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Brasil: uma bandeira manchada de sangue negro e indígena













Da página Combate Racismo Ambiental, sábado, 16 de setembro, 2017
Por Letícia Parks, no Esquerda Diário



Escrever o roteiro foi fácil. Além de muito ódio comprimido dentro do peito, a cabeça estava explodindo depois de ler as duas edições da Iskra sobre A questão dos negros no Brasil e no mundo.

Estava convencida: em cada pedaço, grande ou pequeno, da história brasileira e mundial, estão as marcas, escancaradas, do crime cometido pelo capitalismo europeu contra o povo negro, que, roubado de suas terras, serviu como mão de obra da acumulação primitiva de capital. Com o sangue e suor dos negros, espalhados como escravos por todo o Novo Mundo, a primeira potência capitalista se consolidou. Acontecia a Revolução Industrial na Inglaterra. Com colônias e tráfico negreiro lucrativo, surgia a primeira grande revolução política que deixou o absolutismo para trás. Acontecia a Revolução Francesa, que do seu início à repressão aos trabalhadores – por demasiado entusiasmados com a Revolução – foi financiada pelo sangue derramado no Congo, no Mali, no Egito, em Ruanda, entre outros terrítórios sequestrados em África.

Também estava convencida de que, nesse crime, os primeiros capitalistas inventaram o racismo, e que então, para ser antirracista, precisava ser comunista. Disso, todos aqueles incríveis companheiros que também estavam no vídeo, estavam convencidos.



Falamos dessa independência alucinada que houve no Brasil. Uma independência que não libertou escravos, a única em todo o mundo. Uma independência sem luta, por absoluto medo de que a luta saísse do controle e o Brasil se fizesse Haiti. Decidimos mostrar todos os momentos em que esse medo foi mais intenso, os heróicos momentos de resistencia negra, que pipocavam em todos os cantos do país, antes e depois da independência.

Decidimos cantar o revide vivo de “Feitor Maldito”, uma música de autor desconhecido e que percorreu séculos nas rodas de capoeira.

Depois de publicado, o vídeo alcançou rapidamente milhares de visualizações. Nos comentários e compartilhamentos, há entusiasmo e elogio a essa iniciativa de unidade entre a combate na luta de classes e a denúncia do racismo em nosso país. Há também aqueles que defendem, infelizmente, o discurso oficial dos livros de história. Livros que ignoram a existência dos negros como sujeitos, que ignoram o medo da elite dos atos generalizados de revolta que percorreram cada centímetro de nosso país.

Como é possível ignorar o racismo em nosso país, como alguns insistem em fazer? Nos perguntaram: “por quantas gerações ainda vamos ficar reclamando do que aconteceu lá atrás?”

Seguiremos provocando os defensores desse país racista e escravocrata enquanto Rafael Braga seguir preso e enquanto nossos irmãos negros e trabalhadores continuarem, como ele, sofrendo incriminações formaçadas e forem presos sem qualquer tipo de julgamento. Enquanto a polícia continuar matando nossas mulheres negras jovens como Maria Eduarda, as negras lésbicas como Luana, as negras trabalhadoras como Cláudia. Enquanto nossas mulheres receberem 1/5 do salário de um homem branco, nossos homens receberem 1/3. Enquanto a terceirização existir e continuar sendo marca do racismo estrutural de nosso país. Enquanto formos desabrigados de nossas casas porque precisamos ocupar terras para poder ter direito à moradia, à comida. Enquanto formos as maiores vítimas de estupro e de morte por aborto clandestino. Enquanto formos as mais ignoradas pela lei e seguirmos morrendo ininterruptamente por violência doméstica, feminicídio e LGBTfobia.

Assim como aquelas gerações que vieram antes de nós, temos grandes sonhos, sonhos de liberdade e de vida plena, o que significa que a cada minuto resistiremos e por mais organização que exija, por mais difícil que possa parecer, estaremos nos preparando para tomar o céu de assalto.



Imagem capturada de vídeo

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