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Na escuridão e no silêncio, Gaza está morrendo

Do IHU, 11 Agosto 2017
Umberto De Giovannangeli, publicada por The Huffington Post, 09-08-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.


Nem sempre é possível verificar in loco a profundidade e solidez de um relatório.

Aconteceu-me em uma noite escura em Gaza. Uma noite feita silêncio sepulcral, de casas no escuro, de uma existência que reduz, na vida cotidiana, até mesmo o seu espaço vital. Depois dos refletores internacionais, na Faixa de Gaza também se apaga a luz. A escuridão é a dimensão do presente que se perpetua ao infinito. Gaza está morrendo, na indiferença geral. Simplesmente não é mais notícia.

No entanto, esta imensa prisão a céu aberto, isolada do mundo e posta de joelhos pelo embargo imposto por Israel há doze anos e nunca revogado, é um condensado de raiva e frustração que poderia voltar a explodir a qualquer momento. A política, com as lutas internas no campo palestino entre o Hamas e a Autoridade Nacional Palestina de Abu Mazen, por uma vez dá passagem à humanidade que exige ser ouvida nesse tórrido e escuro verão.

Gaza é escombros e ressentimento, dignidade e resistência. A presença armada do Hamas tornou-se mais rigorosa, opressora: é uma demonstração de força que serve para alertar a população contra possíveis revoltas e, ao mesmo tempo, é uma mensagem enviada aos grupos salafitas que ainda olham para o EI como o "veículo" de uma Jihad global implantada na Palestina. Às vezes, e esta é uma dessas ocasiões, o olho ajuda a perceber a essência do momento mais do que muitas declarações de líderes políticos em busca de consenso. E o olho percebe uma Gaza escurecida, dobrada, que pede contas ao mundo de um silêncio que se torna cúmplice de punições coletivas que não encontram legitimidade internacional na reivindicação de Israel de seu direito de defesa. Os únicos lampejos que perfuram a escuridão são os traçadores da artilharia israelense, que responde com o bombardeio no norte da Faixa ao lançamento de foguetes pelo Hamas contra a cidade fronteiriça de Ashkelon.

Nessa conjuntura, mais que analista tenho a sensação de ser uma testemunha ocular dos méritos do conteúdo do relatório da Oxfam que foi divulgado nos últimos dias. A população de Gaza enfrenta hoje uma crise energética pior da que ocorreu durante a guerra de 2014. Com o resultado de que hoje, cerca de 2 milhões de pessoas quase não têm nenhum acesso a serviços essenciais, como água corrente e serviços higiênicos, e muitos têm apenas à disposição duas horas de eletricidade por dia.

É o alarme que a Oxfam está lançando três anos depois da guerra que, em 50 dias, devastou a Faixa. Uma crise - iniciada há quatro meses - por causa das tensões que levaram ao corte por parte de Israel do fornecimento de 40% de eletricidade na Faixa, a pedido da própria Autoridade Nacional Palestina. Uma situação que, somada à escassez de combustível, à crise sanitária e salarial torna a vida impossível para a população de Gaza.

"A crise energética de Gaza mantém centenas de milhares de pessoas no limite da sobrevivência, devido às tensões entre as autoridades israelenses e palestinas - enfatiza Paolo Pezzati, assessor de política para as emergências humanitárias da Oxfam Itália.

Essa emergência precisa ser resolvida o mais rápido possível porque quem está pagando a conta é a população "presa" dentro da Faixa, que agora está seriamente ameaçada pela propagação de doenças causadas pela quase total falta de serviços higiênicos e sanitários. Depois da guerra, em 2014, 50% dos centros de tratamento de águas residuais não estavam mais funcionando. Hoje, não funciona mais nenhuma estação. Em agosto de 2014, 900.000 pessoas necessitavam de água e serviços de saneamento, hoje, esse número subiu para 2.000.000. Após a última guerra, 80% da população viviam com apenas quatro horas de eletricidade diária, hoje, a maioria da população tem apena 2 horas".

