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Um caminho para o ódio: ciberespaço e o crescimento da extrema direita

Crédito da Imagem: Bob Mical
Aquele jovem que vive na fenda entre os dois mundos, defendendo no mundo virtual uma coisa totalmente diferente do que faz no mundo real, acaba por aderir aos velhos que sempre defenderam tal discurso. Com o poder da retórica que, por sua vez, sempre prestou para seduzir pessoas, os carcomidos da política, percebendo que seu discurso tem demanda, aliciam a juventude iludida pela liberdade que as redes sociais e os jogos de mundo aberto proporcionam


Por: Raphael Silva Fagundes
Do Le Monde Diplomatique, 16 de agosto de 2017



Fico extremamente triste ao saber que alguns alunos do ginásio e do Ensino Médio estão fazendo reverência a Jair Bolsonaro, pregando uma moral tradicional, enquanto nos aplicativos trocam vídeos pornográficos e nos finais de semana enchem a cara em boates onde as entradas só são permitidas para maiores. Pregam o extermínio de bandidos, mas compram aparelhos roubados e passeiam em motos “raspadas” sem nenhuma documentação. Há um prazer em difundir um discurso radical, de ódio, nas redes sociais que não corresponde à vida prática. Cultivamos uma geração da hipocrisia. Daí surge a questão: é o crescimento da extrema direita que está gerando o discurso de ódio ou o discurso de ódio está gerando a extrema direita?

A progressão da violência

O ser humano tem em si a marca da violência. Quem nunca assistiu um filme sobre as lutas entre gladiadores, sacrifícios celtas ou sobre as guerras medievais? Em Vigiar e punir, Michel Foucault inicia o seu texto descrevendo a punição do condenado Damiens, arrastado em praça pública e finalmente esquartejado. Ao longo dos séculos, não ficamos menos violentos, mudamos apenas os álibis para justificar a agressão.[1]

Por seu turno, o historiador Eric Hobsbawm chama de “Era da catástrofe” o período que se estende entre as duas guerras mundiais, afirmando que antes delas, “os mortos contavam-se às dezenas, não às centenas, e jamais aos milhões”. E conclui: “o número de baixas civis na guerra tem sido muito maior que as militares em todos os países beligerantes”.[2]

Ficamos mais violentos, é um fato. As lições do século XX não extirparam o discurso de ódio entre nós. Deixou-o em algum lugar, escondido. Afinal, quem contestaria a fala de Bertold Brecht de que “a cadela do fascismo está sempre no cio”? No entanto, hoje há um agravante. O ciberespaço, expressivamente, abriu um novo caminho para a circularidade desse tipo de discurso.

O ódio encontrou a rede

De acordo com o filósofo Slavoj Zizek, “o grande Outro” (termo de origem lacaniana), “no sentido de um conjunto substancial e compartilhado de costumes e valores”, desintegrou-se em “mundos” (ou estilos de vida) “particulares cuja coordenação é regulada por regras puramente formais”. Isso não quer dizer que o grande Outro, essa argamassa que une a estrutura social, deixou de existir. Ele “está mais presente do que nunca” no ciberespaço. Esse espaço permite que o ideal narcisista pós-moderno se realize, pois, por exemplo, nas redes sociais o indivíduo pode defender seu estilo de vida, sua personalidade acima de tudo, em um local “aparentemente neutro”. Um lugar de encontro relativamente igual para todos. Nele “as regras garantem que o espaço ‘privado’ das idiossincrasias pessoais, imperfeições, fantasias violentas etc. não transborde numa dominação direta dos outros”.[3]

Sendo assim, em muitos casos, o ciberespaço é um lugar permitido no qual o sujeito pode expressar a sua individualidade. É evidente que esse espaço sofre as interferências do mundo real. Para Pierre Levy, o mundo virtual produz uma mensagem que “é um espaço de interação por proximidade dentro do qual o explorador pode controlar diretamente um representante de si”.[4] Dessa forma, podemos ser o que jamais seríamos no mundo real e nos esconder atrás de uma máscara composta de combinações binárias e imagens montadas.

Assim como o jogador de GTA ou em qualquer jogo de mundo aberto, a suposta liberdade apresentada pelo mundo virtual permite descarregar um desejo contido gerado pela pressão da realidade ao redor do gamer. Naquele espaço podemos nos realizar. Nas redes sociais, outro espaço virtual de realização, apesar de sua foto do perfil, você não se sente tão intimidado como no mundo real. É mais fácil comprar uma briga, trocar ofensas, ser politicamente incorreto, ou até mesmo discordar por discordar para criar polêmicas inúteis.

