além disso, admitindo-se que os Estados Unidos aceitem essa perspectiva, a recente crise do Doklam demonstra que há um alinhamento de países que vai da Índia ao Vietnã, passando pelo Japão e talvez também pela Rússia, que se oporia ao predomínio chinês.

A China pensa que a ausência estadunidense curvaria a todos. A verdade poderia ser exatamente o contrário: sem os Estados Unidos, esses países poderiam pensar que não resta outra opção senão enfrentar diretamente a China.

Assim, há um problema chinês que é basicamente duplo. A China deve, em essência, alinhar o seu sistema político e econômico ao dos países desenvolvidos do Ocidente(dada a dimensão da sua economia) e deve repensar a sua política externa em uma base paritária.

Por outro lado, os últimos anos de política estadunidense foram pontilhados por uma série de desastres no Oriente Médio, enquanto quase paradoxalmente a política estadunidense na Ásia foi mais sábia e deu a todos uma Ásia mais próspera e estável. Portanto, os Estados Unidos deveriam levar ao Oriente Médio a sua política asiática, e não o contrário.

Quem vai controlar a situação?

Essas são opções de longo prazo, que podem simplesmente ser varridas pelo ritmo da crise norte-coreana. Talvez, então, será preciso separar a crise dos medos asiáticos em geral, mas sem que essa separação se torne uma arma de propaganda ou de chantagem para qualquer lado.

Teoricamente, então, seria necessário um ator que, sem reivindicar méritos, comece a tecer uma trama. Com o fim, de fato, da ONU ou das agências internacionais, tal papel, hoje, está vazio. Além disso, a ONU, como se pensava, não é autônoma, mas está paralisada, de fato, por várias exigências em contraste entre si.

Esse novo ator poderia ser a Santa Sé? Os vários atores da região gostariam de um envolvimento da Santa Sé? Naturalmente, isso criaria, depois, milhares de problemas para a Santa Sé, que não é um ator político, mas religioso.

Nessa confusão, Kim Jong-un, hoje, é o único que tem um objetivo claro e que persegue com grande determinação: chantagear a todos e emergir cada vez mais como polo de atenção global, com todas as repercussões positivas que, para ele, vêm dessa situação.

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