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“Veneno puro!” Iná Camargo Costa escreve sobre “Ensaios sobre Brecht”, de Walter Benjamin

"É livro para panfletar. Acima de tudo." Iná Camargo Costa escreve sobre o livro de ensaios de Walter Benjamin sobre Brecht, até então inédito no Brasil.


DO Blog da Boitempo, 25 de Agosto, 2017
Por Iná Camargo Costa.


A Boitempo acaba de lançar Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin. Inédita no Brasil, a obra reúne todos os escritos de Benjamin sobre Brecht, dos ensaios às passagens em seus diários, todos traduzidos diretamente do original em alemão. Além do posfácio de Rolf Tiedman, edição alemã de 1966, a edição vem acrescida ainda de textos complementares escritos por Sérgio de Carvalho eJosé Antonio Pasta, além de uma cronologia casada de Benjamin e Brecht, e bibliografia. A publicação integra a coleção “Marxismo e literatura”, coordenada por Michael Löwy na Boitempo. Leia, abaixo, o texto de orelha escrito por Iná Camargo Costa, pedrada de melhor qualidade.

Ao final do post, saiba mais sobre o debate de lançamento que reunirá José Antonio Pasta, Sérgio de Carvalho e Iná Camargo Costa, marcado para a segunda-feira que vem, dia 28/8, em São Paulo!

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Os adeptos das teses social-democratas a respeito do desaparecimento do proletariado, da luta de classes e das próprias classes devem ficar longe deste livro [Ensaios sobre Brecht], pois ele é veneno puro. Ou melhor: a estes basta ler o posfácio frankfurtiano da edição alemã de 1966, que parte destas convicções e, por isto, adota sem mais o critério de que Brecht e Benjamin não passam de lembranças das possibilidades perdidas na história. Aos que aderem a essa pauta, que também reafirma a autonomia da arte e aposta na “penetração contemplativa das obras”, há a recomendação terapêutica de se envolver com Beckett.

Como se estivesse contaminado pelo exemplo do amigo (opinião de Adorno), Benjamin se esforça ao máximo para ser didático nos ensaios reunidos no livro, pois se atribuiu a tarefa de conceituar, ou traduzir em teoria, a experiência do teatro épico de Brecht. Esta não se limita ao teatro, como fica amplamente demonstrado no ensaio “O autor como produtor”, onde o filósofo diz com todas as palavras que o intelectual (ou trabalhador cerebral) precisa descobrir qual é seu lugar na luta de classes.

Alguns dos conceitos mais relevantes para se pensar a experiência do teatro épico são expostos com muito cuidado, como o gesto citável e o avanço aos trancos de texto e apresentação. Sobretudo com a consciência de que estes ensaios são documentos que transmitem o conhecimento de um trabalho que, por causa do nazismo, correu o risco de se separar das futuras gerações como que atravessado por séculos.

Um dos maiores incômodos produzidos pelo dramaturgo em seu tempo foi o questionamento dos privilégios da crítica. Benjamin não faz por menos: explica didaticamente que ela deve mesmo ser encarada como o partido da ordem e precisa ser enfrentada. E o destinatário da experiência como um todo (inclusive deste livro) é o proletariado, pensado sempre como coletivo capaz de se esclarecer sobre si mesmo. Para este destinatário, interessam temas como revolução, contrarrevolução, estratégias e táticas de luta, inclusive a clandestina; põe-se também a necessidade de recuos diante de derrotas (como a imposta pelo nazismo) que obrigam até a providências extremas, como o exílio e o recomeço.

Quanto à atualidade de Brecht e destes estudos sobre sua obra, vale ainda a pena lembrar que tanto a Ópera como o Romance de três vinténs – entre suas criações mais conhecidas – revelam como as relações produtivas entre criminalidade e ordem burguesa garantem o bom andamento dos negócios. Segundo Benjamin, trata-se de sátira inspirada no maior dos mestres da sátira no século XIX, que foi Marx.

Além deste mestre, o trabalho de Brecht teve como apoios teóricos o estudo criterioso do leninismo, a lógica não aristotélica (leia-se Hegel), a teoria comportamental, a nova enciclopédia e a crítica das ideias. Com essas referências, Benjamin assegura que seu amigo Brecht é um crítico do stalinismo que, antes de mais nada, rejeita a política do socialismo num só país. Por isso, não podia compactuar com as diretrizes de Lukács para a literatura e as artes.

Já o arraial brechtiano no Brasil vai encontrar aqui as maiores preciosidades do Benjamin ensaísta, pois seu assunto é a experiência com o agitprop, com peças, poemas e narrativas de Brecht e com o próprio Brecht. É livro para panfletar. Acima de tudo, Brecht considerava que a luta contra o fascismo precisava envolver até mesmo as crianças. Era o futuro da humanidade que estava pendente.

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Debate: Walter Benjamin, Crítico de Brecht
Com Iná Camargo Costa, Sérgio de Carvalho e José Antonio Pasta

28/08 | segunda-feira | 19h | Goethe-Institut São Paulo – auditório
Rua Lisboa, 974 – Pinheirosr | São Paulo – SP | (11) 3296-7000
Organizadores: Boitempo, CartaCapital e Goethe-Institut

Haverá sessão de autógrafos com os debatedores após o evento!

Gratuito e aberto ao público em geral. (Sujeito a lotação).

Confira a página oficial do evento e convide seus amigos clicando aqui.

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Iná Camargo Costa é professora aposentada da FFLCH da USP, é autora de vários ensaios e livros sobre o teatro brasileiro e reconhecida pesquisadora sobre a obra de Bertolt Brecht. De forma intensa e criativa, militou em vários grupos de teatro de São Paulo; é assessora da Coordenação de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). É uma das autoras da Enciclopédia Latinoamericana.

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