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Homossexualidade e candomblé

Da Carta Capital, 22 de setembro, 2017

A presença de gays na religião afro sempre foi visível, mas o diálogo com a sociedade ainda precisa avançar.

Cena da Parada do Orgulho Gay em Brasília. Nas ruas, o preconceito é maior do que nos terreiros


por Pai Rodney — publicado 22/09/2017 05h00, última modificação 21/09/2017 11h22
Antônio Cruz/Agência Brasil.

Painho, um dos personagens mais famosos de Chico Anysio, era um pai de santo homossexual, cheio de trejeitos e afetações. Mesmo delineado com os traços fortes da caricatura, encontrava na realidade dos terreiros sua inspiração.

O candomblé sempre acolheu homens e mulheres homossexuais e essa condição nunca foi empecilho para que se tornassem respeitados como sacerdotes e inscrevessem seu nome na história de luta e resistência da religião. Isso não significa, porém, que tenha sido uma trajetória fácil.

Apesar de ser um espaço de acolhimento, o terreiro nunca esteve livre de reproduzir os preconceitos que a sociedade suscitava. Portanto, mesmo incluídos na estrutura hierárquica do candomblé, os homossexuais travaram algumas batalhas para ter seu lugar reconhecido. Seguem na luta, mas, ainda assim, ser gay no candomblé é infinitamente mais fácil do que ser gay em muitas religiões, sobretudo nas mais tradicionais.

Num momento em que o debate sobre a tal “cura gay” retoma a cena, parece oportuno marcar a posição do candomblé enquanto território de acolhimento e inclusão. Religião e homossexualidade sempre pareceram andar em sentidos opostos, mas a postura dos povos de matriz africana, desde sempre, foi em outra direção. Isso rendeu ao candomblé mais um estigma e ratificou sua vocação para ser a grande religião dos excluídos.

Pai de santo homossexual soava muitas vezes como um pleonasmo. Trata-se, obviamente, de um estereótipo, de um preconceito. Há, e sempre houve, pais e mães de santo heterossexuais. Alguns, inclusive, com várias mulheres e uma prole respeitável. Outros com seus relacionamentos múltiplos, com gente de ambos os sexos. E há ainda mães que são lembradas pela discrição, quase um celibato, sem, contudo, deixar de dar margem a todo tipo de especulação.

Heteronormatividade e candomblé nunca flertaram. A antropóloga Teresinha Bernardo disse certa vez com propriedade: “O candomblé liberta as pessoas para a vida”. Liberta também para a sexualidade. O que muitos considerariam perversões, taras, desvios, são comportamentos absolutamente naturais para o povo do axé. Não se trata de uma religião permissiva, longe disso. É bom que se diga que não criminalizar comportamentos ou orientações sexuais é muito diferente de ser conivente com abusos de qualquer ordem.

No terreiro, a homossexualidade sempre esteve presente de forma muito natural e tranquila. Nunca foi considerada doença nem perversão. Claro que algumas mentes colonizadas tentaram impor outros padrões e obrigaram muitas vezes gays e lésbicas a se esconder, reprimindo comportamentos, controlando os corpos, coibindo desejos. Mas, na sua essência, o candomblé sempre aceitou e respeitou a condição humana, por isso é certamente a religião com a maior proporção de homossexuais assumidos, inclusive entre as lideranças.

A perseguição histórica sofrida pelos povos de matriz africana abre o precedente para que seus territórios saibam acolher e compreender todos que de alguma forma foram marginalizados. A própria condição do negro na sociedade nos ensinou que a união de todos aqueles que são discriminados é uma estratégia de resistência.

Gays e lésbicas contribuíram para a preservação de nossas tradições. Muitos pais e filhos de santo homossexuais ajudaram no processo de expansão da religiosidade e da cultura dos terreiros. Um bom exemplo foi a construção de um código de comunicação com base na linguagem do terreiro utilizado pelos gays e travestis como instrumento de defesa contra a opressão. “Pajubá” é praticamente um idioma das ruas que mistura palavras de várias línguas africanas preservadas nos candomblés.

Uma onda conservadora assola o País e fomenta um sem-número de retrocessos ideológicos que acabam culminando em ações práticas. Seja por meio de um projeto de lei que tramita no Congresso, seja pela liminar de um juiz, não se pode admitir que uma condição humana seja tratada como doença. Não há argumento capaz de justificar tamanho disparate.

Reacender a discussão sobre a “cura gay” é um desserviço, um entrave à cultura de paz, ao diálogo e ao pleno respeito à diversidade. Determinar o que é certo ou errado a partir de convicções religiosas e tentar limitar o acesso à dignidade, pois é digna uma vida sexual plena, é condenar à perseguição cidadãos e cidadãs que têm direitos, que pagam impostos, que cumprem seus deveres e não precisam nem merecem ser submetidos às loucuras de fanáticos fundamentalistas que em nome da preservação da família, da tradição e dos bons costumes condenam seres humanos a viver sob a égide desumana de um deus castrador e punitivo.

Quando alguém argumenta a favor da “cura gay” e diz que “pessoas que não podem ter filhos são como árvores secas que só servem pra lenha”, percebemos o grau de debilidade a que uma sociedade chegou. Sim, a sociedade chegou nesse nível e pode ir mais longe. Uma análise à luz de Foucault ajudaria a explicar, mas não há mentes abertas para o entendimento. Primeiro, trata-se o gay como aberração, depois como doente e há também os que consideram a homossexualidade um crime, haja vista os países que a punem com penas severas, inclusive de morte.

No Brasil, o desrespeito, a omissão, o silêncio são o júri que vem condenando muitos homossexuais à morte. Não podemos admitir que se discuta uma cura para aquilo que não é doença. Pessoas morrem por ser homossexuais, são assassinadas com requintes de violência. Portanto, é urgente que o Congresso se ocupe em discutir o que realmente importa, é preciso tornar a homofobia crime. Não podemos permitir que gays, lésbicas, travestis, transgêneros, transexuais, bissexuais sejam a lenha da fogueira na qual esses negros macumbeiros devem arder para expiar seus pecados.

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