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“Estamos rumo a um sistema onde trabalho duro e o talento não são premiados”, afirma Guy Standing

Do IHU, 11 Julho 2017
O economista britânico concedeu entrevista à Luís Pellicer, publicada por El País


Passaram-se seis anos desde que Guy Standing, economista da Universidade de Londres, cunhou o termo precariado, uma combinação do adjetivo “precário” e do substantivo “proletariado”, que identifica uma classe emergente em todo o mundo, composta por pessoas que levam uma vida de insegurança, sem empregos permanentes, garantias trabalhistas, normalmente fazendo trabalhos que não garantem dignidade ou satisfação pessoal.

Em seu novo livro, The Corruption of Capitalism: Why Rentiers Thrive and Work Does Not Pay (A corrupção do capitalismo: Por que rentistas prosperam e o trabalho não recompensa), Standing aborda os motivos que ao longo das últimas três décadas afundaram as condições de trabalho e de vida de uma geração. 

Eis a entrevista.

Por que houve essa concentração da riqueza na elite?

A política econômica dos anos 1980 e 1990 tinha como objetivo criar mercados livres, mas, em vez disso, criou um sistema rentista baseado nos direitos privados da propriedade. O capitalismo rentista nos afastou dos mercados livres, de forma que os proprietários de capital – físico, financeiro e intelectual – estão extraindo rendas do resto da economia e da sociedade. Os mercados não são livres, isso é mentira. Estamos indo rumo a um sistema em que o trabalho duro e o talento não são premiados. Existem cérebros brilhantes no precariado, e por outro lado pessoas sem talento que ganham milhões.

A crise acentuou a desigualdade?

Desde os anos 1980 temos vivido uma transformação global idealizada por economistas neoliberais e impulsionada por políticos como Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Nesse período começou o grande crescimento da desigualdade. Até então, o equilíbrio entre capital e trabalho se mantinha estável a longo prazo. Era parte do consenso social. Isso foi rompido. As corporações plutocráticas [plutocracia: exercício do poder ou do governo pelas classes mais abastadas da sociedade] veem como sua parcela aumenta, mas entre os assalariados também as elites se distanciam dos debaixo, que se tornam o precariado. Nos EUA os salários hoje são mais baixos do que há 30 anos.

E como o precariado compensa essa diferença?

Tenta endividar-se para manter o padrão de vida do passado. E isso interessa ao capital financeiro, porque pode seguir extraindo renda. Então começaram a crescer as carteiras financeiras de quem não produzia bens e serviços, mas que fazia dinheiro de dinheiro.

Como explicar a crise da social-democracia neste contexto?

Os sociais-democratas foram a força dominante no século XX. A meu juízo, isso se truncou com a Terceira Via de [Tony] Blair e [Bill] Clinton. Adotaram as políticas neoliberais e se focaram apenas na redução da pobreza, mas perderam a agenda da solidariedade e ação coletiva. Ali se apagou a diferença com os conservadores e a legitimidade ante o crescente precariado. Ficaram sem uma oferta atrativa para eles. Digo sem nenhum prazer, uma vez que sou de esquerda. Tenho amigos no Podemos e em outros partidos, por exemplo em Barcelona. Devem manter a integridade, os valores e lembrar que representam o precariado. Se olharem para o passado o perderão, porque então votará nos conservadores.

O próximo teste dos sociais-democratas será exatamente no Reino Unido...

É um desastre o que acontece com o Brexit e essas eleições, tanto para os trabalhistas como para a esquerda em geral. E a curto prazo, uma vitória para a extrema-direita, que viu como ganhava o Brexit com um discurso populista e apelando aos medos de parte do precariado.

Uma pesquisa do Ifop indicou que 25% dos que se consideram perdedores da globalização votaram em Mélenchon [esquerda] nas eleições francesas, mas apoiaram Le Pen[ultradireita]. Parte do precariado não está indo para a extrema-direita?

Existem três tipos de precariado. Primeiro, os expulsos, que cresceram em comunidades operárias e que estão escutando essas mensagens do Trump e do Brexit. Na parte média, estão as minorias, como os imigrantes, que não se sentem atraídos pela política. E depois há os jovens que saem das universidades e buscam uma nova política progressista. É importante que a nova esquerda se concentre nessa parte, porque vai continuar crescendo. Se decidir olhar para a classe média, irá perdê-los.

Não existe uma certa decepção após a experiência do Syriza?

O Syriza está liquidado. A Grécia é um caso de como os mercados financeiros criaram a crise, fizeram dinheiro com a crise e ditaram quais reformas deveriam ser feitas. É também uma lição de que se deve ter as coisas claras para não ser tragado pelo capitalismo rentista.

O senhor fala também do “capitalismo de plataformas” como uma forma de extrair renda. Qual papel a tecnologia está tendo na transformação que você descreve?

As plataformas serão um aspecto profundamente transformador. Dentro de cinco anos, uma de cada três transações de trabalho será feita online, muitas através de apps. Nesse processo, o controlador do app consegue arrecadar renda ao levar entre 20% e 25% do dinheiro. É um fenômeno histórico único: está se produzindo uma migração de trabalho sem que exista fisicamente.

Muitos do precariado dirão que se não existisse não poderia desfrutar de férias nem de lazer...

Não sou contra a tecnologia. E não acho que isso deva parar, mas deve haver sim algum tipo de controle social e temos que conseguir que esse benefício se distribua mais equitativamente, começando pelos salários.

A desigualdade também está se produzindo em termos geracionais?

Não devemos cair na armadilha de ver a desigualdade como um problema geracional, mas obviamente existe sim essa dimensão. Os políticos conservadores sabem onde está seu voto e fazem mais concessões a pessoas mais velhas. Mas muitos estão no precariado e se deram conta de que seus filhos e seus netos também estarão. Não é verdade que as pessoas mais velhas não se interessam pelo meio ambiente. Muitos estão preocupados por essa tendência destrutiva. É preciso fazer as pessoas verem o que acontece com os bens comuns. E dizer que os sindicatos e os socialistas foram os piores, porque colocaram os postos de trabalho acima do meio ambiente. E, de novo, não há diferença com os neoliberais.

Sua primeira proposta passa por criar um fundo soberano como o norueguês para redistribuir as rendas, mas nem todos os países têm petróleo...

O princípio desse fundo é que se há uma extração de renda, há que se devolver parte dessa renda à sociedade. Falo da terra, dos recursos naturais, das áreas turísticas, mas também das plataformas de que falamos. Podemos pedir que paguem 25% por transação, queremos 25% dessa parte para a sociedade.

Mas essas companhias operam globalmente e algumas nem sequer pagam impostos na Espanha. Como se consegue isso?

Essa seria uma das vantagens do fundo. O Estado poderia dizer que agora tem esse instrumento para investir, mas que a condição é que tenham práticas ambientais e paguem os impostos no país.

Com esses fundos se financiaria a renda básica universal que propõe?

Sim, mas há várias formas. Também se pode suprimir muitos subsídios, os injustificados, mantendo os serviços públicos de saúde, educação e transporte.

Essa renda desestimularia o trabalho?

Não, ao contrário. Todos os estudos indicam que se trabalha mais, não menos. Se tivesse uma renda de 400 euros deixaria de trabalhar? Não. Todo mundo quer melhorar. A renda daria mais confiança às pessoas.

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