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Revolução: coisa do passado?


No centenário da Revolução Russa, Mouzar Benedito reúne as melhores frases e ditados sobre "revolução" em coluna especial da série "cultura inútil", feita por ocasião do dossiê "1917: o ano que abalou o mundo".



Do Blog da Boitempo, 11 de Agosto, 2017
Por Mouzar Benedito.


Algumas palavras e expressões relacionadas a revolução: mudança súbita ou violenta; mudança radical, completa; conflagração, viravolta, mudança de alto a baixo, mudança de fio a pavio, explosão, furacão, terremoto, insurreição, vendaval, sublevação…

A Revolução Russa faz cem anos! Muito se falará sobre ela. Muitas comemorações (e anticomemorações também) serão feitas. A própria Boitempo planeja eventos importantes. E resolvi antecipar um pouco as coisas, fazer umas poucas reflexões. Não sou especialista no assunto e sei que posso ser muito criticado.

Uma coisa que certamente será discutida é que vivemos um momento em que atitudes revolucionárias estão em baixa. A contrarrevolução é que parece em alta no momento, é moda em quase todo o mundo, incluindo o Brasil, um sentimento conservador e, pior reacionário. A gente se sente num beco sem saída. Mas aí, lembro uma frase de Bertolt Brecht: “As revoluções se produzem nos becos sem saída”.

E acredito que quanto mais opressora e mesquinha é a classe dominante, quando é peitada com uma revolução, maior será a violência. Basta lembrar a Revolução Francesa.

Voltando ao beco sem saída, ao contrário do que Marx previa, o socialismo não chegou primeiro aos países mais industrializados e adiantados da época, Inglaterra, França e Alemanha, onde haveria mais uma evolução do que uma revolução. Chegou primeiro à antiga Rússia, onde o povo vivia num beco sem saída sob os czares. E a segunda grande revolução comunista foi em outro lugar que se podia considerar um beco sem saída, a China.

Sobre isso, há muito que penso uma coisa: o socialismo real ficou carimbado como autoritário porque as duas grandes revoluções marxistas aconteceram em países tradicionalmente autoritários, para dizer o mínimo. A Rússia dos czares tinha séculos de violência, falta de liberdade, opressão. A China, então, tinha milênios. São sociedades com “tradição” de autoritarismo, qualquer governo nesses lugares teria um pouco dessas características. A Revolução Cubana, que poderia ser diferente, mais romântica, teve que se integrar ao bloco soviético, por causa do bloqueio sobre o país pequeno e sem meios de sobreviver sozinho. Então teve que assimilar um pouco do modelo soviético. Mesmo assim, teve um quê de diferença, talvez pelas características do povo, festivo, musical e alegre.

Bom… Dizem que não existe o “se” em História. Mas penso: “se” as grandes revoluções fossem na França e na Inglaterra, por exemplo, seria bem mais possível que o socialismo fosse mais “liberal” em termos de liberdades individuais. Quando falei algumas vezes sobre isso, muito jovem, me olhavam com desprezo: quem é esse moleque pra tirar essas conclusões? Ora! A Revolução Russa vivia ameaçada, tinha inimigos fora e dentro do país, não podia dar moleza, nem mesmo depois de consolidada. A chinesa também. Uma frase de Mao Tsé-tung nos remete a isso: “Revolução não é piquenique, não é escrever um ensaio, nem pintar um quadro, nem fazer um bordado. É um ato de violência pelo qual uma classe derruba outra”.

Mas um dia, conversando com Paulo Schilling, um intelectual reconhecido e respeitado, ele me falou algo parecido com o que eu pensava. Mas, enfim, não existe o “se”.

Agora, mais uma coisa sobre os tempos sobre o “socialismo real” soviético e o fim dele: quem tinha críticas de esquerda ao regime esperava (ou tinha certeza) de que ele iria mudar, sim, evoluir para um socialismo mais libertário e igualitário. Porém, aconteceu o contrário: ele se esfacelou. E foi um azar para o resto do mundo. De lá para cá, os capitalistas passaram a achar que não haverá mais revoluções, que o capitalismo é o fim da história, e que não precisam mais ter medo de serem fuzilados. E começaram a retirar todos os direitos conquistados pelos trabalhadores. Os grandes capitalistas, agora sem medo do paredão, querem se apoderar de tudo, não deixar nem migalhas para os trabalhadores. E nós vamos chegando ao beco cada vez mais sem saída. E é nele que as coisas acontecem, não é? Lembrem-se de Brecht.

