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“Na vida moderna, precisaríamos de pelo menos meia hora de silêncio por dia.” Entrevista com Timothy Radcliffe


O frade dominicano 
Timothy Radcliffe faz parte da comunidade dos Blackfriars, em Oxford, e foi mestre-geral da ordem de 1992 a 2001. 


Do IHU, 04 Agosto 2017
A reportagem é de Alain Elkann, publicada no jornal La Stampa, 23-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Eis a entrevista.

Por que você decidiu se tornar frade?

Quando eu estava na escola, eu era um dos meninos maus. Eu sempre estava fumando no meio dos arbustos ou tentando encontrar o caminho para o bar mais próximo, e não estava nada interessado em religião. Quando saí da escola, fiz amigos que não eram religiosos, e eles me disseram: “Não é verdade”. Para mim, tudo começou com esta pergunta: é verdade? Eu tinha uma ideia juvenil muito ingênua sobre a verdade, mas foi isso que me empolgou. É verdade? Então, eu li filosofia e comecei a ler um pouco de teologia, e me tornei dominicano porque o lema é Veritas, Verdade. Espero em uma verdade humilde, mas Verdade. Eu ingressei na ordem, em primeiro lugar, por causa da curiosidade intelectual. Eu quero pensar, eu quero estudar. Nenhuma área de conversa é proibida. De fato, eu finalmente fiz o compromisso porque me parecia que os meus irmãos eram gloriosamente felizes e estavam vivendo. E eu disse: “Sim, isto é a vida”.

Como a religião ajuda você a atravessar a vida humana?

Eu não sou religioso porque isso me ajuda. Eu sou religioso porque eu acredito que é verdade, porque penso que é uma verdade bela, que é o sentido mais profundo de estar vivo. Eu acho que toda religião é um convite a viver. Javé disse a Moisés disse: “Ponho diante de você a vida e a morte. Escolha a vida”. Se for saudável, toda religião tem a ver com escolher estar vivo, total e plenamente vivo.

Por que você acha que as pessoas precisam de religião em suas vidas e não apenas de espiritualidade?

Os seres humanos procuram algum sentido último para as suas vidas. Nós queremos saber, enquanto estamos aqui, para que estamos aqui. E esse é um sentido que você não pode procurar sozinho apenas, você deve buscá-lo com os outros. A religião é tentar ver como, juntos, em comunidade, podemos buscar o sentido das nossas vidas. Se você é cristão, em Jesus, somos convocados para a comunidade para compartilhar uma refeição com ele. Você vê no judaísmo um papel fundamental da comunidade, da Páscoa ao encontro da comunidade para rezar. No Islã, você vê o conceito absolutamente fundamental da ummah, a comunidade em todo o mundo. Nós, humanos, não somos apenas indivíduos, somos pessoas comunais que encontram o seu sentido nas relações com as pessoas; portanto, precisamos nos reunir em mesquitas, igrejas e sinagogas, juntos.

Você acha que todas as religiões são um meio para chegar ao mesmo lugar?

Sim, eu ficaria feliz em dizer isso, mas o lugar está além do nosso conhecimento. Tomás de Aquino disse: “Estamos unidos neste mundo a Deus assim como ao Desconhecido”. O fundamentalismo religioso acontece quando os crentes religiosos perdem toda a humildade, dizendo: “Eu entendi tudo. Tenho a verdade”. Estamos todos a caminho da única verdade. Em última análise, encontraremos a felicidade e liberdade plenas, e isso começa agora. As pessoas falam sobre esta vida e sobre a vida após a morte. Eu acho que é uma forma inútil de falar. Existe a vida eterna, e a vida eterna começa agora. Se amamos alguém, então a vida eterna já começou. Quando morrermos, entraremos no mistério pleno do amor que já temos. Não é como tomar um trem de Oxford para Londres: morremos e vamos para outro lugar. Já agora – é isso que João diz no Novo Testamento – já agora, se amamos, a vida eterna então começou, talvez de um modo pequeno.

Pessoas que são profundamente religiosas passam pela vida de uma maneira completamente diferente. Você pode aprender a ter fé?

Sim e não. Todo mundo tem fé em algo. As pessoas têm fé na importância do amor. As pessoas têm fé na importância de procurar raciocinar e entender. Todos nós temos fé em todos os tipos de coisas. As pessoas têm fé na democracia. A divisão não é entre pessoas de fé e pessoas que não têm fé, porque todos acreditamos em algo. A questão é descobrir o que, em última instância, está implicado nas coisas em que acreditamos. Você tem um amigo ateu, como esse meu amigo John Rae, e ele diz: “Ah, eu não acredito”. E, então, você descobre que acredita, sim. Ele acredita no amor da sua esposa, ele acredita no amor pelos seus filhos. Quando eu falo de religião, eu estou dizendo: “Talvez naquilo que você já acredita estão sementes de algo muito importante”. Algumas pessoas acreditam em Deus, algumas pessoas não acreditam em Deus, mas todos temos fé em algo. Se eu quiser conversar com alguém sobre religião, vou começar lhes perguntando em que eles acreditam, o que os move, e depois, lentamente, você pode encontrar uma linguagem comum.

