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Metá Metá: “Em nossa música, a aridez do Brasil”

Entrevistada em Portugal, banda fala das composições de improviso, da sensibilidade da música ao cenário social, da luta contra Temer e de junho de 2013



De Outras Palavras, 7 de Agosto, 2017
Por Nuno Ramos de Almeida, editor do Ionline


Metá Metá significa, em língua iorubá, “três em um”. Este trio que atuou no Festival Músicas do Mundo (FMM) 2017, na cidade portuguesa de Sines é uma das revelações da música brasileira
A entrevista começa com bom humor. Somos dois órgãos de comunicação a falar com os três elementos dos Metá Metá Juçara Marçal (voz), Kiko Dinucci (guitarra) e Thiago França (saxofone) ): o i e o site do país vizinho especializado em música Los Festivaleros. Perante este assédio jornalístico, Thiago França insiste em tirar uma fotografia para imortalizar o momento: “Temos que tirar uma foto, é a nossa primeira coletiva de imprensa.” Esta banda de São Paulo é uma das revelações da nova música brasileira. Vindos da área do jazz e com um domínio musical muito grande, o seu som foi-se tornando mais pesado e duro, sem nunca perder complexidade, com músicas fortes em que, apesar da força instrumental, a voz poderosa de Juçara Marçal não fica subjugada. Em vez disso, integra-se nesta batida forte, às vezes quase xamânica. Foram a banda que abriu as hostilidades no Festival Músicas do Mundo de 2017, no palco junto à praia Vasco da Gama, perante milhares de pessoas.Los Festivaleros – Como foi o vosso último disco “Metal Metal”, que vocês gravaram em três dias?Thiago França – As pessoas sempre frisam esse lance dos três dias.i – Provavelmente por serem três, como Metá Metá. [risos]Kiko Dinucci – Foi tudo muito calculado. [risos]

Thiago – Na verdade, quando se fala em três dias, não foi assim: “Ohhhh, foi gravado em três dias…” A gente aprendeu a gravar nesse tempo pela necessidade que temos como artistas independentes. A gente juntou o dinheiro, contou e viu: “Isso dá para fazer o quê? Dá para fazer em três dias.” Foi isso. O dinheirinho juntado de cachê e não sei do quê, e foi o que deu. A gente tem muito pouco recurso, então tem que entrar e resolver. Virou um formato, como se diz, legítimo de fazer. E tem que ver também como o nosso jeito de tocar que é um jeito intrínseco de fazer, a gente vai criando coisas que depende muito um do outro. Às vezes começa-se pela guitarra e eu, em cima do que o Kiko está a fazer, vou vendo o que vou fazer, vamos encontrando os encaixes, junto com a voz. É um processo que só funciona com a gente toda tocando junto. Tem outros estilos em que é possível ir gravando os instrumentos em separado sem ninguém se encontrar, mas isso não dava na nossa música. A gente até colabora em discos de pessoas que são gravados assim. Mas não são o Metá Metá.

i – Isso é a vossa herança do jazz e das jam sessions.

Thiago – Claro. Todos os discos de jazz foram gravados assim, você aperta o “rec” e toca como se estivesse no palco.

Juçara Marçal – A ideia é aproximar o que se grava ao máximo do que acontece no palco. Se você separasse os instrumentos, ficaria um outro resultado, igualmente válido, mas para o nosso jeito de fazer não funciona muito. A gente grava e faz quase tudo ao primeiro take.

Thiago – As músicas que têm muito improviso acabam de sair sempre de primeira, porque improviso é uma coisa que não dá para repetir. Quando fazíamos o segundo take não dava, já não tinha nada a ver. Em várias músicas, a gente começou a tocar um segundo take e parou no meio. E concluíamos, “relaxa, não vai rolar”, e ficávamos pelo primeiro take.

i – Há uma evolução nos vossos discos: a sonoridade parece mais dura.

Kiko – Exato. É a nossa vida. A vida dos brasileiros está mais dura e isso reflete-se na nossa música.

i – Quando pensa em Temer. a bateria bate mais forte [risos].

Kiko – Sempre que pensamos nele, a bateria bate com mais força. É engraçado, em alguns países em que o disco circulou na Europa, em que ninguém entendia as letras em português, quanto mais misturado com o iorubá, os críticos, sem entender a letra nem entender uma única palavra, definiam a letra como uma trilha sonora de um caos político brasileiro [risos]. E a gente: “Nossa, não sabia disso.” Mas é interessante que, de 2013 para cá, o nosso som foi ficando mais duro e panela de pressão. O que tem muito que ver com a situação do Brasil: em 2013 começou a crescer um negócio em que ninguém sabia o que ia dar. E ninguém sabe onde vai dar, pode ainda piorar. A gente tenta melhorar no som para compensar. Faz a coisa dura, mas a gente tem consciência que, às vezes, com um mau momento no país, crise económica, ditadura e golpe, os artistas tendem a ficar mais criativos.