É isso aí. E quem pontifica e distribui votos de sua sala de estar climatizada e hiper-equipada, poderia muito bem compartilhar, nem que seja por um único dia, a experiência de ter que viver com duas horas de eletricidade em 24. Seria uma experiência valiosa. Tudo pára. Nada mais funciona. A vida estaciona. A de hoje nada mais é que a última fase de uma escalada, iniciada em 2006, com o bombardeio da única usina de Gaza, o que havia obrigado famílias e empresas a usar a eletricidade somente por oito horas diárias. A situação é, de fato, o resultado de 12 anos de bloqueio em Gaza, que está colocando em perigo inclusive a capacidade das organizações humanitárias como a Oxfam em socorrer a população.

"Não há projeto, entre tantos realizados pela Oxfam em Gaza, para levar à população água, serviços sanitários e sustentar os pequenos agricultores e o desenvolvimento econômico, que não tenha sido afetado pela falta de energia elétrica. - continua Pezzati - Sem eletricidade é impossível qualquer tentativa de retomada: não podem ser reativadas as centrais de dessalinização, os pescadores não podem conservar a própria mercadoria e os agricultores não podem irrigar. Quem está empenhado em projetos de informática não pode trabalhar e as empresas são obrigadas a fazer cortes de pessoal. Os custos econômicos e humanitários dessa crise são extremamente elevados".

Tudo isso no contexto de uma das áreas mais densamente povoadas do planeta, onde se registra a maior taxa de desemprego no mundo: mais de 43%.

"Mesmo sem a guerra, os palestinos em Gaza sofrem de emergências humanitárias que não dão trégua. - conclui Pezzati - É vergonhoso não ter agido e ter permitido que se chagasse a esse ponto, colocando ainda à prova os 2 milhões de pessoas, que já sofrem os efeitos de um bloqueio ilegal. Uma crise que se insere naquela – também gravíssima, que marca os cinquenta anos da ocupação israelense - que afeta todo o território ocupado palestino: aqui 2,3 milhões de homens, mulheres e crianças dependem agora da ajuda humanitária para sobreviver e 1,6 milhões não têm alimento suficiente".

Nos territórios palestinos, 27% da população está desempregada, a maioria mulheres, e uma pessoa em cada 4 vive na pobreza. Apenas em Jerusalém Oriental 75,4% dos residentes vivem com menos de US $ 2 por dia. Os olhos estão ligados ao coração: e verificar no campo das palavras da Oxfam provoca emoções fortes, indeléveis. Porque aqueles dois milhões são pessoas, não números, são histórias, rostos, esperanças, sofrimentos, sentimentos que permeiam uma população onde 54% estão abaixo de 18 anos de idade. São os Khaled, Mahmoud, Leilah, Hassam, e tantas crianças de Gaza dos quais, depois de ter roubado a infância, estão hipotecando também o futuro.

Mahmoud tem dez anos e na última guerra de Gaza viu morrer em seus braços sua pequena irmã Hanan, quatro anos, durante um bombardeio aéreo israelense. Um trauma incurável é também aquele vivido por Feisal, 8 anos de idade, o mais jovem de seis irmãos, que em outro bombardeio, dessa vez terrestre, do Tsahal, perdeu seus pais.

Nos olhos das crianças de Gaza se lê o medo, o pavor: aqueles olhos, tão lindos e destroçados, são uma denúncia que deixa a sua marca. Os novos cortes que limitam a energia elétrica afetam principalmente pessoas hospitalizadas e que precisam de uma máquina para viver. Durante as horas do blackout os residentes usam geradores privados, painéis solares e outras fontes a bateria. Mas somente aqueles que têm condições de pagar. Atualmente estima-se que 80% da população que vive em Gaza dependam da ajuda humanitária.

