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"Apocalypto": como explicar o fim da civilização maia?,

Do GGN, 04 de Agosto, 2017por Wilson Ferreira


Muitas vezes encontramos verdades no pensamento conservador. Apenas que elas estão invertidas. Um exemplo é “Apocalypto” (2006). Dirigido por um conservador assumido, o ator Mel Gibson, o filme quer mostrar como foi possível a civilização maia, que alcançou sofisticado conhecimento em Astronomia, Matemática, Artes e Arquitetura, ter se extinguido muito tempo antes da chegada dos espanhóis na América. A hipótese mais aceita é a ecológica (esgotamento dos recursos naturais e mudanças climáticas), que o filme partilha ao acompanhar um protagonista que teve sua tribo destruída e levado prisioneiro para a capital maia para sacrifício em um ritual sangrento para entreter as massas. Na capital maia encontramos seca e doenças. A ignorância e amoralidade poderiam ter levado à decadência. Mas também a dominação e escravidão. Luta de classes custa caro e pode exaurir uma sociedade. Esse é o surpreendente viés aberto por Mel Gibson a partir de um pressuposto conservador em “Apocalypto”.

No livro Antropologia do Cinema (Brasiliense, 1987), a certa altura o pesquisador italiano Massimo Canevacci afirma que muitas vezes encontramos verdades na Direita. Apenas que estas apresentam-se invertidas. Canevacci faz alusão ao método de Marx de inverter o idealismo hegeliano, para coloca-los com os pés no chão – o materialismo histórico.

Pelo menos no caso do diretor e ator Mel Gibson, parece ser verdade. Gibson, um conservador católico declarado e filho de um notório negador do Holocausto (Hutton Gibson), foi duramente criticado pelo filme A Paixão de Cristo (2004) por se tratar supostamente de um filme religioso “antissemita” e “extremamente brutal”.

O filme posterior, Apocalypto (2006), já inicia com uma epígrafe do historiador conservador norte-americano Will Durant: “Uma grande civilização não pode ser conquistada por fora, antes de ser destruída por dentro”. Ao lado de outro historiador, Leo Strauss, são pesquisadores cujas ideias foram associadas à política externa neoconservadora da Era Bush, cujas obras combatiam o relativismo multiculturalista da antropologia.

Isto é, através de um Direito Natural, encontrar uma referencia filosófica que permita juízos sobre culturas diversas no tempo e no espaço – logicamente, a supremacia do “juízo” da democracia norte-americana sobre todas as outras culturas e países. Ou seja, o Direto Natural se sobrepondo ao Direito Positivo: a busca daquilo que é universalmente correto e justo, acima das regras e normas vigentes em um país ou cultura.
Uma história universal

Em Apocalypto, Gibson quer narrar uma história supostamente universal: o final de uma civilização – as guerra frequentes entre tribos e cidades-estado, o desespero das elites por colheitas prósperas e o sacrifício serial de corpos e cabeças decepadas como sangrentos rituais para aplacar a fúria do Deus Sol. E por fim, a chegada das caravelas dos conquistadores espanhóis no século XVI, para encontrar uma cultura já devastada e submetê-la.



Como uma civilização conhecida pelos avançados conhecimentos astronômicos, matemáticos e arquitetônicos foi capaz de se autodestruir? Para Gibson, acompanhando a epígrafe de Durant, o grande responsável foram os excessos de uma civilização que quando chegou ao ápice, esgotou os recursos naturais ao mesmo tempo em que se apegava a deuses pagãos para justificar a violência e a dominação. Isto é, por não respeitar os verdadeiros valores universais que fundamentariam uma sociedade.

Gibson, assim como Durant, aborda um tema universal: porque as civilizações crescem, chegam ao ápice, para depois decaírem? Mas a resposta é invertida, idealista e moralista: a culpa são os “valores”, ou melhor, a falta deles.

Apocalypto aborda essa indagação em uma narrativa altamente convencional, no clássico clichê do que melhor o cinema norte-americano faz: filmes de perseguição - de carros, aviões, trens e, no caso desse filme, a pé, correndo pelas selvas da América Central.

Porém, mesmo nessa narrativa simplista igual a centenas de filmes hollywoodianos, a virtude do roteiro assinado por Gibson e Farhad Safinia é explorar argumentos que permitem reverter e “colocar os pés no chão” essa visão moralista e conservadora: mais do que desrespeito a valores morais universais e humanistas, a civilização maia criou uma perversa estrutura social que se autoconsumiu pela dominação, exploração e escravidão.

Também igualmente interessante é o viés gnóstico da reversibilidade simbólica do Mal que caracterizaria a evolução humana: como o avançado conhecimento científico, estético e teológico de uma civilização se reverteu no seu oposto – obscurantismo, violência, guerras e, no final, autodestruição.



O Filme

Apocalypto foi filmado em uma escala épica em selvas verdadeiras e ruínas maias reais da América Central.

Se em A Paixão de Cristo os personagens falavam o aramaico bíblico, em Apocalypto todas as linhas de diálogo são faladas em um dialeto maia com legendas em inglês, e com um grupo de atores desconhecidos. Pelo menos para o grande público dos filmes hollywoodianos.

O filme acompanha um jovem chamado Pata-de-Jaguar (Rudy Youngblood), membro de uma tribo pacífica que vive em harmonia com a selva, cuja aldeia repentinamente é atacada por um grupo fortemente armado de guerreiros maias. Eles matam e estupram indiscriminadamente, incendiando toda a aldeia. Os sobreviventes são feitos prisioneiros para serem levados como escravos.

Pata-de-Jaguar ainda tem tempo de esconder sua esposa grávida e seu pequeno filho em um buraco, livrando-os da chacina. Mas ele também é feito prisioneiro e condenado a marchar junto com os outros em direção à capital maia.

Depois de uma sofrida e perigosa caminhada, chegam à metrópole para encontrar uma civilização em plena decadência: as plantações dizimadas pela seca, doenças, centenas de crianças órfãs e miseráveis, e milhares de escravos revestidos de pó construindo novos templos e edificações em cenas que mais parecem as célebres imagens de mineiros do fotógrafo Sebastião Salgado.

E, claro, uma elite que se refastela na opulência com seus pequenos filhos obesos e mulheres cercadas de joias e adereços.

Lá, o grupo de Pata-de-Jaguar descobre que não serão escravos – são escolhidos para um sangrento ritual de oferendas de corpos, cabeças decepadas e corações arrancados por sacerdotes, para serem jogados escadaria abaixo de uma alta pirâmide como forma de aplacar a ira do Deus Sol e fazer a chuva e as fartas colheitas voltarem.



Na verdade, um espetáculo para manter as massas entretidas – milhares de pessoas embaixo assistem, regozijando-se a cada cabeça que rola pelas escadarias.
O melhor de Hollywood: filmes de perseguição

Pata-de-Jaguar só pensa em uma coisa: fugir para resgatar sua família, presa no profundo buraco sob o risco de animais e intempéries.

Depois disso, a narrativa de Apocalypto incorre naquilo que melhor Hollywood faz: as perseguições: Pata-de-Jaguar foge pela floresta com um grupo de guerreiros no seu encalço com sede de vingança – antes de escapar, o fugitivo matou o filho do líder dos guerreiros.

Na perseguição temos todos os clichês de filmes como Rambo, O Predador e congêneres, com direito ainda a uma alusão a Apocalipse Now: Pata-de-Jaguar emergindo de um pântano de areia movediça lembrando o atávico assassino da selva de Martin Sheen.


Vídeos

"Apocalypto" (Mel Gibson, 2006) - trailer

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