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Talvez haja algo limitador em tratar uma vida plena como uma vida feliz

Para os gregos, felicidade não era uma palavra que se conjugava no particular. Aristóteles, por exemplo, lembrava que a felicidade (eudaimonia) era a atividade de acordo com a virtude.

Da Folha de São Paulo, 18 de Agosto, 2017
Por Valdimir Safatle

Marcelo Cipis/Editoria de Arte

Para os gregos, felicidade não era uma palavra que se conjugava no particular. Aristóteles, por exemplo, lembrava que a felicidade (eudaimonia) era a atividade de acordo com a virtude.

Haveria uma excelência a alcançar por meio do exercício de virtudes, atividade esta que nos permitiria evitar os extremos e alcançar a justa medida, o que aparece como a condição para realizarmos o que nos seria melhor.

Tais virtudes não eram, no entanto, meras determinações normativas dos comportamentos individuais. As virtudes dos indivíduos eram as mesmas virtudes da pólis, ou seja, eram as mesmas disposições de conduta e julgamento necessários para a conservação da pólis.

Em grego, não é possível dizer: vícios privados, virtudes públicas. Daí porque a cisão entre os interesses dos indivíduos e os interesses da pólis só poderia ser representada como catástrofe, como seria o caso em uma tragédia como "Antígona".

Com o advento do pensamento liberal, a partir do século 17, o critério da felicidade pareceria ganhar autonomia em relação às determinações normativas da comunidade.

Pensado como portador de sistemas particulares de interesses, como agente maximizador de prazer e de afastamento do desprazer, o indivíduo liberal é, inicialmente, alguém que calcula os resultados de suas ações a partir dos benefícios oferecidos.

Ele afirmaria sua autonomia ao conservar para si o critério de sua própria felicidade. Mesmo um filósofo não liberal como Jean-Jacques Rousseau justificará sua noção de contrato social apelando à lógica calculista dos indivíduos concernidos. Ele não deixará de dizer: "Pense nos benefícios individuais que a segurança do contrato trará a cada um".

Já a própria noção de "interesse" é elucidativa nesse contexto. "Interesse" é o nome que daremos, a partir de então, às paixões submetidas ao cálculo, enunciadas sob a forma de determinações conscientes que produzem deliberações conscientes, representações que poderiam ser assumidas como projetos que claramente dou para mim.

Há uma aparência de fortalecimento dos foros individuais de decisão aqui. O pensamento liberal parece fornecer a possibilidade de uma multiplicidade possível de caminhos da felicidade, obrigando a comunidade a ser pretensamente neutra em relação a valores de autorrealização, a ser pretensamente mais democrática em sua pluralidade de demandas de satisfação. Ela não dirá o que é a felicidade de cada um, mas, em larga medida, permitirá que cada um aja como agente maximizador de seus próprios interesses.

No entanto, há de se perceber como a determinação social, expulsa pela porta da frente, acaba por retornar pela porta dos fundos.

Pois essa pluralidade exige a internalização de uma disciplina que permitirá uma verdadeira conformação geral dos indivíduos pretensamente singulares.

Essa disciplina não está no nível semântico dos objetos e fins a serem enunciados, mas no nível sintático dos modos de determinação. Na procura pela felicidade, todos os indivíduos terão o mesmo modo de determinação de suas ações.

Eles aprenderão a calcular seus prazeres com os mesmos números, a fazerem as mesmas operações, a afirmar seus interesses com a mesma gramática. Todos eles serão contadores de sua própria satisfação.

Quando eles se esquecerem de tal contabilidade, não faltarão discursos sociais que lembrarão dos riscos a sua própria autoconservação.

Nesse sentido, a felicidade aparece como o que ela realmente é. Não exatamente um horizonte de autorrealização que permitiria uma vida plena, mas uma disciplina internalizada que transfere aos indivíduos a mesma lógica de rendimento que operará na vida social.

Ou seja, a felicidade tem uma dimensão irredutível de lógica social de controle e talvez haja algo de limitador em dizer que uma vida plena é uma vida exatamente feliz.

Talvez seja pensando em questões semelhantes que Theodor Adorno, ao ironizar a maneira com que a psicanalista Karen Horney descrevia uma relação afetiva "sadia" por meio de julgamentos de simetria e correspondência próprios de quem "recebe o quanto se dá", dizia algo como: "Ao que parece, Horney confundiu relações afetivas com relações mercantis".

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