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O triste espetáculo da política contemporânea

As figuras que deveriam representar seus países transformaram-se em caricaturas de líderes, no Brasil e em boa parte do mundo. Cada um com seu "personagem", só fazem mostrar que vivemos um tempo sem rumo
Da RBA, 09 de Setembro, 2017
por Flávio Aguiar, de Berlim


Macron, Trump, Jong, Temer. Líderes de Estado afundam-se, e ao mundo, em caricaturas de estadistas


"A política virou um espetáculo midiático": é frase que se ouve para e de todo lado, direita, centro, esquerda.

É, mas há espetáculos e espetáculos, de acordo com o roteiro, a direção e os atores.

Vejamos o exemplo maior: é claro que Trump e Kim-Jong-un estão encenando um espetáculo. Este dispara mísseis de lá, aquele dispara rojões bufo-retóricos de cá. Mas que ninguém se iluda: de repente um destes mísseis ou um destes rojões cai no lugar errado e a catástrofe está feita. Mas isto não impede que eles sejam péssimos atores. A mídia Ocidental sempre contou que Jong-un era um péssimo ator: bufo, um adolescente de topete desafiando a águia americana como se fosse um galo garnisé. Agora está às voltas com Trump: uma águia balofa e de topete desafiando um galo garnisé. Afora isto, Trump, um ator de quinta categoria, pode procurar uma briga armada com Maduro, que não é um ator. Pode merecer críticas, mas não a de ser hipócrita como Trump.

Adiante, encontramos Macron, na França: um Doria sem botox, que gasta milhares de euros para se embonecar para as câmaras, e agora se propõe como o cônjuge (político) de Merkel, querendo "refundar" a União Europeia. Temos também Rajoy, o primeiro-ministro espanhol que finge que é governo, porque na verdade é um desgoverno na Espanha sem rumo de hoje. E se formos pela Europa adiante, teremos de ver estas monarquias que não passam de um teatro de bonecos e bonecas sem muito interesse nem valor estético.

Mas aí… aí entra o nosso país, hoje uma república dos bananas, isto é, os coxinhas que ajudaram a entronizar no Planalto a maior e pior quadrilha da nossa história. Se olharmos para seus protagonistas de hoje, ficaremos pasmos.

Na batuta, um juiz em Curitiba que lembra o mendigo de "Deus lhe Pague", de Joracy Camargo dos anos 30, que com uma mão acariciava o altar e com a outra o bezerro de ouro. Mas o mendigo dos anos 30 era Procópio Ferreira, já este de hoje é um ator medíocre que só faz caretas de seriedade. Ao seu lado a fiel esposa, espécie de candidata a Lady Macbeth sem a grandeza desta, só sua avidez.

Ao redor, a caterva de procuradores, cada um pior que o outro. Dallagnol não consegue nem fazer o papel de D’Aragnoll direito, parecendo um guri à solta num teatrinho de colégio. E aí no meio deles aparece Palocci fazendo o papel de Silvério dos Reis. Com papelzinho de cola na mão e tudo, para citar certo: "pacto de sangue"…

Janpt fez tantos papeis que se perdeu. Não sabe mais o que faz. O promotor perdido e reencontrado? Torquemada? O Grande Inquisidor? O carrasco de Lille? Perdeu o ritmo e a iniciativa.

A Rede Globo? Perdeu-se no golpe que construiu. Mais ainda a mídia que lhe seguiu os passos: Folha, Estado etc. Coadjuvantes de uma ópera medíocre.

Bom, mas aí chegamos ao bufo supremo: Temer, primeiro e único. O cara que se esconde dentro de um automóvel fechado no Dia da Pátria. E que – ato falho – deixa de vestir a faixa presidencial neste mesmo dia. Melhor impossível.

Tudo isto a nu, diante do mundo inteiro. Sem noção de decoro nem vergonha na cara.

É triste. Lembro os dias da Ditadura de 64, quando éramos acusado de "atacar a imagem do Brasil no exterior". Hoje não precisa. Os golpistas mesmos se encarregam disto.

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