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As fantasias de Janot

A Justiça brasileira prima pelo esforço de transformar ficção em realidade. E a delação é a prostituta das provas

Não confundam este cidadão com o Procurador-Geral

Da Carta Capital, 9 de Setembro, 2017
por Mauricio Dias 



O latido dos cães contra o direito de Lula voltar ao poder traduz a falta de provas capazes de sustentar as denúncias contra ele, para, assim mesmo, evitar o crescimento da caravana de eleitores dispostos a dar a vitória, em 2018, ao ex-presidente da República. As pesquisas de intenções de voto indicam esse caminho.

É contra isso que os cães ladram e reagem. Sempre foi e sempre será assim o duro confronto com Lula nas urnas. Rodrigo Janot, procurador-geral da República, às vésperas de perder a função, repetiu de forma mais forte a receita de destemperados procuradores de Curitiba, que agem, quase sempre, garantidos pelo martelo do juiz Sergio Moro.

Mais agressivo, o PGR denunciou e denominou o PT de “organização criminosa”, comandado por Lula há 37 anos. Provas? Nenhuma. Além de Lula, Janot incluiu, desta vez mais diretamente, o Partido dos Trabalhadores e atingiu a ex-presidenta Dilma Rousseff, entre outros petistas. Isso é uma questão para depois.

Lula vai agora, mais uma vez, caminhar contra o vento e, no próximo dia 13, enfrentará um juiz Moro sem documento, ou seja, sem provas, pronto a decidir sustentado pelo mesmo hábito que, descaradamente, publica a versão e joga a verdade no lixo.

Não é preciso invocar conhecimentos jurídicos para desmantelar as argumentações de Janot, Dallagnol e Moro, quando se fala em comprovações muito além da delação conhecida como a prostituta das provas.

Nenhum indígena autêntico atiraria flechas a esmo, como fez o botocudo Janot na denúncia de agora. O trecho abaixo tirado de um parágrafo do discurso do procurador-geral da República desnuda um erro primário, que, talvez, faça parte de outros objetivos dele.

“Lula foi o grande idealizador da constituição da presente organização criminosa na medida em que negociou diretamente com empresas privadas o recebimento de valores para viabilizar sua campanha eleitoral à Presidência da República, em 2002, mediante o compromisso de usar a máquina pública, caso eleito, em favor dos interesses privados.”

Em poucas palavras, Lula, renegado pelo empresariado desde as greves no ABC paulista, teria negociado com eles a possibilidade de vencer a eleição? Quem acredita? Teria sido mais fácil negociar com José Serra, o adversário de Lula naquele ano que sucedia o fim da desacreditada Era FHC.

Em recente entrevista, o ministro Luiz Fux, integrante do desimpedido Supremo Tribunal Federal onde os juízes falam de tudo, afiançou, ao modo dele, que “só o Poder Judiciário pode levar” o País “a um porto seguro”. Pode significar tudo ou nada.

Somente o Judiciário tem o poder de bloquear a candidatura de Lula, já então vítima de uma possível condenação tramada para a segunda instância. Prevalecerá, assim, a legitimidade dissolvida dentro de uma suspeita legalidade.

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