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Grupos independentes apontam para reorganização da esquerda, diz filósofo

Do IHU, 03 Julho 2017Por Ana Luiza Albuquerque, publicada por Folha de S. Paulo


Iniciativas independentes e pequenos novos grupos apontam para uma forma positiva de reorganização da esquerda, afirma Ruy Fausto, professor emérito da USP e doutor em filosofia pela Universidade Paris I.

Fausto critica a idealização do PT e fala sobre sua perspectiva eleitoral. "Não creio que o melhor candidato seja o Lula, embora espere que ele não seja condenado e que possa concorrer."

Nesta segunda (3), ele lança o livro "Caminhos da Esquerda", uma extensão de artigo publicado na revista "Piauí" em 2016, em que analisa os erros e propõe um novo trajeto da esquerda no país.

Eis a entrevista.


Qual caminho a esquerda precisa seguir?

Um dos pontos principais é a exigência democrática. A gente precisa de democracia. Mesmo uma democracia deformada é um ponto de partida e é preciso preservar. Eu tenho algum medo de uma ruptura do processo democrático, não sei o que a extrema-direita trama. A esquerda se acostumou com a ideia de que quanto mais democrático, menos anticapitalista você é. Queria uma outra junção: ser muito democrata e muito crítico do capitalismo.

A mesma coisa com o populismo. Se supõe que fazer a crítica do populismo, da desonestidade administrativa, implica esquecer a crítica do capitalismo. Dizem que quem faz a crítica da corrupção é a direita – isso é um engano. Somos nós que temos o maior interesse possível em um Estado que funcione 100%.

O que estou propondo é redefinir esquerda e direita. Se organizar esse discurso e tiver clareza a respeito disso, a gente ganha setores importantes. Sem essa clareza, não conseguimos fazer o trabalho com a massa. Se tivermos a massa e contarmos que é uma beleza a Venezuela, Cuba, isso só atrapalha.

A reconstrução da esquerda que o senhor fala exclui o ex-presidente Lula?

Não exclui de jeito nenhum, mas deixa de pôr o Lula no centro do universo. Não há por que idealizar o PT, essa espécie de fetichização dos dirigentes partidários é um absurdo. Os partidos podem ser alavancas e podem ser freios. Não creio que devemos pôr as fichas nesse partido e nem que o melhor candidato seja o Lula, embora espere que ele não seja condenado e que possa ser candidato.

Não é para jogar fora [o PT], eles fizeram muitas coisas importantes, uma política de redistribuição... Houve uma espécie de aliança de classes que, conforme a condição, poderia até ser aceitado. Não houve autoritarismo do tipo chavista, peronista.

O pior ali foi a corrupção. Eles se recusam a reconhecer isso tudo. O que existe de fetichização de partidos e dirigentes nos meios intelectuais me assusta. O pessoal se recusa a pensar por conta própria porque acha que quem pensa são os dirigentes do partido.

O sr. propõe dissociar a esquerda dos governos que se disseram representativos dela, mas que não teriam seguido sua ideologia. Uma teoria que nunca foi posta em prática não entra no terreno da fé?

Não é uma questão de fé. Toda opção política implica uma decisão, que não vem simplesmente da leitura do que se passa – é muito pensada. Houve grandes deformações da esquerda, algumas notórias, como o stalinismo e o leninismo. Isso custou milhões de mortos, não foi brincadeira. É evidente que a esquerda tem que se dissociar disso, é preciso levar até o final essa crítica.

Por outro lado tem a questão do populismo, que é mais complicada. Há muita ilusão a respeito do chavismo, que levou a uma catástrofe na Venezuela. Vemos gente qualificada fazendo elogios, ouvimos enormidades do tipo "o PT poderia ter ido pelo menos até onde foi o Chávez [Hugo, ex-presidente da Venezuela]". Isso seria um desastre.

Para os pós-modernos, a queda do Muro de Berlim representou o fim da história. A esquerda mundial conseguiu recuperar o otimismo em algum momento nas décadas posteriores?

A queda do muro foi uma boa coisa. Aquilo era um peso para a esquerda, um governo despótico, antidemocrático, uma regressão histórica. O certo é não reivindicar aquilo. Se a direita ataca tanto, é porque a esquerda não foi capaz de definir bem o que foi a queda do muro. Tem todos os viúvos, mas foi ótimo o que aconteceu. O que veio depois é difícil, complicado, mas pelo menos agora temos condições para lutar.

O senhor escreveu o artigo [que baseou o livro] em outubro do ano passado. Oito meses depois, a esquerda ganhou alguma perspectiva ou está tão perdida quanto antes?

Houve bastante mobilização da esquerda, apesar de tudo. Tem muita confusão, mas existe gente buscando uma saída. Muitos jovens pensando, gente de boa vontade. Não estou muito pessimista, não. Às vezes faço lista das pessoas de esquerda que poderiam ajudar, é gente muito qualificada.

Eles [a direita] ganharam o impeachment [da ex-presidente Dilma Rousseff], mas ganharam mal porque houve resistência. O impeachment foi um desastre, quaisquer que tenham sido os erros da Dilma. A direita e a extrema direita levantaram a cabeça.

Houve um momento de muita pressão deles, hoje está um pouco mais controlado. Em parte porque a esquerda se movimentou, em parte porque eles se desmoralizaram quando apareceu a corrupção como uma coisa geral.

