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A visão de Pierre Teilhard de Chardin. Um mundo em mudança


Do IHU, 19 Setembro 2017
Por  François Euvé, publicado por L’Osservatore Romano. A tradução é de Luisa Rabolini.


Antecipamos de "Aggiornamenti sociali" um trecho do artigo escrito pelo diretor de "Études" sobre a obra de Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955). A figura do cientista e teólogo francês será o tema de um encontro organizado pela Associação italiana Teilhard de Chardin no Instituto Veritatis Splendor de Bolonha, nos dias 21 e 22 de outubro próximo.

Eis o artigo.

A obra de Teilhard seduziu muitas gerações de ouvintes e leitores por sua ambição de chegar a uma visão de conjunto da história do mundo e do lugar da humanidade dentro dele. O otimismo que a caracteriza poderia encontrar consonância com o entusiasmo de muitos homens e mulheres da época, firmes defensores da opinião generalizada de que o progresso técnico poderia contribuir para o bem-estar da humanidade.

Passando hoje a considerar o pensamento de Teilhard, deve ser evitado o grave erro de considerá-lo um sistema definitivamente pronto. Em vez de fazer uma construção intelectual, é melhor apreender o dinamismo subjacente que o anima. Teilhard na verdade era, antes de tudo, um pesquisador, consciente de que a pesquisa tem como objetivo alcançar um resultado, mas, acima de tudo, é a mais alta das funções humanas, por ser expressão da participação do homem na criação de um mundo em gênese.

Na pesquisa se encontra a essência da vida humana, ou seja, o ser humano sempre volta a superar sua condição presente. O pesquisador não se contenta em constatar o que existe ou explicar o funcionamento da "máquina do mundo". A pesquisa não se esgota na simples curiosidade, embora a cada dia aprofunde o conhecimento que temos da realidade. O esforço de pesquisa tem uma dimensão criativa: "conhecer para criar". Graças ao seu trabalho, o homem contribui para a realização da obra criadora de Deus.

O itinerário da pesquisa comporta inevitavelmente momentos de impasse, hesitações, ensaios e erros. A obra de Teilhard não quer ser "dogmática", mas pretende abrir pistas, propor intuições, considerando que poderão ser frutuosas se aprofundadas e, eventualmente, retificadas. Ao se confrontar com uma obra como a de Teilhard, corre-se o risco de isolar algumas partes para torná-las o embrião de um sistema doutrinário. Disso ele próprio tinha consciência: "Quanto mais for fundamental, mais uma verdade encontrará a sua expressão mais clara somente através de uma série de tentativas e esboços, como se nossa mente (da mesma forma que a natureza) pudesse chegar a um centro somente após tê-lo circunscrito".

Ele também está ciente dos limites da linguagem conceitual, quando o que está em jogo é a transmissão de uma intuição, como escreve à sua amiga paleontóloga Ida Treat: "Afinal, não é possível transmitir diretamente com as palavras a percepção de uma qualidade, de um gosto". Isso porque vivemos em um mundo em transformação permanente e cada um de nós, à sua maneira, participa dessa transformação.

Não se pode compreender o pensamento de Teilhard se nos esquecermos que para sua formação contribuíram não só a sua família católica, o trabalho como paleontólogo ou a longa formação filosófica e teológica jesuíta, mas também os eventos da Primeira Guerra Mundial. Teilhard participou das principais batalhas na frente franco-alemã não como soldado ou capelão militar (papel que lhe garantiria uma situação privilegiada), mas como carregador de maca. Depois de ter vivido em um ambiente relativamente protegido, passou a um estreito contato com as várias figuras do povo francês. Seu encontro com o povo foi de plena realidade, assistindo a gestos de fraternidade, mas também de vulgaridade; de generosidade, bem como de egoísmo.

Foi decisiva a experiência que Teilhard teve da violência e morte. Para muitos, a Primeira Guerra Mundial constituiu o fim de uma civilização. Uma literatura muito popular na época enfatizava a coragem e o patriotismo, mas as mentes mais lúcidas viam perfeitamente o caráter absurdo de uma guerra que ninguém realmente quis e que estava destruindo as melhores forças à espera de uma vitória improvável. No conflito Teilhardperdeu dois irmãos e testemunhou a morte de um amigo próximo, Jean Boussac, esperança da geologia francesa.