Bem… Quero, especialmente, publicar frases não específicas sobre a revolução centenária dos soviéticos, mas sobre o “verbete” revolução. Não seria difícil para os leitores encontrar essas frases, a maioria delas está na internet. Claro que, sendo uma seleção feita por mim, muitas frases que os leitores podem lembrar não estão aqui. Parte delas porque eu mesmo já publiquei neste mesmo blog em outras ocasiões. Vamos a elas.

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Sartre: “Um amor, uma carreira, uma revolução: outras coisas que se começam sem saber como acabarão”.

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Heitor Moniz: “De vez em quando sopra na humanidade o vento da loucura. Há um grande entusiasmo coletivo. Os povos sublevam-se, tomam as armas, fazem a revolução”.

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Gilbert Desbron: “A verdadeira revolução acontece quando mudam os papéis e não apenas os autores”.

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Joseph Maistre: “Não são os homens que fazem as revoluções é que se servem dos homens”.

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Câmara Cascudo: “O encanto das revoluções é a tentativa de apressá-las e promover a velocidade do quadrante do tempo imperturbável”.

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José de San Martin: “Não há revolução sem revolucionários. Os revolucionários do mundo somos todos irmãos”.

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Machado de Assis: “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo ou uma revolução, alguns dizem que assim é que a natureza compôs suas espécies”.

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Machado de Assis, de novo: “As ocasiões fazem as revoluções”

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Emma Goldman: “Se eu não puder dançar, não quero ser parte de sua revolução!”.

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Bakunin: “Quem quer, não a liberdade, mas o Estado, não deve brincar de revolução”.

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Lênin: “As revoluções são as festas dos oprimidos e dos explorados”.

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François Chateaubriand: “Os espíritos de primeira ordem, que produzem as revoluções, desaparecem. Os espíritos de segunda ordem, que tiram proveito delas, permanecem”,

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Napoleão Bonaparte: “Nas revoluções há duas espécies de homens: os que as fazem e os que delas se aproveitam”.

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Che Guevara: “A revolução é algo que se leva no coração para morrer por ela, não na boca para viver dela”.

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Almeida Garrett: “O povo nunca se excita fortemente pelo bom do que há de vir, senão pelo mau e insuportável do que é”.

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Bernard Shaw: “Com exceção do capitalismo, não nada mais revoltante do que uma revolução”.

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Kropotkin: “Há períodos na sociedade humana em que a revolução torna-se uma necessidade imperativa”.

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Carlos Drummond de Andrade: “As revoluções são periódicas, o que lhes tira a eficácia”.

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Thomas Jefferson: “Cada geração necessita uma nova revolução”.

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Lênin: “Há décadas em que nada acontece; e há semanas em que acontecem décadas”.

Carmem Sylva: “A multidão é como o mar: leva-nos flutuantes sobre as ondas, ou traga-nos conforme o vento que sopra”.

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Leoni Kaseff: “As revoluções são soluções violentas para problemas longamente à espera de resoluções”.

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Marquês de Maricá: “As revoluções políticas são ordinariamente como os terremotos, destroem mas não edificam”.

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Thomas Paine: “O princípio moral das revoluções é instruir, não destruir”.

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Bakunin: “A paixão pela destruição é uma paixão criativa”.

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Fialho de Almeida: “É lei inflexível que enquanto o povo for ignorante, a revolução será estéril”.

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Victor Hugo: “As revoluções são começadas por homens que fazem as circunstâncias e terminadas por homens que fazem os acontecimentos”.

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Che Guevara: “A revolução se faz através do homem. Mas o homem tem que forjar, dia a dia, o espírito revolucionário”.

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Nelson Mandela: “Estou convencido de que dilúvios de desastre pessoal nunca podem afogar um revolucionário determinado, nem o cúmulo da miséria que acompanha a tragédia o sufocará”.

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Jean Paul Marat: “As revoluções começam pela palavra e concluem pela espada”.

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George Orwell: “Em tempos de engano universal, falar a verdade torna-se um ato revolucionário”.

