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Roberto Schwarz: As contradições de Maurício Segall

Em depoimento de homenagem, Roberto Schwarz escreve sobre as contradições armazenadas na figura ímpar do recém-falecido Maurício Segall.Do blog da Boitempo, 02 de agosto, 2017

Por Roberto Schwarz.

Vou ser breve. Para entender a pessoa de Maurício Segall é preciso, na minha opinião, considerá-lo como um pacote explosivo de tensões. Por um lado, descendente de uma família rica e filho de Lasar Segall, um dos grandes pintores de nosso tempo. Por outro, comunista convicto e radical, numa acepção nobre, que vai além da filiação partidária e que a evolução histórica do comunismo deixou sem base.



Essa bomba de contradições é tornada mais potente por um temperamento vulcânico, à moda russa, e pelo desejo exasperado de integridade e de coerência. Tudo isso misturado, mais a extraordinária energia física, fizeram dele um homem evidentemente de exceção. O seu aspecto grão-burguês aparecia na naturalidade com que mandava e na sobriedade “no nonsense” com que considerava as questões de interesse material. A verdade é que, entre o materialismo de proprietário e a clareza do administrador de esquerda, responsável pelo governo de uma instituição, havia mais coisas em comum do que costumamos admitir.

Por sua vez, a devoção ao acervo pictórico do pai, tratado como um patrimônio da humanidade, da cidade ou da nação, e não da família, não tinha nada de burguesa. A generosidade com que ele e o irmão financiaram o museu, ao qual doaram as suas coleções Segall, de grande valor, além de imóveis e dinheiro, pertence a um mundo surpreendente, sem mesquinharia, em que a arte conta mais do que a propriedade.

Quanto à vertente comunista, ela se manifestava na concepção mesma do museu. A orientação pró-moderna mas antimercantil, empenhada na deselitização da cultura, bem como a organização democrática, em que os funcionários têm voz e iniciativa, apontavam para além do capitalismo. Chegados aqui, não há como não mencionar que esses aspectos avançados da posição de Mauricio e do museu foram historicamente derrotados pelo curso geral do mundo, que tomou o rumo do aprofundamento da mercantilização, inclusive e notadamente da cultura.

Para dar uma ideia do teor de conflito nas posições de Maurício, vou contar uma anedota. Estávamos os dois passeando na praia, quando chegamos a um conjunto de pedras enormes, que o acaso havia equilibrado de maneira esplêndida. Cometi a imprudência de observar que o conjunto, embora sem assinatura de artista, competia com a escultura moderna. A resposta veio amarga e exaltada: o arranjo natural das pedras era superior a qualquer obra de arte, pois era acessível a todo mundo, sem o ranço elitista de museus e exposições e sem o esnobismo e a competitividade de todo trabalho artístico. Por um momento breve mas lancinante, aí estavam as injustiças da sociedade de classes, que não perdoam, anulando o trabalho de vida inteira do criador de um museu modelo de democracia. Frente à beleza das pedras e à inaceitável desigualdade social, que subitamente se traduziam em raiva da arte, a dedicação meticulosa e amorosa à obra do grande pintor Segall ficava mal parada. Tivemos que espichar o passeio para que Mauricio recuperasse a calma.

Para concluir meu depoimento, quero falar na solidariedade de Mauricio com os amigos perseguidos pela ditadura, solidariedade da qual eu mesmo me beneficiei para sair do Brasil. Enquanto não foi agarrado ele próprio pela repressão, Mauricio ajudou de muitas maneiras a luta contra a ditadura, às vezes com risco de vida. Com sua perícia no volante e energia de touro, ele perguntava pouco e estava sempre disponível para fazer a longa viagem de automóvel de São Paulo à fronteira do Uruguai, para ajudar alguém a fugir. Dezesseis horas de ida, três de descanso e mais dezesseis de volta – e a vida continuava.

* Texto publicado originalmente no dia 2 de agosto de 2017 na Folha de São Paulo, por ocasião da morte de Maurício Segall. Uma versão deste depoimento foi gravada na sexta-feira, dia 28/7, por ocasião das comemorações dos 50 anos do Museu Lasar Segall.

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Roberto Schwarz assina a orelha do livro Controvérsias e dissonâncias, de Maurício Segall, publicado pela Boitempo em 2001. Nas suas palavras, a obra é “Um retrato da vida generosa e movimentada de um ativista de esquerda, que tem o sentido da realidade em alto grau e por isso mesmo não se conformou.” E prossegue: “O acento no desacordo expressa o inconformismo do autor, e também uma certa confiança no valor educativo e transformador do conflito. São escritos de luta anticapitalista no campo da organização da cultura, da definição política da esquerda, do combate anti-racista e, aqui e ali, da discussão de obras e tendências artísticas.” Ao longo das 320 páginas do livro, Maurício Segall fala de museologia, política cultural e partidária, teatro, cinema e racismo. Protagonista de inúmeros episódios – como membro do PCB e depois do PT, diretor do Museu Lasar Segall e do Teatro São Pedro –, o autor revisita o passado recente e traça um mosaico original das últimas três décadas do século XX.




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Roberto Schwarz é crítico e membro do Comitê editorial da revista semestral da Boitempo, a Margem esquerda. Seu livro mais recente é Nós que amávamos tanto “O capital”: leituras de Marx no Brasil, escrito em conjunto com Emir Sader, José Arthur Giannoti e João Quartim de Moraes, sobre o legado dos “Seminários Marx” e a recepção do marxismo no Brasil. Pela Boitempo, também assina artigos nas coletâneas Moderno de nascença: figurações críticas do Brasil, organizada por Benjamin Abdalla Júnior e Salete de Almeida Cara, e As utopias de Michael Löwy: reflexões sobre um marxista insubordinado, organizado por Ivana Jinkings e João Alexandre Peschanski.

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