Frente a esses eventos, Teilhard foi posto diante de um dilema: ou se tratava de um absurdo que destruía qualquer mínima esperança para o futuro do mundo, ou, ao contrário, era uma crise que a humanidade deveria necessariamente atravessar para aceder a uma nova etapa de sua evolução. Mesmo sem ter ainda as palavras certas para expressá-la, Teilhard teve uma intuição fundamental, inclusive hoje em dia: a história da humanidade coloca os povos em contato cada vez mais próximo entre si e tudo isso dá origem a tensões crescentes e, consequentemente, crises e guerras. Mas, ao mesmo tempo, não falta esperança de que essas crises possam ser atravessadas, indo para a instauração de uma nova qualidade da relação entre os seres humanos. É necessário retornar para a questão da evolução, que é um conceito-chave no pensamento de Teilhard.

Para compreender a maneira pela qual ele a concebeu, é preciso buscar a pesquisa de consistance como é descrita na autobiografia O coração da matéria. Inicialmente pensou encontrá-la na dureza da pedra e do metal, os antípodas da fragilidade da matéria viva. À primeira vista, de fato, uma substância mineral dura no tempo mais do que uma orgânica. Mas na realidade, é uma duração relativa, porque a pedra se quebra e o metal enferruja. A matéria viva, ao contrário, traz consigo a promessa de um desenvolvimento para um estado mais realizado. Porém é possível levantar uma objeção: a vida caminha inexoravelmente para a morte. Qual é o valor de um desenvolvimento que tem, no final, o seu êxito conclusivo na rigidez de um cadáver? A resposta passa pelo considerar a evolução em uma escala que vai além do indivíduo. Este pode desaparecer, mas a vida que o animou é transmitida a outros e contribui para constituir uma comunidade vivente através da qual a vida se realiza. A esse propósito, percebe-se muito bem a influência da fé cristã: a morte e a ressurreição de Jesus estão na origem da Igreja, comunidade viva dos crentes que anuncia o Evangelho da salvação.

Essas reflexões não valem apenas para o mundo orgânico, mas também para o universo como um todo. Teilhard conhecia as novas teorias cosmológicas segundo as quais o universo não é estático. Embora a evolução do universo não seja facilmente comparável à do mundo vivo, isso não exclui que a matéria se transforme, nos vários níveis de sua evolução: as estrelas nascem e morrem; a expansão continua. Teilhard compreende que o cosmos não é uma natureza estática, com princípios fixos para sempre, mas um sistema dinâmico. A física, nascida em nome da imobilidade, torna-se história: existe uma "história da natureza".

Para o jesuíta o grande evento intelectual do nosso tempo é a descoberta do tempo: "A figura do Mundo atual se revela aos nossos olhares como o fim momentâneo de uma gênese (poder-se-ia dizer uma embriogênese) imensa". "Desde suas formulações mais distantes, a Matéria se revela a nós em estado de gênese". Mais uma vez, não podemos ignorar uma ressonância teológica.

A criação do mundo não é uma ação pontual, realizada uma vez para sempre em um passado distante, que teria produzido um mundo inicialmente harmonioso, para o qual a humanidade tem procurado retornar, ao longo da história, após esse estado inicial ter desaparecido por culpa do homem (o pecado original). Teilhard não compartilha essa visão e percebe o inteiro universo no estado de gênese, ou seja, de criação contínua. O mal não está ausente, mas é a tentação permanente de voltar para trás, de desconstruir o que foi construído.

Nessa grandiosa visão evolutiva, o ser humano desempenha um papel específico. Para a ciência é o resultado da evolução, uma transição quase contínua das formas pré-humanas àquelas humanas, uma conclusão a que Teilhard adere sem dificuldade, com base nas descobertas paleontológicas. Não são conhecidas e documentadas todas as etapas, mas os elementos, à medida que são descobertos, corroboram essa visão.

Falar de "resultado" não significa, porém, que o destino da humanidade já esteja escrito na história evolutiva, ou que o agir do ser humano seja determinado pela herança biológica. Pelo contrário, o emergir da consciência humana dá sentido a esse processo de longo prazo. Segundo Teilhard a evolução não é uma aventura guiada pelo mero acaso; é verdade que ela determina formas muito diversas, "imprevisíveis", mas no seu interior é possível encontrar uma lógica.

Existiriam, portanto, "direções" evolutivas, uma "lei" da evolução. De fato, em uma perspectiva de longo prazo, pode-se observar, a partir dos níveis mais elementares da matéria, uma crescente complexidade que é acompanhada, especialmente no mundo vivente, por um crescimento de autonomia, ou seja, de consciência.

Para Teilhard, existe uma "lei de complexidade e consciência", que se anuncia nesses termos: "Perfeição espiritual (ou "centralidade" consciente) e síntese material (ou complexidade) nada mais são que os dois aspectos ou as duas partes correlatas de um mesmo fenômeno”.

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