Como a esquerda pode trazer para si a massa que despertou para a política em 2013?

Não vou dar fórmulas gerais, mas a primeira coisa é não perder de vista o trabalho da classe média. É preciso encontrar a linguagem para se dirigir a eles. A campanha do Freixo [Marcelo, segundo lugar nas eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro em 2016], por exemplo, me contaram que teve muita qualidade, não teve demagogia, mas que não atingiu o eleitorado do Crivella [Marcelo, prefeito do Rio], não se dirigiu a essa gente. É preciso conversar.

Depois, que relação ter com essa base. Não podemos idealizar a massa, achar que a solução é essa. A massa tem de tudo, tem muita confusão, às vezes muita violência. Ao mesmo tempo, não se pode incutir doutrinas. Às vezes a base é que tem razão.

A esquerda consegue se reconstruir a tempo de disputar 2018?

A esquerda está se mexendo. Vai se organizar até lá? Não posso dizer, mas teríamos que fazer o melhor possível, pôr clareza o quanto a gente puder. Vejo o meu livro como uma pedrinha nisso, uma contribuição. É a minha tentativa de situar o problema num plano mais geral.

Haverá um problema de encontrar candidatos, é difícil prever. O que espero é que haja essa eleição e que se chegue a alguma solução, mesmo que a esquerda perca. A direita joga muito com a história do não político, com o Doria [João, prefeito de São Paulo], o Macron [Emmanuel, presidente da França]. Não vai ser muito fácil.

Há um dado muito sério que é o crescimento do Bolsonaro [Jair, deputado federal, com 16% das intenções de voto para presidente]. Tem que denunciar essa história, estudar o fenômeno e como vamos enfrentar.

Temos pelo menos dois novos partidos liberais no cenário nacional: o Novo e o Livres. O que falta para a esquerda se organizar dentro da política?

Vai surgir um novo partido? Acho difícil. Por hora é se mobilizar, discutir com o pessoal. De imediato penso em estruturas em que entra muita gente independente e gente do PTe do PSOL. Pegar os melhores do PSOL, o Freixo, por exemplo, e os melhores do PT, o Fernando Haddad, o Tarso Genro... tipos condenados pelo PT atualmente. Fazer reuniões, explorar os contatos... É o que se pode fazer agora. Vai ter que se chegar à ideia de um candidato, mas não dá para prever. Esses pequenos grupos se organizando já acho muito positivo.

Pensando na forma que a política é organizada hoje, com as campanhas milionárias, o fisiologismo, o clientelismo, é provável que um partido governe o Brasil de forma ética?

Há uma ideia que domina muito hoje que chamei de a miragem do negativo. É a necessidade de usar de métodos ilegítimos de governar. O papo que vem do PT é muito esse. No fundo é o "rouba, mas faz". Não quero dizer que a política é toda racional, que não vai haver retórica, alianças. Precisa apelar para os afetos, é verdade, mas a partir de um discurso que é justo. Minta o menos que você puder, jogue o jogo mais limpo e isso vai muito longe. Pode fazer alianças, mas definir o tipo, com a exigência de não-corrupção e de democracia.

É possível ter um partido de esquerda e que seja ético. Isso significa que não vai ter nenhum pilantra? Não, vai aparecer, mas a perspectiva tem que ser reprimir esse tipo de coisa. Você muda a política, faz outra política. Ou somos capazes de enfrentar isso ou é melhor não pensar em partido e coisa nenhuma.

A Lava Jato pode servir como um freio à corrupção a partir de agora?

Não sou contra a Lava Jato, a princípio sou favorável. Era corrupção em um nível que não sabíamos. Só serei contra se acabar dando numa ditadura militar. Há três perigos grandes. A extrema-direita, que utiliza a Lava Jato pensando em golpe, a direita que também usa, sem que a Lava Jato seja da direita, e a húbris dos próprios juízes, que vão, prendem, pegam o Lula para depor...

Tenho um pouco de medo do que possa acontecer, há muita confusão, uma espécie de vazio. Tenho receio da extrema direita nessa história, mas é absolutamente errada a perspectiva daqueles que recusam a luta contra a corrupção, achando que é coisa da direita. Temos que apoiar todas as iniciativas contra a corrupção. Levou muito tempo, mas o Aécio [Neves, senador] e o Serra [José, senador] apareceram também.

O senhor diz que a esquerda precisa construir um projeto de bem-estar social, o que pressupõe investimentos do Estado, no caminho contrário da PEC do teto. Como recuperar a arrecadação e viabilizar esses gastos em um cenário de desaceleração econômica?

Precisaria muito da ajuda dos economistas críticos. Primeira coisa é rever a legislação fiscal brasileira. Eles inventam essa história de que o imposto é muito alto. É alto para quem? O imposto sobre a herança é baixíssimo. E tem um trabalho contra a corrupção que se for simétrico deve ajudar também.

É possível que seja preciso fazer reformas, mas que não sejam contrarreformas. A situação do povo é muito ruim, não há como limitar os gastos de saúde, educação, e as garantias todas. Tem que mexer em outras coisas. Evidente que isso tem que ser feito no lápis. A ortodoxia econômica passa por cima disso tudo, não considera os fatos sociais e a desigualdade brutal do Brasil. É importante formar muita gente de esquerda em economia para fazer a crítica. A economia oficial está aí, fala alto e tenta se impor.

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