O efeito bumerangue

O problema é que está havendo um efeito bumerangue. As pessoas estão lendo, assistindo e compartilhando cada vez mais o que é inconveniente no mundo real. Assim como a realidade virtual sofre influência da realidade física, o oposto também ocorre. É incontestável uma interdependência entre esses mundos.[5] A juventude, os que mais acessam esse tipo de mecanismo, forma a sua opinião a partir do que curte na rede. Afoga-se em boatos. Por mais que ensinemos História nas escolas, o impacto que a sala de aula tem sobre a mentalidade de um jovem em formação sexual, biológica e espiritual é ínfimo em relação ao turbilhão de posts que acessa ao rolar sua timeline no Facebook.

A extrema direita se aproveita da popularidade do discurso de ódio que historicamente se assemelha ao dela e volta, desta forma, a se popularizar. As contradições de um mundo em crise geraram uma série de reflexões infundadas que jamais seriam publicadas em jornais renomados. Dificilmente um New York Times defenderia a lógica de “bandido bom é bandido morto”, ou a Folha de S.Paulo defenderia um discurso homofóbico, xenofóbico e sexista abertamente. Mas nas redes sociais esses discursos circulam. Comunidades são edificadas para defender a volta da mulher à cozinha e do Exército ao comando do país.

Aquele jovem que vive na fenda entre os dois mundos, defendendo no mundo virtual uma coisa totalmente diferente do que faz no mundo real, acaba por aderir aos velhos que sempre defenderam tal discurso. Com o poder da retórica que, por sua vez, sempre prestou para seduzir pessoas, os carcomidos da política, percebendo que seu discurso tem demanda, aliciam a juventude iludida pela liberdade que as redes sociais e os jogos de mundo aberto proporcionam.

Para Aristóteles, o orador que pretende despertar indignação no seu ouvinte deve formatar a ideia de que “se um homem de bem não obtém o que se harmoniza com ele, existe nisto motivo para indignação”.[6] Assim formata-se a ideia do “cidadão de bem”, aquele que está em prol da família, cristão e consumidor. No entanto, esse cidadão sofre com a violência, vê os homossexuais ganharem espaço, a mulher se libertando etc. O filósofo grego nos ensinou que “em geral os que se reputam dignos das vantagens, que, em seu entender, os outros não merecem, são levados a se indignarem contra tais pessoas”.[7] Daí surge, nos Estados Unidos, uma manifestação composta por jovens segurando tochas, no maior estilo Ku Klux Klan, contra gays, negros, imigrantes e judeus.

Precisamos de uma nova democracia

Os discursos que circulavam nas redes, impulsionados pelas contradições do mundo real, mas que neste não podiam se manifestar, estão saindo do mundo virtual e ganhando espaço concreto. O modelo democrático, que não ofereceu soluções para os problemas desencadeados pelas crises de 2008, abriu caminho para um outro modelo por ele severamente criticado: o autoritarismo. Aliás, a própria democracia é ateórica, vive mais da crítica ao modelo hobbesiano que de si mesma. O próprio Churchill dizia que a democracia é o pior modelo de todos os sistemas, com a única ressalva de que não há outro melhor.[8]

Mas não estamos à beira do abismo. Os movimentos de esquerda também cresceram e é possível ver na Espanha o trabalho do Podemos que apresenta um modelo de democracia muito mais participativa que a tradicional.[9] Há alternativa para o poder popular. O mundo virtual pode ser útil à democracia, inclusive para aumentar o contato entre o representante e o representado através do diálogo. Sem seguidores, apenas com amizades. É preciso ouvir e não impor, para que possamos ter acesso a um mundo físico mais acolhedor e compreensivo.


*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.


[1] GAY, Peter. O cultivo do ódio: a experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud. Trad: Sérgio Flaskman. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

[2] HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX 1914-1991. 2 ed. São Paulo: Cia das Letras, 1997. p.23.

[3] ZIZEK, Slavoj. Em defesa das causas perdidas. Trad: Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2011. p. 53

[4] LEVY, Pierre. Cibercultura. Trad: Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 74.

[5] FAGUNDES, Raphael S. Watch Dogs 2 e a retórica dos games. Le Monde Diplomatique Brasil. Ano 10, n.115, fev. 2017.

[6] ARISTÓTELES, Arte retórica e arte poética. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d. p.146.

[7] Id. p. 147.

[8] ZIZEK, Slavoj. op. cit. p.120.



[9] PERRENOT, Pauline. e SLONSKA-MALVAU, Vladimir. Nas cidades rebeldes da Espanha. Le monde diplomatique Brasil, ano. 10, n. 115, fev. 2017.

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