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Situacionismo, 60 anos

DO IHU, 19 Agosto 2017
Por Erick Quintas Corrêa,


"Nas Teses sobre a Internacional Situacionista e seu tempo (1972), publicadas após o refluxo gerado pela derrota da greve geral com ocupações de fábricas e universidades de maio-junho de 1968, Debord e Sanguinetti (os últimos remanescentes da organização), realizam um balanço histórico da experiência situacionista, no momento de sua autodissolução", escreve Erick Quintas Corrêa, autor de uma dissertação de mestrado em Ciências Sociais (UNESP/FCLAr, com apoio do CNPq) intitulada Guy Debord: Crítica e crise da sociedade do espetáculo (2017), em artigo publicado por Outras Palavras, 28-07-2017.
Eis o artigo.

Pistas para compreender o movimento anticapitalista fundado entre outros por Guy Debord, influente em 1968 e que ousou propor a "reaparição do movimento revolucionário moderno".



Da esquerda para a direita, os fundadores da IS
em Cosio di Arroscia (Itália): Giuseppe Pinot Gallizio,
Piero Simondo, Elena Verrone, Michele Bernstein,
Guy Debord, Asger Jorn e Walter Olmo.
(Foto: Outras Palavras)

No dia 27 de julho de 1957, há sessenta anos, a Internacional Situacionista (IS) era fundada na província italiana de Cosio di Arroscia, por alguns intelectuais e artistas de diferentes grupos de vanguarda da Europa.

Em seu Prefácio de 1979 à quarta edição italiana de A sociedade do espetáculo, Guy Debord (1931-94), o mais influente membro da organização, realiza uma síntese de seu próprio percurso, indissociável do desenvolvimento que o levaria do letrismo de Isidore Isou, no início dos anos 1950, à fundação da Internacional Letrista (1952-57) e, posteriormente, da Internacional Situacionista (IS – 1957-72)

“Em 1952, quatro ou cinco pessoas pouco recomendáveis de Paris decidiram investigar a superação da arte. Por feliz consequência da marcha ousada nessa direção, as velhas linhas de defesa que haviam barrado as ofensivas anteriores estavam descontroladas e corrompidas. Surgiu assim a ocasião de se tentar mais uma. Essa superação da arte é a ‘marcha para noroeste’ da geografia da verdadeira vida, que tantas vezes fora buscada durante mais de um século, sobretudo a partir da autodestruição da poesia moderna. As tentativas anteriores, em que tantos exploradores se perderam, nunca tinham chegado diretamente a essa perspectiva. Talvez porque ainda lhes faltasse devastar alguma coisa da velha província artística, e sobretudo porque a bandeira das revoluções parecia manejada anteriormente por outras mãos, mais experientes. Mas, além disso, nunca essa causa havia sofrido derrota tão completa nem havia deixado o campo de batalha tão vazio, como no momento em que viemos ocupá-lo” (1997, p. 152).


Os doze números da revista “Internationale Situationniste” publicada entre 1958 e 1969 pela organização homônima fundada em 1957 e dissolvida em 1972. (Foto: Outras Palavras)

O termo “situacionista” aparece pela primeira vez em novembro de 1956, em um ensaio do então Guy-Ernest Debord (aos vinte e cinco anos) chamado “Teoria da deriva”, publicado no nono número da revista pós-surrealista belga Les Lèvres Nuese, mais tarde, republicado no segundo número da revista da IS: “Entre os diversos procedimentos situacionistas, a deriva se define como uma técnica de passagem veloz através de ambiências variadas” ([1958] 1997, p. 51). Segundo advertem os próprios situacionistas em 1964, o termo “exprime exatamente o contrário daquilo a que, em português, se chama […] um partidário da situação existente” (1997, p. 388).

É curioso notar como o termo “situacionista” também ganharia em língua portuguesa outro sentido, agora oriundo do universo artístico de vanguarda, na obra do brasileiro Hélio Oiticica:

“Nessa fase da arte na situação, de arte antiarte, de ‘arte pós-moderna’ […] os valores propriamente plásticos tendem a ser absorvidos na plasticidade das estruturas perceptivas e situacionistas” (PEDROSA, [1965] 1986, p. 9. Grifos nossos). Entretanto, para os situacionistas, os happenings e performances artísticas apresentavam-se senão como imagem invertida da construção de situações perseguida pela IS: “Falamos de recuperação do jogo livre, quando ele é isolado no único terreno da dissolução artística vivida” ([1963] 1997, p. 316).

Nas Teses sobre a Internacional Situacionista e seu tempo (1972), publicadas após o refluxo gerado pela derrota da greve geral com ocupações de fábricas e universidades de maio-junho de 1968, Debord e Sanguinetti (os últimos remanescentes da organização), realizam um balanço histórico da experiência situacionista, no momento de sua autodissolução: “o que chamam de ‘ideias situacionistas’ nada mais são do que as primeiras ideias do período de reaparição do movimento revolucionário moderno. O que é radicalmente novo nelas corresponde precisamente às novas características da sociedade de classes, ao desenvolvimento real de suas conquistas passageiras, de suas contradições, de sua opressão […] é evidentemente o pensamento revolucionário nascido nos dois últimos séculos, o pensamento da história, restaurado nas atuais condições como em sua casa; não ‘revisado’ a partir de suas próprias posições antigas legadas como um problema aos ideólogos, mas transformada pela história atual. A IS teve sucesso simplesmente na medida em que exprimiu ‘o movimento real que suprime as condições existentes’ e que soube exprimí-lo” (2006, p. 1088-9).

Referências

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo; Prefácio à 4ª edição italiana de A sociedade do espetáculo; Comentários sobre A sociedade do espetáculo [1967, 1979, 1988]. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

______. Œuvres. Paris: Gallimard, 2006.

PEDROSA, Mário. “Arte ambiental, arte pós-moderna, Hélio Oiticica”. In: OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

SITUATIONNISTE, International. Internationale Situationniste (1958-1969). Texte intégral des 12 numéros de la révue. Paris: Fayard, 1997.

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