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Trótski: “Expor aos oprimidos a verdade sobre a situação é abrir-lhes o caminho da revolução”.

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Aristóteles: “As revoluções não concernem a pequenas questões, mas nascem de pequenas questões e põem em jogo grandes questões”.

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Ortega y Gasset: “A revolução não é a sublevação contra a ordem pré-existente, mas a implantação de uma nova ordem que vira a tradicional pelo avesso”.

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Ditado popular: “Revolução que em seu começo para, perdida está”.

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Oswaldo Aranha: “As revoluções trazem o progresso moral com sacrifício material dos povos”.

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Stendhal: “É um argumento dos aristocratas, esse dos crimes que uma revolução implica. Eles esquecem-se sempre dos que se cometiam em silêncio antes da revolução”

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Stálin: “Você não consegue fazer uma revolução com luvas de seda”

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Fidel Castro: “Uma revolução não é uma cama de rosas. Uma revolução é a luta até a morte entre o futuro e o passado”

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Malcolm X: “Às vezes tens que pegar uma arma para derrubar uma arma”.

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Nelson Rodrigues: “Luta armada não é batalha de confetes”.

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Napoleão Bonaparte: “Uma revolução é uma opinião apoiada por baionetas”

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Eça de Queiroz: “São os hinos que fazem as revoluções”.

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Eric Hoffer: “Qualquer revolução pode acontecer sem uma crença em Deus, mas nunca sem uma crença do diabo.

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Marquês de Maricá: “Nas revoluções política os povos ordinariamente mudam de senhores sem mudarem de condição”.

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Kafka: “Todas as revoluções se evaporam e deixam atrás de si apenas o limo de uma nova burocracia”

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Simone Weil: “Pensa-se hoje na revolução, não como maneira de se solucionarem problemas postos pela atualidade, mas como um milagre que nos dispensa de resolver problemas”.

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Ambrose Bierce: “Revolução, s. f. Em política uma mudança abrupta na forma de desgoverno”.

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Ambrose Bierce, de novo: “Insurreição: uma revolução que não teve sucesso. Tentativa fracassada de opositores que pretendem substituir um governo mau por outro que não sabe governar”

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John Kennedy: “Todos aqueles que tornam as revoluções pacíficas impossíveis tornarão inevitáveis as revoluções violentas”.

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Beatrice Bruteau: “Não podemos aguardar que os tempos se modifiquem e nós nos modifiquemos junto, por uma revolução que chegue e nos leve em sua marcha. Nós mesmos somos o futuro. Nós somos a revolução”.

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Che Guevara: “A revolução não é uma maçã que cai quando está podre. Tem que fazer cair”.

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André Gide: “O mundo só poderá ser salvo, caso o possa ser, pelos insubmissos”.

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Albert Camus: “Eu me revolto, logo existo”.

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Emiliano Zapata: “É melhor morrer de pé que viver de joelho”.

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Fred Hampton: “Você pode matar um revolucionário mas nunca pode matar a revolução”

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Bill Ayers: “Toda revolução parece impossível no começo e depois que acontece, era inevitável”.

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Karl Marx: “As revoluções são a locomotiva da história”. (As lutas de classes na França: de 1848 a 1850)

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Marx, de novo: “Os trabalhadores não têm nada a perder em uma revolução comunista, a não ser seus grilhões”. (Manifesto Comunista)

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Henri Jeanson (durante a revolução francesa, depois de Luiz XVI ser guilhotinado): “Cortamos a cabeça do único rei que não tinha uma”.

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José Saramago: “A única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz, porque pela paz seria educado. Essa sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo”.

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Boaventura de Sousa Santos: “Lutar pela igualdade sempre que a diferença nos discrimine. Lutar pela diferença sempre que a igualdade nos descaracterize”.

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Barbara Tuchman: “Toda revolução bem-sucedida veste rapidamente o manto do tirano que ela depôs”.

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Bakunin: “Se você pegar o mais ardente dos revolucionários e der poder absoluto a ele, dentro de um ano ele será pior do que o czar”.

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Hannah Arendt: “O mais radical revolucionário tornar-se-á um conservador no dia seguinte à revolução”.

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Ítalo Calvino: “Os revolucionários são mais formais que os conservadores”.

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Tácito: “Enquanto lutam separados, são vencidos juntos”.

