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Ela tinha de se esconder atrás de biombo para fazer ciência; veja histórias

Florence Bascom

Por André Carvalho
Do UOL, em São Paulo15 de Agosto, 2017


A história da ciência é repleta de personagens icônicos, que realizaram descobertas que influenciaram os rumos da humanidade. De Galileu a Stephen Hawking, os relatos feitos têm como protagonistas, na grande maioria dos casos, apenas homens. Algumas mulheres enfrentaram grandes barreiras de gênero para alcançar seu espaço no campo científico.

Nos Estados Unidos, uma geóloga tinha de se esconder atrás de biombos para poder frequentar as aulas de doutorado sem "incomodar seus colegas" no final do século 19.

Conheça algumas das histórias de mulheres cientistas que aparecem no livro "A história da ciência para quem tem pressa", de Nicola Chalton e Meredith MacArdle, da editora Valentina:
Florence Bascom (1862-1945), a geóloga que superou a barreira de gênero[ x ]

Primeira geóloga profissional dos Estados Unidos, Florence Bascom teve de superar o preconceito para se tornar uma autoridade científica em seu país --seu trabalho de mapeamento de formações rochosas formadas por cristalização nos EUA serviu de base para inúmeros estudos.

Após concluir o mestrado em geologia na Universidade Winconsin, em 1887, teve que deixar a instituição por conta de um professor que se opunha ao ensino misto. Bascom, então, foi à Universidade Johns Hopkins, em Maryland, fazer doutorado em petrologia.

Conseguiu o título de doutora, mas para isso foi necessário assistir às aulas atrás de um biombo, para que seus colegas não soubessem que estavam dividindo a classe com uma mulher.

Mesmo depois de formada, só pôde obter o diploma por meio de uma autorização especial. Bascom tornou-se mentora de toda uma geração de jovens geólogas.
Hipátia (c. 350/370 - 415), a filósofa que inventou o hidrômetro


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Filha de Téon de Alexandria, um renomado filósofo, astrônomo e matemático do século 4 da era Cristã, Hipátia seguiu os passos do pai, sendo considerada uma das mais eminentes filósofas neoplatônicas.

Estudou em Atenas e na cidade egípcia, tornando-se professora de filosofia e astronomia por volta do ano 400. É atribuída a ela a invenção do hidrômetro, instrumento utilizada para medir a densidade relativa e o peso dos líquidos. Hipátia era, ainda, matemática, sendo considerada exímia na solução de problemas matemáticos.

Adepta de hábitos incomuns para a época, a filósofa neoplatônica se recusava a vestir trajes femininos, preferindo usar a toga dos mestres. Seu fim de vida foi trágico, assassinada por uma turba de cristãos, que a acusavam de ter estimulado um conflito entre duas figuras locais proeminentes, o governador Orestes e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria.
Marie Curie (1867-1934), a única pessoa a ganhar o Nobel em duas áreas científicas diferentes

Reprodução/Reddit



Marie Curie foi a primeira mulher a vencer um prêmio Nobel de Física, em 1903, voltando a conquistá-lo oito anos depois, na área de química --até hoje, é a única pessoa a ter sido laureada com o prêmio em duas áreas científicas diferentes.

Seus estudos, que a levaram a obter as importantes condecorações, foram pioneiros no ramo da radioatividade.

O primeiro Nobel, conquistado ao lado de seu marido, Pierre, e do cientista Henri Becquerel, foi fruto de suas pesquisas sobre radiação na área da física. Já o Nobel em química se deu em decorrência da descoberta do rádio e do polônio.

Suas pesquisas na utilização terapêutica de substâncias radioativas foram fundamentais para o desenvolvimento do emprego de raios-X na medicina. Apesar de sua proeminência na área científica, porém, teve que enfrentar o forte machismo de seu tempo, não tendo sido eleita, por exemplo, para a Academia Francesa de Ciências.
Susan Jocelyn Bell (1943), a cientista que foi impedida de receber o Nobel


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astrofísica britânica Susan Jocelyn Bell era uma estudante de pós-graduação e fazia uma observação de quasares (buracos negros super-maciços cercado por uma estrutura de gás em forma de espiral) em um terreno baldio, próxima à Universidade de Cambridge, utilizando uma antena rudimentar feita com fios estendidos em estacas, quando constatou fracos, porém, constantes, pulsos de radiofrequência vindo do espaço.

A princípio, os pesquisadores que participavam junto de Bell da pesquisa, aventaram a possibilidade de se tratarem de seres extra-terrestres em busca de contato com habitantes da Terra. Constatou-se posteriormente, porém, que os pulsos vinham de estrelas de pequenas e densas estrelas de nêutrons, que viriam a ser chamadas de pulsares.

A descoberta rendeu à equipe que realizou a pesquisa, que incluía, além da britânica, os cientistas Antony Hewish e Martin Ryle, o Prêmio Nobel de Física de 1974. Por ser estudante, contudo, Bell não recebeu o prêmio, gerando indignação no meio científico da época.
Barbara McClintock (1902-1992), a botânica que mudou a história da genética

Reprodução/Profiles in Science - National Institutes of Health

botânica norte-americana Barbara McClintock, ao estudar o material genético do milho nos anos 1940, comparando os cromossomos dos progenitores e dos descendentes destas plantas, notou que partes deles podiam mudar de posição.

As pesquisas dela mostraram que alterações na estrutura de cromossomos podem ser responsáveis por doenças, incluindo o câncer, já que elas afetam as instruções armazenadas nas células que regulam o desenvolvimento e o funcionamento do organismo.

Considerada uma das mais importantes figuras da história da genética, McClintock recebeu o Nobel de Medicina de 1983 pela descoberta dos elementos genéticos móveis, que causam o fenômeno conhecido como transposição genética.
Rachel Carson (1907-1964), uma pioneira no ativismo do movimento ecológico

Flickr

norte-americana Rachel Carson, após estudar zoologia e ter atuado na Agência de Preservação da Vida Selvagem e Marinha, interrompeu a carreira profissional para escrever "Primavera Silenciosa", livro publicado em 1962.

A publicação, que trata sobre os efeitos nocivos dos pesticidas à natureza e às fontes de alimentação humana, é considerado um manifesto, que inspirou toda uma geração de ativistas do movimento ecológico --à época, a descoberta de que 'avanços científicos' pudessem prejudicar o ambiente foi um choque para muitos.

Em 1963, uma comissão federal norte-americana, motivada pelo livro de Carson, pediu a realização de pesquisas sobre possíveis riscos à saúde pelo uso indiscriminado de pesticidas.

Os estudos da cientista também serviram de fonte de inspiração para a criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, em 1970

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