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O heroísmo de um bispo espanhol na República Centro-Africana

Do IHU, 23 Agosto 2017
Por  Alberto Rojas, publicada por El Mundo, 21-08-2017. A tradução é de André Langer.




A República Centro-Africana não existe. No mapa, tem fronteiras, florestas, uma capital e até conta com um aeroporto internacional, mas é tudo uma grande ficção. Na realidade, este quilômetro zero do continente é hoje um conjunto de ilhas rodeadas de bairros queimados, de mortos mal enterrados e de grupos armados sem pátria. Se existe, a República Centro-Africana só sobrevive no coração de alguns homens e mulheres que, em vez de contribuir para a sua dissolução definitiva, decidiram lutar contra a sua destruição com tudo contra. Uma dessas pessoas é o espanhol Juan José Aguirre.

O padre Aguirre é o bispo de Bangassou, uma dessas ilhas de terra vermelha e florestas tropicais onde, nos últimos meses, o que resta do país é sangrado a tiros e golpes de machetes. Em sua missão católica, Aguirre e seu bispo auxiliar, o também espanhol Jesús Ruiz, mantêm 2 mil civis muçulmanos que as milícias cristãs Anti-Balaka (literalmente, os que não temem as balas de AK) teriam exterminado não fosse sua intervenção para protegê-los. Hoje, a paróquia onde se encontram é um autêntico barril de pólvora, e seus anfitriões, os religiosos católicos, são seus escudos humanos.

Os arredores de Bangassou são controlados pelo senhor da guerra nigeriano Ali Darassa, um criminoso saqueador que veio pegar os despojos desta antiga colônia francesa. Com sua milícia Seleka, de maioria muçulmana, foi conquistando povoado a povoado desde a sua base de Bria (onde são extraídos os maiores diamantes do mundo) até a fronteira com o Congo, delimitada pelo Rio Ubangui. Nos 12 povoados que conquistou foi destruindo as paróquias católicas. A maior parte dos sacerdotes está em paradeiro desconhecido.

A única cidade que ainda não pôde conquistar é Bangassou, controlada pelas milícias cristãs Anti-Balaka, a maioria deles crianças ou adolescentes armados, drogados e indisciplinados. Diante dos ataques de Ali Darassa, os Anti-Balaka a tomaram com os habitantes muçulmanos de Bangassou.
Dois mil muçulmanos refugiados

O ódio e a manipulação, em um país onde nunca houve problemas entre as comunidades cristãs e muçulmanas, produziram um ambiente explosivo que finalmente eclodiu em 12 de maio passado. Casa por casa, os Anti-Balaka foram matando homens, mulheres e crianças. Mais de 100. Quando chegou aos ouvidos do padre Aguirre, que estava na catedral, conseguiu refugiar o resto dos muçulmanos nos domínios da igreja. Ao todo, são duas mil pessoas que estão refugiadas ali desde então.

“Eles não podem sair. Se as mulheres tentam deixar o recinto da catedral para recolher lenha os franco-atiradores atiram contra elas. Caso não tivessem se refugiado ali, já teriam sido exterminados”, conta Jesús Ruiz.

“Todos os dias enchemos os tanques de água, mas não temos mais recursos para atendê-los. Eles queimaram os bancos de madeira da igreja para cozinhar, mas já acabaram”, assegura este religioso, que descreve uma situação complexa e tensa. “Os cascos azuis da Minusca (missão de paz da ONU no país) protegem o nosso perímetro para que os Anti-Balaka não entrem, mas há um problema grave: eles são marroquinos e egípcios e tomaram partido pelos muçulmanos”.

“Isso provocou uma rejeição por parte do resto da população, que os vê com desconfiança. Também não ajuda o fato de que cada vez que saem para fazer patrulhas por Bangassou atirem contra todos os que se mexem, quer sejam civis ou milicianos”, disse. Além disso, os marroquinos já perderam sete soldados em confrontos armados com os Anti-Balaka.

A neutralidade foi rompida há semanas. As forças muçulmanas Seleka tomaram Gambo, um povoado situado a 75 quilômetros de Bangassou. Diante da permissividade dos soldados das Nações Unidas presentes, acabaram decapitados 50 milicianos Anti-Balaka.

“Alguns sacerdotes compram alimentos para as famílias muçulmanas refugiadas aqui, mas precisam fazê-lo às escondidas. Se as milícias cristãs Anti-Balaka vissem que os religiosos estão alimentando os muçulmanos, sem dúvida nos matariam. Já ameaçaram a nossa enfermeira. Se lhes ocorrer que estamos dispensando cuidados médicos para algum deles, os outros virão até nós”.

