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O Curdistão e os nacionalismos de risco

Líderes curdos podem complicar o quadro da região ao proclamar sua independência em setembro



Da Carta Capital, 12 de Setembro, 2017


A diáspora apoia na Alemanha a independência com bandeiras do Rojava e do Curdistão iraquiano

Apesar da oposição de todos os vizinhos – Síria, Iraque, Turquia e Irã – e de terem sido desaconselhados pelos EUA e a Rússia, os curdos do Iraque insistem em um referendo vinculante sobre sua independência, marcado para 25 de setembro.

Ao mesmo tempo, os curdos da Síriaorganizam um Estado praticamente independente, a Federação Democrática da Síria do Norte, conhecida informalmente como Rojava (“Oeste”, em curdo), e terão eleições comunais em 22 de setembro, seguidas de eleições municipais em 3 de novembro e de um Parlamento federal em 1º de janeiro. Embora governados por partidos diferentes, especula-se sobre a união dos dois territórios em um “Grande Curdistão”.

Na terça-feira 29, o quadro complicou-se com a decisão do conselho provincial de Kirkuk de participar do plebiscito, embora não faça parte da região autônoma do Curdistãoimposta ao Iraque em 2005 pelos EUA (basicamente, Dahuk, Erbil e Al Sulaymaniah).

Ali, os curdos são menos de metade da população, mas a guerra com o Estado Islâmicodeu a seus guerrilheiros a chance de controlá-la. A decisão foi tomada por apenas 22 dos 41 conselheiros, dos quais seis são árabes e nove são turcomenos.




Isso exemplifica um problema comum à maioria dos separatismos étnicos e culturais. Quando lideranças políticas reivindicam a independência de uma região em nome da autodeterminação de uma minoria dentro de um Estado maior, em nome de injustiças reais ou supostas ou de oportunidades de desenvolvimento perdidas, preferem não ver as minorias dentro da minoria cujas queixas, aspirações e reivindicações territoriais são exatamente tão legítimas quanto as suas próprias.

O território controlado e reivindicado pelos curdos inclui grupos étnicos e religiosos cujas identidades não estariam menos ameaçadas por um Estado nacional curdo do que pelos Estados árabes do Iraque e da Síria.

A maior é a dos turcomenos, que, apesar do nome, são histórica e culturalmente ligados à Turquia e não ao Turcomenistão. Os líderes curdos insistem em subestimá-la, mas somam entre 2 milhões e 3 milhões no Iraque e outro tanto na Síria, número comparável ao dos próprios curdos na região (estimados em cerca de 7 milhões no Iraque e 2,5 milhões na Síria).

Há também os assírios, antiga comunidade cristã que não fala árabe nem curdo, mas aramaico e, mesmo após expulsões em massa para a Europa e os EUA, ainda somam cerca de 900 mil na Síria e 400 mil no Iraque, sem falar de centenas de milhares de possíveis retornados, caso o Estado Islâmico seja definitivamente vencido.

Seguem-se pelo menos 1 milhão de árabes nas duas regiões “curdas”, impedidos de votar tanto no referendo do Curdistão iraquiano quanto na eleição do Rojava. Muitos árabes tiveram suas aldeias arrasadas e foram expulsos durante a guerra por suposto apoio ao Estado Islâmico e os remanescentes temem ter o mesmo destino.

Há ainda povos contados como curdos por falarem alguma das pelo menos oito línguas dessa família, mas que não se veem como parte de uma “nação curda”. É o caso dos cerca de 700 mil yazidis, povo com dialeto próprio e especialmente vitimado pelo Estado Islâmico, devido ao antigo preconceito de que cultuam Satã na forma de Melek Taus (literalmente “Anjo Pavão”), entidade rebelada contra Deus antes de se arrepender e se reconciliar com o Ser Supremo.


A eficiência dos curdos na luta contra o EI e seu progressismo em uma região de fanatismos religiosos entusiasmam muitos no Ocidente... (Foto: Rodi Said/Reuters/Latinstock)

Trata-se de um sincretismo de crenças pré-islâmicas, zoroastrismo e Islã sufi com as quais os integrantes, alguns de língua árabe, se identificam mais do que com qualquer nacionalidade.

Embora os nacionalistas os vejam como guardiões das raízes da cultura curda e incluam um símbolo de sua religião (o sol de 21 raios) em seus emblemas, as lideranças yazidis se ressentem da falta de apoio à reconstrução de suas comunidades arrasadas pelo Estado Islâmico e insistem em não serem nem curdos nem árabes.

Outros 500 mil iraquianos são shabaks, uma comunidade cuja religião se considera uma vertente mística do Islã xiita, mas tem dialeto próprio, incorpora elementos cristãos e yazidis, votou contra sua incorporação ao Curdistão iraquiano e também rejeita a arabização e a curdização.

E pelo menos 1 milhão são fayli, curdos xiitas da linha iraniana que vivem na fronteira do Irã e cujos principais partidos são aliados não dos separatistas curdos, mas da coalizão xiita no governo de Bagdá.

Há 12 milhões a 18 milhões de habitantes nas regiões controladas por curdos no Iraque e na Síria, dos quais talvez 60% falam línguas curdas, mas, se descontadas as comunidades indiferentes ou hostis ao nacionalismo curdo, sobram uns 45%.

