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Maringoni: O quadrinho do ano russo

Do Blog da Boitempo, 14 de Agosto, 2017
Por Gilberto Maringoni.


Gilberto Maringoni escreve sobre a premiada HQ "Laika", de Nick Abadzis, que chega ao Brasil pelo selo de quadrinhos da Boitempo, o "Barricada".

O Barricada, selo de quadrinhos da Boitempo, acaba de lançar Laika, de Nick Abadzis. O volume é quase inclassificável. Na forma, é uma novela ilustrada, com ritmo, pegada, roteiro veloz, diálogos exatos e desenhos fulgurantes. Quadrinho de gibi, como deve ser.

No conteúdo, é um livro sobre apegos, afetos e insistências. Coloca em cena pelo menos dois personagens reais diante de uma conjuntura global a afetar vidas e expectativas.

Da trama emerge um minucioso trabalho sobre escolhas, sobre a ligação entre a cadela mais conhecida da história e sua treinadora no programa espacial soviético, durante a vertigem da Guerra Fria. Surge aqui também o drama de um pioneiro da ciência que, à testa de um formidável investimento em inovação e tecnologia, muda a percepção da humanidade sobre o espaço que nos cerca.

Como pano de fundo, há a construção de um sonho de igualdade entrecortado pela aspereza de sua edificação concreta. O livro se chama Laika, mas poderia se denominar Korolióv. Pois Serguéi Pávlovitch Korolióv (1907-1966) foi um dos segredos mais bem guardados do programa espacial soviético, nos tempos em que a corrida à Lua era peça-chave nas disputas políticas orientais e ocidentais. Um gênio ucraniano que revolucionou a indústria de foguetes e colocou o primeiro satélite artificial e o primeiro cosmonauta – Iúri Gagárin – em órbita terrestre.

Perseguido, encarcerado e exilado nos anos de desespero da construção da URSS, Korolióv sobreviveu à prisão, ao exílio e a acusações estúpidas por reinventar o imaginário de seu tempo. Sua trajetória corre paralela à de Laika, no infindável debate sobre a manipulação de destinos individuais em conflitos coletivos.

Mas Laika não é um livro-tese nem nos coloca diante da exaltação oca das hagiografias povoadas de heróis unidimensionais. Fala de existências miúdas, de uma menina e de seu bichinho de estimação, de jornadas comuns e repetitivas e de uma relação de cumplicidade simbiótica entre aqueles que tatearam os limites do conhecimento e um animalzinho lançado ao infinito.

Laika, o todo, extrai daí seu impulso vital, do que é aparentemente acessório em premências universais e assim se faz incômodo e lírico, numa tensão a latejar na cabeça do leitor até bem depois de fechada a última página.

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Obra vencedora do Eisner Awards 2008

“Repleta de páthos e comoção.” – Kirkus Reviews

“Um destaque.” – Publishers Weekly

“Tenha lenços de papel à mão.” – School Library Journal
Onde encontrar?


Quadrinhos no Blog | Gostou? Leia também “Luis Gê em seis tempos” e “Uma das melhores HQs de todos os tempos“, de Gilberto Maringoni; “Surfista prateado“, sobre o quadrinho americano dos anos 60, “A rebeldia de Octobriana“, sobre a incrível personagem soviética de HQs e “O mundo louco de Basil Wolverton“, na coluna de Luiz Bernardo Pericás, no Blog da Boitempo!

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Gilberto Maringoni é doutor em História Social pela FFLCH-USP e professor adjunto de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É autor, entre outros, de A Revolução Venezuelana(Editora Unesp, 2009), Angelo Agostini: a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal – 1864-1910(Devir, 2011) e da introdução do romance O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura. Cartunista, ilustrou algumas capas de livros publicados pela Boitempo Editorial na Coleção Marx Engels, como o Manifesto comunista. Integra o conselho editorial do selo Barricada, de quadrinhos da Boitempo.

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