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População e Pegada Ecológica na África

Do IHU, 29 Agosto 2017
Por José Eustáquio Diniz Alves,



"A África já está em situação social e ambiental muito difícil e ainda terá que lidar com os efeitos das mudanças climáticas, cujos cenários não são nada bons para o continente. Para dar dois exemplos: a cidade de Lagos, na Nigéria, a maior do continente Subsaariano, vai perder muita área densamente povoada para a elevação do nível do oceano Atlântico; e a perda dos glaciares do monte Kilimanjaro vai contribuir para a crise hídrica. Por tudo isto, fica claro que se a situação da África já está ruim, ela deve piorar nas próximas décadas", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 28-08-2017. 


Eis o artigo.

O continente africano tem um grande desafio no século XXI: garantir bem-estar para sua crescente população e qualidade ambiental para um meio ambiente em constante deterioração.

As projeções probabilísticas da ONU, conforme o gráfico acima, indicam que a África pode ter uma população entre 3 e 6 bilhões de habitantes em 2100, mas com a projeção média indicando a maior probabilidade de haver 4,5 bilhões de habitantes no final do século. Somente a África Subsaarianapoderá passar de 1 bilhão de pessoas em 2017 para 4 bilhões de habitantes em 2100.

Evidentemente, será difícil garantir o bem-estar social de toda essa gente. O Produto Interno Bruto da África Subsaariana era de US$ 3,6 trilhões em 2016 e deve chegar a US$ 4,5 trilhões em 2020, segundo dados do FMI, em poder de paridade de compra (ppp). Isto significa que a renda per capita (em ppp) era de US$ 3,8 mil em 2016 e deve chegar a US$ 4,3 mil em 2020. Para se ter uma comparação, em 2020, a renda per capita brasileira deve ser de US$ 17,1 mil e a do mundo de US$ 19,4 mil.

Nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), aprovado em setembro de 2015 pela Assembleia Geral da ONU, foi definido no objetivo # 8.1, o seguinte: “Sustentar o crescimento econômico per capita, de acordo com as circunstâncias nacionais e, em particular, pelo menos um crescimento anual de 7% do PIB nos países menos desenvolvidos”. Pois bem, se o PIB da África Subsaariana crescer 7% ao ano entre 2020 e 2100, chegaria no final do século em US$ 1,1 trilhão (cerca de 10 vezes o PIB global atual). Para uma população de 4 bilhões, isto daria uma renda per capita de US$ 250 mil (mais de 10 vezes a renda média mundial da atualidade).

Porém, estes números são pouco factíveis, pois como mostrou o economista ecológico Kenneth Boulding (1910-1993): “Acreditar que o crescimento econômico exponencial pode continuar infinitamente num mundo finito é coisa de louco ou de economista”.

De fato, as bases ecológicas para manter o crescimento econômico da África Subsaariana já estão abaixo da capacidade de carga. O gráfico abaixo, da Footprint Network, mostra que a Pegada Ecológica do continente africano já está 13,5% acima da biocapacidade. Em termos per capita, a Biocapacidade estava em 1,2 hectares globais (gha) em 2013 e a Pegada Ecológica estava em 1,4 gha. Portanto, o nível de consumo da África já é muito baixo e mesmo assim as bases ecológicas já estão fragilizadas.




Manter um crescimento econômico de 7% ao ano e chegar a uma renda per capita muito mais elevada do que a dos países ricos da atualidade é apenas um sonho tecnocrático, que tem apoio dos setores que querem aumentar a acumulação de capital, mas não tem base material e ambiental para se concretizar. Mas mesmo na hipótese de crescimento médio de 3,5% ao ano, o PIB multiplicaria por 16 vezes em 80 anos. Isto elevaria o PIB da África para US$ 67 bilhões (maior do que o conjunto das economias avançadas na atualidade) e uma renda per capita de US$ 15 mil (equivalente à brasileira atualmente).

O gráfico abaixo apresenta uma projeção com um crescimento econômico de 3,5% ao ano e pode ser muito reveladora das dificuldades de se conciliar o crescimento econômico com o aumento do consumo e a sustentabilidade ambiental. O pressuposto é que a Biocapacidade da África cresça na mesma média de 1961 a 2012 e que a Pegada Ecológica per capita cresça progressivamente, passando dos atuais 1,6 gha para 3 gha (que é a mesma Pegada Ecológica per capita do Brasil atualmente). Ou seja, o exercício apresentado no gráfico é de dobrar a Pegada Ecológica per capita da África no contexto em que a população vai mais que quadruplicar de tamanho. Entendendo que a projeção é até modesta, pois a África teria o padrão de consumo do Brasil somente em 2100.

Mesmo assim, o déficit ecológico cresce de maneira significativa. Mesmo considerando o aumento da Biocapacidade total de 1,4 bilhão de gha para 1,8 bilhão de gha (o que é pouco provável pois isto implicaria em recuperação dos solos e dos mananciais de água) a Pegada Ecológica passaria de 1,6 bilhão de gha para 13,4 bilhões de gha (4,49 bilhões de habitantes vezes 3 gha per capita).

Isto quer dizer que mesmo com um padrão de consumo relativamente modesto a África teria uma Pegada Ecológica total em 2100 maior do que a Biocapacidade do Planeta que está em torno de 12,2 bilhões de gha. Desta forma, somente a África utilizaria 1,1 Planeta no final do atual século.



Em síntese, existe um desafio monumental para melhorar o bem-estar da população da África em um contexto de grande crescimento demográfico. O desafio não desaparece mesmo se houver uma revolução energética e a implantação de uma economia de baixo carbono.

A África já está em situação social e ambiental muito difícil e ainda terá que lidar com os efeitos das mudanças climáticas, cujos cenários não são nada bons para o continente. Para dar dois exemplos: a cidade de Lagos, na Nigéria, a maior do continente Subsaariano, vai perder muita área densamente povoada para a elevação do nível do oceano Atlântico; e a perda dos glaciares do monte Kilimanjaro vai contribuir para a crise hídrica. Por tudo isto, fica claro que se a situação da África já está ruim, ela deve piorar nas próximas décadas.

A consciência sobre o problema demográfico já faz arte da pauta dos dirigentes políticos dos 15 países-membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). A CEDEAO, junto a Mauritânia e o Chade, anunciaram, em julho de 2017, que querem limitar a três o número de filhos por mulheres, a fim de reduzir para metade, até 2030, as taxas de natalidade da região.

Também em julho de 2017, o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, disse que, pela primeira vez em 25 anos, a fome aumentou no mundo, revertendo os sinais claros de melhoria para a população de diversos continentes. Graziano disse que 60% daqueles que enfrentam a fome hoje estão em países afetados por conflitos ou mudanças climáticas, a maioria na África Subsaariana.

Portanto, fica claro que será difícil reduzir a pobreza, num quadro de alto crescimento demográfico e ainda evitar um colapso ambiental. Pobreza ecológica gera pobreza social. O modelo atual é insustentável e mantê-lo ao longo do século é o mesmo que optar por seguir em frente, quando a única alternativa é o precipício.

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