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Antônio Carlos de Andrada, governador de Minas Gerais, em 1930: “Façamos a revolução, antes que o povo a faça”.

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Vasco Gonçalves (durante a Revolução dos Cravos, em Portugal): “Ou se é pela revolução ou se é pela reação! Não há cá terceiras vias”.

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Paulo Freire: “Uma revolução nasce como uma entidade social dentro da sociedade opressora”.

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Anaïs Nin: “As sociedades decadentes não têm lugar para visionários”

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Einstein: “A revolução me introduziu na arte, e por sua vez, a arte me introduziu na revolução”.

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Castro Alves: “E o povo é como a barca em plenas vagas, / a tirania é o tremedal das plagas, / o porvir – a amplidão. / Homens! Esta lufada que rebenta / é o furor da mais lôbrega tormenta, / ruge a revolução”.

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Thomas Jefferson: “Revoltarmo-nos contra a tirania é obedecer a Deus”.

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Albert Camus: “Todo revolucionário acaba se tornando um opressor ou um dissidente”.

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Joseph Conrad: “O espírito revolucionário é muito conveniente. Ele nos libera de todos os escrúpulos no que se refere a ideias”.

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Madame de Staël: “Os homens em revolução têm muitas vezes mais a recear dos seus êxitos do que dos seus reveses”.

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George Santayana: “Poucos revolucionários o seriam se fossem herdeiros de um baronato”.

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Mao Tsé-tung: “O pior inimigo da revolução é o burguês que muitos revolucionários levam dentro”.

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Leonel Brizola: “O Rio tem de fazer uma espécie de Revolução de 30, sem armas: vamos derrubar o regime neoliberal para o Rio resolver seus problemas”.

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John Lennon: “Parece que todas as revoluções terminam com o culto à personalidade – mesmo os chineses parecem precisar de um grande-pai. Penso que isso ocorre em Cuba também, com Che e Fidel… Na tradição do comunismo ocidental, teríamos que criar uma imaginação dos próprios trabalhadores serem para si mesmos a figura do grande-líder”.

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Dom Hélder Câmara: “Quando alimentei os pobres me chamaram de santo; mas quando perguntei porque há gente pobre me chamaram de comunista”.

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Silva Marques: “Uma revolução que triunfa está por si mesma justificada”.

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Martin Luther King: “O tumulto é a linguagem daqueles que ninguém entende”.

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Mark Twain: “O revolucionário inventa as ideias. Quando as exaure, o conservador as adota”.

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Trótski: “Ela virá, a revolução, e trará ao povo não só direito ao pão, mas também à poesia”.

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André Malraux: “A revolução, as férias da vida”.

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Victor Hugo: “Em tempo de revolução, cuidado com a primeira cabeça que rola. Ela abre o apetite do povo”.

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Francisco de Oliveira, durante as manifestações de 2013: “Nunca houve nada parecido pela amplitude no país. É uma experiência realmente nova na política de massas do Brasil, realmente nova. Todo mundo se pergunta no que isso vai dar. Os otimistas diriam: ‘Vai dar numa revolução’. Mas é difícil. Uma revolução, nos casos conhecidos, sempre teve direção. Essa não parece ter. Então pode dar em nada, o que seria muito frustrante”.

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O dossiê especial “1917: o ano que abalou o mundo“, reúne reflexões de alguns dos principais pensadores críticos contemporâneos nacionais e internacionais sobre a história e o legado da Revolução Russa. Aqui você encontra artigos, ensaios, reflexões, resenhas e vídeos de nomes como Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Löwy, Christian Laval, Pierre Dardot, Domenico Losurdo, Mauro Iasi, Luis Felipe Miguel, Juliana Borges, Wendy Goldmann, Rosane Borges, José Paulo Netto, Flávio Aguiar, Mouzar Benedito, Ruy Braga, Edson Teles, Lincoln Secco, Luiz Bernardo Pericás, Gilberto Maringoni, Alysson Mascaro, Todd Chretien, Kevin Murphy, Yurii Colombo, Álvaro Bianchi, Daniela Mussi, Eric Blanc, Lars T. Lih, Megan Trudell, Brendan McGeever, entre outros. Além de indicações de livros e eventos ligados ao centenário.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar(2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

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