Seria uma base frágil para um Estado-nação, mesmo se não se tratasse de uma faixa de terra sem acesso ao mar, cujo comércio internacional e sobrevivência a longo prazo dependeriam da boa vontade dos vizinhos, nesse caso inexistente.

Diásporas à parte, Síria e Iraque representam cerca de 30% da população curda. Outros 45% vivem na Turquia (mais de 14 milhões) e 25% no Irã (mais de 8 milhões).

O regime iraniano discrimina minorias religiosas e existe um movimento curdo de resistência, o PJAK, nelas baseado, mas a maioria de seus curdos são xiitas e bem integrados. O curdo Mohammad Bagher Ghalibaf, por exemplo, foi general da Guarda Revolucionária e prefeito de Teerã.

Entretanto, o Irã não vê com bons olhos o surgimento de um Estado potencialmente hostil a seus aliados de Bagdá e Damasco que os diminui e está em posição de cortar os contatos entre eles, ameaçando a coesão do bloco que espera consolidar de Teerã a Beirute.

O problema com a Turquia é ainda mais sério. Trata-se de um país construído não com base em uma religião, como a República Islâmica do Irã, mas em um nacionalismo étnico e laico, em reação à pretensão dos aliados da Primeira Guerra Mundial de partilhar o Império Otomano.

No início, dentro do território retido por Kemal Atatürk, os armênios foram massacrados e os gregos expulsos em aliança com líderes curdos, para os quais se tratava de uma guerra de libertação contra o imperialismo cristão do Ocidente.

No segundo momento, porém, Atatürk conduziu uma revolução cultural para ocidentalizar e unificar a sociedade turca e assimilar as minorias laz, circassiana e curda. Essa última, maior e na época mais religiosa e tradicionalista, resistiu e desde 1925 sua história é de rebelião e repressão.

Uma das consequências da revolta foi que, em 1926, os britânicos assumiram o controle da região de Mossul (futuro Curdistão iraquiano), até então disputada com a Turquia, da qual muitos turcomenos foram expulsos.

No início do governo do islamista Recep Tayyip Erdogan, pareceu que a menor ênfase na cultura turca em favor da identidade muçulmana poderia levar à paz com os curdos. De 1999 a 2011, houve uma série de tréguas, permitiu-se um canal de tevê em curdo e o partido curdo pôde chegar ao Parlamento.

O quadro degenerou, porém, com a guerra civil da Síria, na qual Erdogan apoiou os rebeldes fundamentalistas e turcomenos – e até 2014, o próprio Estado Islâmico –, enquanto Bashar al-Assad entendeu-se com os curdos.

Já são incômodas o suficiente para a Turquia as lideranças curdas do Iraque, que pertencem ao Partido Democrático do Curdistão (KDP, em inglês, conservador, baseado no norte) ou à União Patriótica do Curdistão (PUK, social-democrata, mais forte no sul) e parecem dispostas a se entender com Ancara. Mas os curdos sírios são uma ameaça existencial, pois são liderados pelo Partido de União Democrática (PYD, em curdo), socialista, ligado ao turco Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e solidário com sua luta separatista.


...mas não se perca de vista que seu projeto depende de se anularem as aspirações de outras minorias, como os turcomenos apoiados por Ancara (Foto: Epo Photos/Zuma Press/Fotoarena)

Pela sua eficiência na luta contra o Estado Islâmico, os nacionalistas curdos foram apoiados por russos e estadunidenses, para a fúria de Ancara. Nessa região devastada pelo fanatismo, suas lideranças são no mínimo laicas, tolerantes e abertas à igualdade das mulheres, até porque essa é uma maneira de enfatizar sua identidade distinta.

O governo de Israel faz lobby no Congresso dos EUA pelo apoio à independência do Curdistão iraquiano, cujo nacionalismo é pró-ocidental e no qual vê um aliado contra o Irã e um fornecedor de petróleo.

O Rojava, promotor de cooperativas econômicas, democracia direta, ambientalista e ativamente feminista é progressista o suficiente para entusiasmar as esquerdas ocidentais(como outrora Israel e os kibutzim), apesar de alimentar a esperança de ser protegido pelos EUA e oferecer-lhes uma base aérea para substituir aquela de Incirlik, na Turquia, cujas relações com o Ocidente se deterioram.

As razões certas ou erradas para a simpatia pela causa do nacionalismo curdo no Ocidente não devem perder de vista, porém, que a oposição das minorias e dos vizinhos faria de sua independência – que, como no caso de Israel, seria possível apenas com “limpezas étnicas” e apoio incondicional do Ocidente e à custa de mais hostilidade entre este e o mundo árabe – mais um fator de instabilidade em uma região já conturbada, onde as supostas boas intenções dos EUA e aliados já levaram ao inferno.

Serve de advertência o caso do Sudão do Sul, cuja independência apoiada por Washington a pretexto de encerrar a longa guerra contra o regime de Cartum (mas de olho em seu petróleo) apenas serviu de prólogo a uma guerra interna igualmente mortal. Em uma região onde povos convivem há séculos sem fronteiras claras, o nacionalismo étnico pode ser tão perigoso quanto o fundamentalismo.

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