Thiago – E tem o lado da nossa história ser muito mal contada. Mesmo em livros de História. O artista fica com uma aflição nesse sentido, se você vai deixar algo registado que seja algo que retrate um pouco o que está acontecendo. O momento político reflete-se em tudo. Não está apenas ligada à questão do voto. Mas tem implicações em toda a vida: a especulação imobiliária, o aumento de violência, muitas vezes gerada pelo desemprego, uma maior violência policial, tudo é condicionado pela política. Toda essa panela de pressão afeta a cidade, é muito difícil você ficar imune e dizer: “Não, vamos falar do arco-íris e dos dias tão bonitos que estão.”

i – Sente-se uma mudança mesmo a partir de 2013. Quando se ouve a música de Criolo Louco sobre as manifestações de junho de 2013, há uma certa esperança na melodia e na letra quando ele diz: “Vai, que eu quero encontrar este lugar/ E possa dizer: ‘valeu a pena essa porra de vez!’/ Vai ser assim, senhor.”

Kiko – Deu errado porque estava saindo muita gente para a rua sem saber o que estava fazendo. Tinha o movimento contra os aumentos nos transportes, essas pessoas apanharam muito da polícia, e essa violência gerou uma certa comoção na população e as pessoas saíram para a rua contra o aumento dos transportes. Só que no meio desse povo, as pessoas já começaram a gritar: “Fora a Dilma, fora tudo.”

Juçara – Uma luta meio sem foco.

Kiko – No meio da luta justa dos transportes, que era muito crucial no sofrimento dos brasileiros – toda a gente sofre com os transportes -, no momento que evitaram o aumento e ganharam a causa, o foco mudou. Ninguém sabia mais o que fazer. Invadiram o Congresso e a Dilma até teve uma reação boa, disse que ia apressar a reforma política. Mas logo depois da reeleição, ela foi boicotada pelo Congresso e não conseguiu nem sequer começar a reforma. Curioso que tinha uma embaixadora dos EUA, que estava no Paraguai quando foi lá o golpe, que rapidamente passou a ser colocada no Brasil. Quando aconteceu essa manifestação no Brasil, ela mudou para o Brasil correndo. Em 2014, pouco tempo depois, apareceu um movimento de extrema-direita, o MBL, a disputar as ruas.

i – A escolha do vosso nome usando a língua iorubá tem um significado político de resgatar parte das culturas indígenas e africanas que são mais invisíveis no Brasil?

Juçara – O iorubá está muito presente na religião que os descendentes de africanos trouxeram consigo, que é o candomblé, com os seus orixás. Os termos que vamos conhecendo são do iorubá e convivemos com esse linguajar e vamos descobrindo mais coisas. Inevitavelmente, isso vai influenciando a nossa música. Ela expressa também essas raízes africanas.

Kiko – A gente absorve muita coisa. Essa cultura iorubá está presente em muitas regiões do mundo: Haiti, Cuba, Porto Rico, Nigéria, e isso também se reflete na nossa música. A influência africana não vem apenas daí. Hoje é possível ver um cara tocar guitarra no deserto no YouTube, conhecer o trabalho de um músico a muitos milhares de quilómetros de São Paulo. A nossa música é permeável a uma cultura pop africana que não é a que veio com os negros para o Brasil.

Thiago – A nossa influência não é só essa. Há um mecanismo nosso que vai muito beber ao free jazz americano dos anos 70 também. Que também, coincidentemente, estava num momento de regressar à procura das raízes africanas. Os negros tinham perdido a conexão e estavam a sentir a necessidade de voltar a olhar para lá. Mas não são só influências históricas. A nossa própria vivência tem um papel. Há o ruído. Eu moro no centro de São Paulo e vivo permanentemente imerso em barulhos e ruídos, o tempo inteiro. Eu acordo com britadeira na minha janela e vou dormir com o camião do lixo na minha janela.

i – O free jazz também corresponde aos chamados anos de chumbo que foram a ressaca do Maio de 68. Esta vossa inspiração também se deve aos anos difíceis que se vivem hoje na América Latina?

Kiko – Pode ser isso, mas também pode ser mais. Quando se é músico e se começa, há um monte de gente que diz: “Você nunca vai ser o Tom Jobim”, “nunca vai ser tão bom como fulano”. Isso cria-nos a necessidade de procurar novos e outros caminhos. Muitas vezes, esse free jazz muito próximo da sonoridade do rock é uma forma de fugir da comparação. A melhor música feita no Brasil não é feita por músicos, mas por pessoas simples que cantam depois do trabalho. E isso é muito ignorado. Para nós, isso é uma fonte.

Los Festivaleros – E também a viagem que vocês fizeram a Marrocos influenciou bastante este último disco.

Juçara – Foi mais uma inspiração. Nós não fomos pesquisar. Mas as rádios de lá, os sons das ruas, os chamamentos à oração – cinco vezes por dia, os muezins entoavam esse chamamento -, davam uma tonalidade diferente que, de alguma forma, nos inspiraram a tentar outras coisas. Isso entrou no disco.

Kiko – Há um mistério e uma estranheza no ar. Mesmo nas pequenas coisas, como entrando no mercado e ver um cara fritando ovo. Há uma pilha de comida com óleo. A gente olhava para as coisas com olhos diferentes, de fora. Um ovo estrelado permitia-nos sentir outros sons.




Nuno Ramos de Almeida é jornalista português, editor-executivo do Jornal I (www.ionline.pt).

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