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'O conhecimento hoje é o principal fator de produção', diz Ladislau Dowbor

Em debate no congresso da CUT, professor afirma que mundo vive a "Era do Sistema de Conhecimento" e que isso muda a economia. 

Para Celso Amorim, a "destruição" do Estado brasileiro inviabiliza o país
ROBERTO PARIZOTTI/CUT
Da RBA, 29 de Agosto, 2017
por Luciano Velleda

 

Debate sobre a "financeirização, automação e futuro do trabalho”, marcou o segundo dia do 15º Congresso da CUT

São Paulo – Os conceitos de desigualdade, democracia e soberania formam um tripé que, na opinião do ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, devem andar juntos na perspectiva de um modelo de desenvolvimento para o Brasil e o mundo. “Você não tem democracia real se não tiver equidade social que garanta e dê realidade a essa democracia. Da mesma forma, não haverá igualdade se não houver um governo democrático em que todas as forças políticas possam se manifestar livremente. E esses dois termos se ligam à soberania, que é de todos”, explicou Celso Amorim, durante participação no debate “Financeirização, automação e futuro do trabalho”, ocorrido hoje (29), durante o 15º Congresso Extraordinário e Exclusivo da CUT, em São Paulo.

“Não existe cidadão livre sem Estado livre. A liberdade individual e de grupos sociais é indissociável da soberania e, nesse momento, a soberania brasileira está sendo ameaçada”, afirmou o ex-chanceler.
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Celso Amorim ponderou que nem durante a ditadura civil-militar (1964-1985) houve a “destruição” dos elementos de proteção do trabalhador brasileiro de forma tão “violenta e rápida” como tem acontecido agora durante o governo de Michel Temer (PMDB). Inserindo a atual retirada de direitos no contexto da globalização, Amorim considera a “financeirização” uma tendência mundial. No caso do Brasil, entretanto, os efeitos são mais graves porque a desindustrialização é acompanhada da desnacionalização. Como resultado prático, boa parte dos grandes empresários do país prefere aplicar seus recursos no sistema financeiro ao invés de investir na produção.

“Procurar um industrial brasileiro é cada vez mais difícil. Muitos deles ganham mais dinheiro no mercado financeiro do que na atividade produtiva, o que reduz o interesse deles pela defesa de uma política industrial”, afirmou o ex-ministro, destacando que há também aqueles empresários que preferiram vender suas empresas e se tornarem executivos de multinacionais.

Segundo Celso Amorim, a “destruição” do Estado brasileiro inviabiliza o desenvolvimento do país e a superação da condição de subdesenvolvimento, algo que para o ex-ministro precisa do apoio do Estado. “Talvez seja possível num país muito pequeno, mas mesmo assim tenho dúvida.” Tendo como exemplos atuais a China e a Coreia do Sul, nações que nas últimas décadas se desenvolveram com forte apoio do Estado, inclusive regulamentando a atuação dos grandes conglomerados transnacionais, Amorim lembrou que até mesmo nos Estados Unidos cerca de 50% do investimento em pesquisa é financiado pelo Pentágono.

“Há uma inocência no termo ‘privatização’, pois a empresa não vai para o empresário nacional e sim para a empresa estrangeira, que está subordinada aos interesses do capital do país de origem”, explicou.
Capitalismo disfuncional

O economista Ladislau Dowbor, professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), iniciou sua participação no debate também partindo do eixo igualdade, democracia e soberania proposto pelo ex-ministro Celso Amorim. O professor, porém, acrescentou o tema da destruição ambiental como também um elemento central em uma nova forma de pensar o desenvolvimento da economia e da humanidade.

Lembrando que hoje existem oito famílias mais ricas com os mesmos recursos da metade mais pobre da população mundial, o economista definiu o atual momento do capitalismo como sendo algo “disfuncional”.