Como é o dia a dia dos muçulmanos refugiados na catedral? “A grande maioria deles é muito agradecida. Eles sabem que salvamos as suas vidas. Uma mulher acaba de ter um menino e o chamou Aguirre, em homenagem a Juan José, mas há um pequeno grupo de jovens, uma minoria radicalizada de 14 ou 15 anos, que nos ameaça diariamente de morte e que está bem armado”.

Jesús Ruiz fala das travessias para o Congo para fugir: “Uma mulher nos pediu para que a ajudássemos a cruzar o rio junto com os nossos sacerdotes. Ela levava os seus quatro filhos consigo; o menor era um bebê. Os Anti-Balaka detectaram o bote e o interceptaram. Obrigaram os sacerdotes a entregar a mulher e os seus filhos a ponta de metralhadora. Atiraram contra todos, mas a mulher sobreviveu e puderam recolhê-la ferida e em estado de choque na beira do rio. Eles não respeitam nada”.

As armas fluem sem controle e há um paradoxo curioso: enquanto as milícias recebem pontualmente entregas de Kalashnikovs e munição, as forças armadas nacionais, treinadas pela França e pela Espanha sob o comando do general Fernando García Blázquez, sofrem um embargo de armas. Ou seja, os soldados que deveriam defender os civis não podem se armar, ao passo que as milícias, cada uma com lealdades diferentes, assassinam e campeiam ao seu redor armados até os dentes.

Bangassou é apenas uma amostra em pequena escala da sorte que está correndo o resto do país. Pequenas ilhas de deslocados internos, horrorizados com a possibilidade de um genocídio em câmara lenta e provocada pelos dois lados, sobrevivem desde 2013 em condições muito precárias escondidos em escolas, igrejas e hospitais.

O melhor exemplo disso é Batangafo, uma cidade situada no norte do país, também cercada de florestas, onde 15 mil pessoas se refugiaram no centro que Médicos Sem Fronteiras tem na localidade. Seu coordenador, o espanhol Carlos Francisco, descreve uma situação catastrófica: “Alguns perderam suas casas nos ataques, outros têm medo de sair... Tivemos que disponibilizar latrinas para todos, proporcionar o acesso a água potável, fazer vacinações em massa contra doenças como o sarampo, que aqui já virou surto... Infelizmente, nem mesmo nós podemos sair do hospital nas últimas três semanas. É uma situação desesperadora”.

Assim como acontece com os sacerdotes de Bangassou, no hospital de Batangafotambém sofrem ameaças de um e de outro lado no desempenho de suas funções: “Nós procuramos enviar uma mensagem de imparcialidade. Mostramos que não fazemos parte do conflito, mas temos dificuldades para nos fazer entender”, disse Carlos Francisco.

A população não é deslocada, mas realocada, isto é, foi se deslocando de um lugar para o outro diante do avanço da violência. A Minusca, por sua vez, está desde 2013 tentando pacificar a situação, mas cada vez está mais distante do objetivo. As cidades são esqueletos de bairros queimados, com os muçulmanos cercados nas populações cristãs e os cristãos vivendo em localidades de maioria muçulmana à espera do assalto final.

Um jornalista local, intérprete deste repórter anos atrás, conta de Bangui: “Não há um genocídio porque não há coordenação entre as milícias. Cada uma das milícias mata por sua conta, com alianças entre elas em uma cidade e declarações de guerra entre as mesmas em outra. A República Centro-Africana desapareceu. Nunca foi grande coisa, mas não resta nada”.
Uma guerra permanente

A República Centro-Africana é um dos países mais pobres e subdesenvolvidos do mundo, mesmo que possua enormes reservas de recursos naturais, como ouro e diamantes, em suas minas de Bria e Carnot. O idioma local é o sango, embora nas poucas zonas urbanas se fale também francês, a língua da antiga metrópole. Em sua história conheceu poucos momentos de estabilidade. A cada quatro ou cinco anos havia um golpe de Estado que trocava um ditador por outro, com o autodenominado “imperador Bocassa” como melhor exemplo. Em 2013, um grupo de milícias do norte do país se uniu na chamada coalizão Seleka e invadiu o país com a ajuda de mercenários do Chade e do Sudão. Desde então, eclodiu uma sangrenta guerra civil com as milícias cristãs Anti-Balaka, que virou um conflito religioso.

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