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A ambiguidade de Safatle e a do Brasil




O artigo mais recente do filósofo pode sugerir tanto derrotismo quanto apelo à rebeldia e mobilização. É, nesse sentido, um espelho do cenário brasileiro
Do blog Outras Palavras, sexta-feira, 01 de setembro, 2017
Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

“Não haverá 2018”, escreveu no final da semana passada, num artigo na Folha de S. Paulo, o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle. A sentença repercutiu intensamente, em meio a uma atmosfera política já marcada pelo pessimismo. Mas a leitura cuidadosa do texto mostra que ele permite duas interpretações muito distintas – e até mesmo contraditórias – entre si.

A primeira interpretação é a mais óbvia e – é pena – a que tem sido mais frequentemente adotada. Ela conduz ao derrotismo, à desmobilização. Sugere que sofreremos uma enorme derrota política em breve e não há o que fazer diante dela – “não haverá 2018”. Os golpistas não quebrariam a legalidade, nem adotariam sua vasta agenda de retrocessos, argumenta Safatle, para entregar o poder de mão beijada. O golpe e seus horrores se prolongarão. A luta tornou-se vã.

O problema desta interpretação é que, além de conformista, ela é caolha. Enxerga um lado importante do cenário: o programa de ataques aos direitos sociais une, no momento, um amplo arco de forças conservadoras. Mas fecha os olhos para outro aspecto, igualmente decisivo. Estes mesmos setores estão profundamente divididos quanto às alternativas de poder e eleitorais.


Basta ler as próprias publicações conservadoras. A capa de Época desta semana destaca os conflitos, reais e agudos, no interior do PSDB – o partido mais identificado, do ponto de vista programático, com as contrarreformas. Tasso Jereissati, Aécio Neves e Geraldo Alckmin, os três tucanos mais emplumados, já não se bicam – ou melhor, não param de se bicar.

Observe também Veja. A revista que se tornou símbolo do golpe e dos retrocessos dedica-se, na edição mais recente, a desancar o ministro Gilmar Mendes, do STF, certamente o político – sim, o político – que melhor representava, ainda há pouco, a tentativa de impor o domínio conservador.

Os choque multiplicam-se entre Gilmar Mendes e o procurador-geral Rodrigo Janot. Entre Janot e a Globo, de um lado, e Temer e sua camarilha, de outro. Entre Rodrigo Maia, presidente da Câmara, que sonha com a volta das doações empresariais aos partidos e o STF. Entre Meirelles – visto por alguns como candidato ideal dos conservadores à Presidência – e o PMDB. Entre os próprios partidos que queriam aprovar uma contrarreforma política, e agora parecem cada vez mais incapazes de conseguir aprová-la a tempo.

Como estes setores, em disputa acirrada entre si mesmos e cada vez mais desgastados junto à opinião pública, cancelariam 2018? O único caminho que parece minimamente viável é uma emenda parlamentarista. Ainda assim, seria uma tentativa de altíssimo risco, já rechaçada duas vezes em plebiscito, capaz de despertar reação popular – inclusive porque o Parlamento, que assumiria o poder, é visto, com boa dose de razão, como uma quadrilha. Por tudo isso, é preciso buscar, no texto de Safatle, um outro sentido, que não o do derrotismo, o de entregar os pontos antes do jogo terminar.

Este segundo sentido é, ao contrário, irreverente às instituições, rebelde e mobilizador. O artigo sugere, lido a partir de outro ponto de vista, que não se pode adiar as lutas sociais para 2018, nem confiar unicamente nas eleições. Traz, portanto, um alerta. Há um gravíssimo descolamento entre as campanhas eleitorais que estão na rua – inclusive as que se apresentam à esquerda, como as de Lula e Ciro e, desde essa semana, Marina Silva – e os fatos políticos devastadores que estão se sucedendo.

Tanto Lula quanto Ciro criticam o golpe, é verdade. Mas ambos evitam, ao menos até o momento, assumir compromissos concretos com a revogação da agenda de retrocessos.

Faria toda diferença. Imagine que estes candidatos propusessem, por exemplo, submeter a referendo popular as principais medidas adotadas pelo governo Temer e por um Congresso Nacional cada vez mais desprezado pela maioria. Imagine abrir, desde já, um debate nacional sobre o congelamento de gastos sociais, a entrega do Pré-Sal, os atos que atingem indígenas e quilombolas, as contrarreformas trabalhista e da Previdência, a redução do salário mínimo, a permissão da terceirização selvagem.

São medidas que atingem dezenas de milhões de brasileiros. Seu debate tem sido bloqueado pelos meios de comunicação, que se aliam à agenda do governo mas temem abrir discussão pública sobre ela. Os candidatos, porém, teriam condições de desafiar este silêncio, criar fatos políticos, transformar em ação a revolta surda dos que sabem que seus direitos estão sendo atacados.

Não o fazem – e isso é úm sintoma de que a política institucional brasileira está cada vez mais esvaziada, mais distante da articulação de projetos para o país, mais reduzida a uma disputa rude, polarizada apenas na aparência, porém rasa, incapaz de expressar projetos distintos, visões realmente distintas sobre os enormes problemas nacionais e as saídas pare resolvê-los.

Se os partidos e os candidatos omitem, se com isso estimulam a letargia, o conformismo, a adaptação da sociedade aos retrocessos e ao cinismo, talvez caiba à sociedade fazê-lo. Há muito existe no Brasil, em caráter embrionário, uma nova cultura política – a da autonomia. Ela tem, no entanto, limitado-se a criticar os partidos e a vida institucional, sem assumir sua própria responsabilidade.

Talvez seja a hora de dar um novo passo, e nesse sentido o grito de alerta de Safatle – “não haverá 2018” – pode converter-se em algo como “não espere 2018. faça-o acontecer”. É um chamado cada vez mais necessário

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