“O capitalismo já foi muito produtivo e gerador de atividades, mas hoje ele está sendo paralisado. Antes havia a exploração do trabalhador, nós protestávamos, mas ao menos se produzia e se pagava imposto, algo que não ocorre mais. Hoje o sistema é tão forte que o dinheiro não é mais uma coisa física, os bancos centrais não conseguem controlar e os recursos rodam pelo mundo sem controle”, analisou Ladislau Dowbor. Para ele, a única saída é a utilização dos recursos para a redução de desigualdade social e a mudança para uma matriz tecnológica que não destrua o meio ambiente.

Assim como Amorim, Ladislau enfatizou que nos últimos 40 anos a aplicação no sistema financeiro, como em títulos da dívida pública, por exemplo, rendem em média 7% ao ano, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) mundial cresce em torno de 2%.

“Na realidade, o capital financeiro não está financiando atividades produtivas, está apenas extraindo. O dinheiro está indo para o sistema financeiro e descapitalizando a economia. A equação básica é usar esses recursos não para enriquecer o capital improdutivo, mas para reduzir a desigualdade e os impactos ambientais”, defendeu o professor de pós-graduação da PUC-SP. “O tripé meio ambiente, desigualdade e financiamento constitui o desafio que temos pela frente.”

Segundo Ladislau Dowbor, a taxa de juros aplicada no Brasil é responsável pelo “travamento” do consumo das famílias e, consequentemente, da economia brasileira, destacando que os juros para pessoa física no país giram em torno de 156% ao ano, enquanto na Europa é 3,5% ao ano. O mesmo acontece com os juros para as empresas, que no Brasil variam entre 30% e 50% ao ano, ao mesmo tempo em que nos Estados Unidos e Europa fica em cerca de 2,5% ao ano.

“Hoje temos no Brasil 61 milhões de adultos que não conseguem pagar os juros do que já compraram, o que dirá comprar coisas novas”, observou. Nesse cenário, o empresário não produz por não ter para quem vender, as taxas de juros são altas e, por outro lado, ele tem a possibilidade de aplicar seus recursos no sistema financeiro, com menos risco e mais lucratividade.
Sistema de conhecimento

Dowbor avalia que estejamos vivendo a “Era do Sistema de Conhecimento”, cuja ideia básica é a economia imaterial. Com um telefone celular na mão, o professor disse que a maior parte do custo do aparelho é relacionada com conhecimentos de tecnologia e design e não mais com matéria prima ou mão-de-obra.

“O conhecimento hoje é o principal fator de produção e isso muda radicalmente a economia. Estou convencido de que mais da metade do valor dos produtos hoje não é mais trabalho físico e matéria prima, é conhecimento incorporado”, explicou.

Para o professor, a aliança do conhecimento com a possibilidade das pessoas se conectarem diretamente cria um novo paradigma, que ele define como “economia colaborativa”.

“A atividade bancária é necessária, mas o banco não”, afirmou, destacando as possibilidades existentes para as relações de trabalho diante das novas tecnologias. “No Quênia, pequenos agricultores conseguem fazer contatos direitos com quem vai comprar seus produtos via celular, tirando o intermediador do processo”, disse Ladislau.

Último a palestrar, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) Lucas Tasquetto fez um contraponto a opinião do economista Ladislau Dowbor e abordou os riscos que as novas tecnologias trazem para a substituição de empregos. Segundo ele, 47% dos trabalhadores dos Estados Unidos estão em situação de "auto risco", podendo ser substituídos por processos automatizados dentro de 10 ou 20 anos. Em países em desenvolvimento, ele enfatizou, esse risco pode chegar a 70% dos empregos.

Para Lucas Tasquetto, os empregos do futuro precisarão de menos pessoas, porém com maior grau de conhecimento técnico, apesar dos riscos da degradação do trabalho, da diminuição dos salários e do enfraquecimento dos sindicatos nos processos de negociação com o empregador.

“Os trabalhadores e as trabalhadoras terão de assumir todos os riscos do trabalho individual e, com a lapidação dos direitos trabalhistas, isto se aprofunda”, afirmou. “Os sindicatos precisam cobrar do Estado políticas que moldem a governança da internet para garantir segurança dos trabalhadores neste novo mundo do trabalho, do qual não há mais volta”, projeta o professor.

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