Em meados de julho, as Nações Unidas publicaram um relatório sobre o agravamento da situação humanitária na Faixa de Gaza. Fala-se que os aquíferos de Gaza poderiam se tornar inutilizáveis até o final do ano, fala-se das contínuas crises energéticas e sanitárias e do fato que mais da metade dos dois milhões de habitantes têm dificuldades em encontrar alimento. Os cortes de energia em Gaza, afirma a Oxfam, representam uma medida ilegal e punitiva contra toda uma população, razão pela qual a Oxfam pede que cesse imediatamente e que todas as partes envolvidas nessa crise garantam aos habitantes a restauração do abastecimento normal de eletricidade e combustível. É por isso que a Oxfam lançou nesses dias em parceria com as agências digitais palestinas – a campanha #LightsOnGaza, pedindo para garantir energia elétrica à população da Faixa. Diante de uma emergência humanitária dessa magnitude a Autoridade Nacional Palestina, as autoridades que de facto controlam Gaza e Israel, devem antes de tudo garantir a sobrevivência de Gaza e parar de usar a população como moeda de troca para a resolução de disputas políticas.

O padre Raed Abushalia, ex-diretor da Caritas Jerusalém que opera na Faixa de Gaza, relata que: "Desde 2006 o povo de Gaza está encerrado dentro da Faixa de 360 quilômetros quadrados, a maior prisão do mundo a céu aberto! Desde então não têm mais do que quatro ou seis horas de eletricidade por dia. Durante o verão é muito quente! Imaginem dois milhões de pessoas sem eletricidade; em Gaza só existe uma única estação de energia que não é suficiente para o fornecimento de eletricidade para toda a Faixa. Portanto recebem três linhas do Egito e seis linhas de eletricidade de Israel. Agora, essa nova medida de "punição coletiva" reduziu a quantidade de eletricidade fornecida pelo lado israelense com a desculpa de que as autoridades palestinas não pagam a conta. Mas quem sofre são os civis, que já são pobres e devem viver nessa situação que poderia realmente destruir, colocar de joelhos todo o sistema sanitário. Vocês precisam saber – continua o responsável pela Caritas - que não há alimentos; precisam saber que em Gaza, de acordo com o último relatório da ONU, 80% das famílias vivem abaixo da linha da pobreza. 46% da população de Gaza estão desempregados, e apesar de toda essa situação dramática continuam a colocar filhos no mundo. Quase cinco mil crianças nascem a cada mês! Isso significa mais de 55.000 crianças por ano. Uma resistência que eu chamo de "demográfica". Então imaginem toda essa população que precisa viver nessa situação, fechada na maior prisão do mundo. A situação é dramática e quem paga o preço são essas pobres pessoas.

As guerras, três nos últimos nove anos, além de deixar mortos, escombros e destruição já marcaram profundamente a parte mais vulnerável da população de Gaza: mulheres, idosos e, principalmente, crianças.

Estatísticas divulgadas por agências humanitárias internacionais inclusive estimam que existam mais de 350 mil crianças traumatizadas apenas pela guerra de 2014; 250 mil das quais vivem em condições de moradia inadequadas.

A quase totalidade das 950.000 crianças de Gaza sofre de sintomas psicológicos e comportamentais próprios do transtorno de estresse pós-traumático, que inclui agressividade, depressão, enurese, flashbacks e um apego psicóticos à mãe ou a um familiar. Ayesh Samour, diretor do único hospital psiquiátrico na Faixa de Gaza, explica: "Às crianças de Gaza foi negada uma infância normal por causa da insegurança e instabilidade de seu ambiente. E isso, não temporariamente. Uma cultura de violência e morte molda as suas mentes, tornando-os mais agressivos e com raiva". "A falta de medicamentos em Gaza - afirma Jehad Hessi, professor universitário e consultor do hospital 'Ahli Arab' - é outro dos graves problemas enfrentados em Gaza. Não dispomos dos 45% dos chamados medicamentos básicos. Não existe radioterapia, muitas vezes os pacientes com câncer começam um protocolo de atendimento que depois devem abandonar devido ao esgotamento dos medicamentos".

O responsável da ONU pelos assuntos humanitários, Robert Piper, declarou que Gaza é "invivível". Piper não exagerou, fotografou a realidade. A realidade desejada pelos homens e não imposta por um desastre natural. Gaza se apaga. No silêncio do mundo.

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