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Robert Whitaker: mais drogas psiquiátricas, mais transtornos mentais



Robert Whitaker: mais drogas psiquiátricas, mais transtornos mentais
Do GGN, 8 de Agosto, 2017
Por 
CEE-Fiocruz


O expressivo aumento do uso de psicofármacos (antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos), ao longo das últimas décadas, conduz a uma indagação: se essas drogas, supostamente eficazes, vêm sendo cada vez mais consumidas, por que aumentam os registros de transtornos mentais? A busca por uma resposta resultou no livro Anatomia de uma epidemia – Pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental (Editora Fiocruz), do jornalista americano Robert Whitaker, que tem prefácio dos pesquisadores Paulo Amarante e Fernando Freitas, do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Laps/Ensp/Fiocruz).

O livro, já traduzido em diversos países, examina o uso prolongado das drogas psiquiátricas, indicando as graves consequências ao cérebro daí decorrentes. “Se, no curto prazo, essas drogas suprimem os sintomas indesejados, no longo prazo o que o ocorre é diferente”, explica o autor, em comentário gravado para o blog do CEE-Fiocruz, após palestra que realizou por ocasião do lançamento da obra no Brasil, em 3 de julho de 2017, na Casa de Ciência e Cultura da UFRJ, no Rio de Janeiro.

Robert Whitaker questiona a abordagem medicalizante dos transtornos mentais e a forma como a Psiquiatria e a indústria farmacêutica, com o apoio dos formadores de opinião, incutiram na sociedade a ideia de que o desequilíbrio emocional se deve a transtornos bioquímicos que podem ser tratados com medicamentos, tal como o diabetes, a hipertensão ou problemas cardíacos. “Psiquiatras e jornalistas ganharam muito dinheiro para dar palestras e defender essa ideia. São pessoas nas quais o público acredita”, denuncia. “Se a causa dos transtornos mentais é o desequilíbrio químico, que pode ser resolvido com determinadas drogas, por que as pessoas não se sentem melhor quando usam esses medicamentos?”, indaga.

O evento de lançamento do livro teve a participação de cooperativas de usuários de serviços de saúde mental: coquetel por conta da Cooperativa da Praia Vermelha, que reúne usuários e ex-usuários de serviços e projetos como os do Instituto Municipal Phillipe Pinel, Instituto de Psiquiatria da UFRJ e Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Franco Basaglia; venda livros a cargo do grupo Bacanas Corações; apresentação musical da banda Harmonia Enlouquece, do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro; e registro em vídeo, para posterior documentário, pela TV Pinel.

Premiado por seus artigos sobre temas médicos, Whitaker foi vencedor, em 2010, do Investigative Reporters and Editors Book Award, pelo livro. “Nossas sociedades organizaram-se em torno de algo que não é verdadeiro”, aponta o jornalista. “Há prescrições de drogas psiquiátricas para crianças com menos de cinco anos”, aponta, destacando que em 1987, foram gastos nos Estados Unidos 800 milhões de dólares com psicofármacos, cifra que subiu para 40 bilhões, em 2007.

“Com a conivência da Psiquiatria, a indústria farmacêutica construiu a ideia de que na mente não há lugar para tristeza ou ansiedade, emoções que todos sabemos que são comuns nos seres humanos”, analisa. “No entanto, nos é dito não só que sofrer de ansiedade é uma doença, como que existe uma pílula mágica para resolver isso”. (Eliane Bardanachvili/CEE-Fiocruz)

Assista abaixo ao comentário de Robert Whitaker.

Leia artigo de Robert Whitaker, no site Mad in Brasil.

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