Em geral, as pessoas estão vivendo em uma dúvida permanente, e a dúvida e o questionamento são um sinal de inteligência. A inteligência tem algo a ver com a fé?

É uma tradição católica que a fé e a razão estão intimamente ligadas. Em meados do século XIX, tivemos um grande encontro em Roma, em que foi oficialmente declarado que parte da crença do catolicismo é que acreditamos na razão. A nossa fé pode ir além da razão, mas acreditamos que ela nunca é contra a razão. É por isso que o cristianismo fundou as universidades de Oxford, Cambridge, Paris, Bolonha, Madri. A nossa fé deve ser tão inteligente quanto o somos em outras áreas. Se você tem um ganhador do Prêmio Nobel, ele ou ela deve ter uma fé inteligente. Se você tem alguém que é simples e não intelectual, ele ou ela pode ter uma fé simples. A fé é tentar entender o sentido último do porquê estamos aqui, usando toda a nossa inteligência. Dizem que Tomás de Aquino, um dominicano da minha ordem, é o maior filósofo do Ocidente. A filosofia significa literalmente o amor pela sabedoria, e qualquer religião boa e saudável é sábia. Eu valorizo muito a inteligência e também a inteligência artística.

Mas como é que houve tantas guerras religiosas ao longo dos séculos?

A humanidade teve uma história de guerra, e, se você estiver em uma guerra, você usará tudo o que puder para vencê-la. Você usa o nacionalismo, você usa a religião. Não tenho certeza de que seja verdade que a religião é a raiz da guerra. Mais do que isso, os seres humanos tiveram uma cultura da violência por vários milhares de anos e usaram a religião na promoção dela para justificá-la.

A fé cristã busca a paz interior?

Isso é absolutamente crucial. Todos atravessamos vidas complexas, todos vivemos crises, conflitos e decepções. O crucial é se você tem a tranquilidade interior. Jesus disse: “Eu lhes dou a minha paz, não como o mundo a dá, mas eu lhes dou a minha paz”. No coração das nossas vidas, deve haver esse tipo de paz interior.

Você pode adquirir essa paz interior mediante exercícios?

Você precisa de postura, respiração e precisa de silêncio. Eu acho que o silêncio é muito importante. Em Israel, fundamos uma comunidade, um lugar de paz, que está a meio caminho entre um kibutz judeu, um vilarejo muçulmano e um vilarejo cristão. Nós a construímos em 1968, quando eu era um jovem estudante, e no centro está o que eles chamam de casa do silêncio. Então, todas as três religiões se reuniam para ficar em silêncio. Essa era a comunhão. Ela foi pensada para ser uma comunidade judaico-cristão-muçulmana. Com o nosso estilo de vida, nós temos que ter pelo menos meia hora de silêncio por dia. É a primeira coisa que você deve fazer de manhã.

Como você comunica a fé?

A primeira coisa a fazer é se envolver com pessoas criativas. Nós difundimos melhor a fé conversando com pessoas talentosas; os músicos, os poetas, os artistas, os cineastas. Se nos relacionarmos com eles, compartilharemos aquilo em que acreditamos, e eles vão compartilhar aquilo em que acreditam. Eu acho que existe uma ligação profunda entre a criatividade e o pensamento religioso. Um maravilhoso dominicano chamado Marie-Alain Couturier fundou uma revista chamada Le Sacré no início do século XX. Quando ele quis construir uma igreja, ele conseguiu que Le Corbusier desenhasse Notre Dame du Haut. Le Corbusier não era católico, mas Couturier disse: “Isso não importa. Ele é o melhor arquiteto”. E ele conseguiu também Georges Braque e todo o tipo de pessoas para participar.

O catolicismo é uma religião saudável hoje?

Eu sou um grande fã do Papa Francisco, que está fazendo coisas maravilhosas. Francisco está realmente impulsionando a Igreja de uma forma muito mais solta e menos centralizada. Algumas pessoas estão resistindo, particularmente alguns cardeais antigos, mas acho que Francisco a está liderando pelo caminho certo, rumo à liberdade e à espontaneidade. E ele está chegando a todo tipo de comunidades.

Você não acha que o mundo moderno merece uma religião moderna?

Eu acho que temos que ir além de pensar a santidade principalmente como obedecer a regras. A santidade é viver as virtudes, tornando-se virtuoso e forte. Eu não creio que haja uma nova religião, porque as antigas religiões se tornam novas.

Você acredita que haverá mudanças dentro das antigas religiões?

Rezemos pela amizade entre as religiões, e não pela rivalidade entre irmãos. O Papa Francisco tem uma linda citação de Santo Irineu, do século II, que diz: “Cristo vem até nós na novidade”. Se você olhar para as diferentes religiões, elas estão sempre evoluindo, estão sempre se adaptando e estão sempre se tornando novas. Às vezes, de forma negativa. O fundamentalismo islâmico é uma forma muito negativa de novidade. Mas sempre há evolução, sempre há mudança.

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