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Bresser-Pereira propõe bases para novo desenvolvimento. Quem é o interlocutor?

Economista acredita que "falta teoria" do lado desenvolvimentista para buscar modelo com responsabilidade fiscal, produtivo e distribuidor de renda. Sindicalista questiona com quem fazer esse acordo

da RBA publicado 15/08/2017
por Vitor Nuzzi


Bresser-Pereira (de pé) observou que os empresários foram sendo substituídos pelo financistas e rentistas

São Paulo – Em um capitalismo de rentistas e de "liberalismo radical", trabalhadores e empresários industriais estão excluídos, diz o economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, para quem trabalhadores e empresários industriais devem buscar um novo projeto de país, produtor e distribuidor de renda. Durante debate na manhã de hoje (15) no Dieese, sobre a indústria brasileira, ele comentou que "falta teoria" aos trabalhadores e mesmo aos desenvolvimentistas. Se é necessário retomar a busca de um entendimento com o setor produtivo, a dúvida é sobre qual seria o interlocutor, em um momento que representantes da indústria se envolveram no impeachment e no processo de reformas.

"Mais que pensar num projeto industrial, temos de pensar o país", disse o assessor da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM-CUT) José Lopez Feijóo. "A pergunta é: com quem nós dialogamos do lado de lá? Com quem você vê esse grande acordo nacional? Com a CNI (Confederação Nacional da Indústria), que escreveu a reforma trabalhista?", questionou. "Central hoje é recuperar uma ideia de nação, o papel do Estado", acrescenta a economista Marilane Oliveira Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) e do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para ela, é preciso inicialmente reverter projetos aprovados no período recente, como a emenda que limita gastos públicos, a "reforma" trabalhista e a lei da terceirização. "Sem isso, é muito difícil discutir política industrial. Ela avalia que um dos equívocos do período imediatamente anterior foi acreditar ser possível conciliar interesses muito diferentes. Durante algum tempo, diz, isso foi possível porque a economia estava crescendo. "Um dos equívocos foi não disputar o Estado", afirma Marilane.

Em projeto de elaboração de um livro que deverá se chamar Nação, Estado e Desenvolvimento, Bresser-Pereira observa que os empresários foram sendo substituídos pelo financistas e pelos rentistas, dando vez à tecnocracia. "Com quem nos aliamos? Precisamos reconstruir a nossa classe empresarial", diz. Se a opção é pela inserção à economia mundial, há duas formas de fazer isso, segundo ele: de forma subordinada ou competitiva. "O nacionalismo dos anos 50 defendia a proteção da indústria nacional. Hoje, o ideal é que tenhamos igualdade de condições de competição."

Segundo o economista, os modelos teóricos ainda se baseiam em Keynes, dos anos 1930, e em Celso Furtado, dos anos 1950 – nesse segundo caso, importante para o pensamento econômico brasileiro, mas uma teoria feita para um país pré-industrial. "Hoje, o Brasil é um país industrializado, em acelerado processo de desindustrialização", afirma Bresser-Pereira, autor do chamado Projeto Brasil Nação, que considera uma "semi-estagnação" desde a década de 1990 e com séria recessão a partir de 2014.

As metas de seu projeto consideram cinco premissas: responsabilidade fiscal ("Não se resolve os problemas do Brasil aumentando a despesa pública, é um keynesianismo vulgar, que não leva a coisa nenhuma"), taxa real de juros em torno de 2% (a atual está em aproximadamente 6%), taxa de câmbio competitiva (ele fala em R$ 4), recuperação da capacidade de investimento do Estado e distribuição de renda. "A melhor coisa do governo Lula foi quando ele aumento o salário mínimo em termos reais. Isso teve um efeito distributivo importante", afirma.

Faltou, para Bresser-Pereira, pensar em um sistema tributário progressivo. "A esquerda esqueceu disso." O economista também acredita que manter uma política de déficit de conta corrente é uma receita "para mantermos o subdesenvolvimento brasileiro".
Desmonte

Para a pesquisadora da Unicamp, três décadas de globalização romperam as cadeias produtivas e desestruturaram setores inteiros da indústria, em um crescente processo de financeirização da economia e o desafio de enfrentar "um capital cada vez mais internacionalizado e rentista", com empresas nas mãos de fundos de investimento e de pensão e redução de investimentos de empresas estatais. "Com o desmonte da Petrobras, a gente perde um setor fundamental pera retomar os investimentos", diz Marilane.

Ela vê "certa exaustão" no modelo de consumo/crédito, com alta do endividamento familiar. "Que mercado de consumo se espera no próximo período, quando as formas de contratação vão se multiplicar? A gente precisa repensar nossa matriz de produção, de consumo."

Segundo o presidente da Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil (Fitmetal), Marcelino da Rocha, este ano o setor industrial deverá fechar com 9% de participação no Produto Interno Bruto (PIB), que chegou a ser de quase 30%. "O Brasil se transformou numa banca de feira de negócios. Estamos sendo fatiados, leiloados e entregues", afirmou, enfatizando a importância da unidade das centrais. Com integrantes da CTB e da CSB, a Fitmetal, criada em 2010, foi uma das organizadoras do debate, ao lado de CSP-Conlutas, CUT (CNM) e Força Sindical (CNTM).

Membro da direção da CSP-Conlutas e do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, no interior paulista, Alex da Silva Gomes, o Cabelo, destaca as mudanças nas relações de produção e na composição das empresas. Cita o exemplo da Embraer, privatizada e posteriormente desnacionalizada. "Na nossa opinião, é muito difícil compor um plano de desenvolvimento nacional com os patrões", afirma.

O secretário de Política Sindical da CNM-CUT, Loricardo de Oliveira, relata dificuldades nessa discussão, na medida em que os trabalhadores, por exemplo, defendem uma política de conteúdo local, enquanto muitos empresários querem apenas atrair capital externo. "Não temos dúvida que o Estado é o propulsor da economia", diz, lembrando que os metalúrgicos estão desenvolvendo um instituto para discutir coletivamente e formular propostas para o setor industrial.

O secretário-geral da Força, João Carlos Gonçalves, o Juruna, afirma que o debate já se insere no processo eleitoral de 2018. Considerando não ser possível formar uma chapa só de esquerda, ele defende buscar alianças com setores "que são prejudicados pelo sistema financeiro, que possam fazer com a gente um projeto de nação".

Bresser-Pereira acredita que é possível construir um pacto político sob um projeto de industrialização. "Só uma nação forte, capaz de saber o que quer e para onde vai, é capaz de produzir desenvolvimento econômico", afirma o ex-ministro, que disse ter ficado surpreso, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, pelo "desinteresse" em relação à ideia de nação.

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