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O que comemorar no centenário da Revolução de Outubro?

"Eis a lição de Outubro: há uma contradição irredutível entre comunismo de partido e a revolução."


Do Blog da Boitempo, 11 de Agosto, 2017
Por Christian Laval e Pierre Dardot.


O que devemos comemorar neste centenário da Revolução de Outubro? Uma primeira vitória da revolução comunista mundial, ou a primeira de uma série de derrotas do socialismo, tal como o século anterior o imaginou? Que lição, ao fim e ao cabo, devemos tirar da Revolução de Outubro?

Hoje ficou claro que seu fracasso marcou a morte – ao menos por um século – do socialismo autêntico, o que significa a democracia em sua mais plena e radical extenção. Para ir direto ao ponto: apesar dos esforços de inteiras gerações de revolucionários no sentido de redescobrir o verdadeiro ímpeto de 1917, sua história ao longo do século XX se tornou desastrosa, tanto para as sociedades do leste quanto para movimento dos trabalhadores como um todo.

Ao fim e ao cabo, a ditadura burocrática criminosa da Rússia stalinista e pós-stalinista comprometeu a própria ideia do socialismo, a ponto de erradicar a esperança no futuro socialista. O capitalismo se reestabeleceu por toda parte, geralmente em suas formas mais asquerosas e predatórias. A própria coisa que se revestiu sob o nome “comunismo” após 1917 (e em certo sentido logrou monopolizar esse nome) contribuiu para uma catástrofe histórica que continua produzindo os efeitos mais nefastos para a humanidade – pois retirou da humanidade qualquer outra alternativa.

“Todo poder aos sovietes!” Esse foi o slogan com o qual os bolcheviques tomaram o poder. Alguns consideraram esses “sovietes” ou “conselhos” a instituição quintessencialmente comunista, garantindo poder efetivo ao maior número de trabalhadores e camponeses, tanto em termos legislativos quanto executivos. Embora, como sabemos – ou ao menos como deveríamos saber – isso é precisamente o que não ocorreu: foi o Partido Social Democrata (bolchevique), ao se tornar o Partido Comunista em 1918, que efetivamente exercitou poderes ditatoriais, da Guerra Civil até o final da União Soviética. Longe de emanar do Congresso de Sovietes, a insurreição de 25 de outubro foi decidida pelo partido e imposta sobre os sovietes.

O poder que emergiu disso não apenas foi não-soviético mas pura e simplesmente anti-soviético, se restaurarmos o significado autêntico da palavra “soviete”. O uso desse termo é sem dúvida o coração da mentira que foi o comunismo burocrático de Estado, da Revolução de Outubro ao final do século vinte. Se houve efetivamente revolução, ela foi obra não do Partido Bolchevique mas do movimento espontâneo dos sovietes.

Para ser mais preciso – e isso é um fato histórico consolidado –: como uma forma de autogoverno democrático, o sistema soviético é fundamentalmente estranho ao exercício bolchevique do poder. Na Rússia, as massas provaram sua imaginação e audácia; elas estavam bem à frente dos bolcheviques em Fevereiro, quando criavam seus próprios órgãos de emancipação. No entanto, foi o Partido e não os sovietes que se tornou a base para o edifício “soviético”. Estabeleceu-se um comunismo de partido no lugar de um comunismo soviético. No entanto, esse comunismo de partido, ou bolchevismo, chegou hoje ao final de sua jornada histórica. E isso é para o melhor. Eis a lição de Outubro: há uma contradição irredutível entre comunismo de partido e a revolução.

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Christian Laval é professor de sociologia da universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense. Pierre Dardot é filósofo e pesquisador da universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense, especialista no pensamento de Marx e Hegel. Desde 2004, coordenam o grupo de estudos e pesquisa Question Marx, que procura contribuir com a renovação do pensamento crítico. Juntos, escreveram A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (Boitempo, 2016) e Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI (Boitempo, 2017). Colaboram com o Blog da Boitempo, especialmente para o dossiê sobre o centenário da Revolução Russa.

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