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Como a Lava Jato e o golpe afetaram o processo de integração latino-americana

Igor Fuser, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), analisa os efeitos do pós-impeachment na região

Do Brasil de Fato | Curitiba (PR),10 de Julho de 2017
Por Daniel Giovanaz


Segundo Fuser, a América do Sul está deixando de ser um ator político para se tornar, novamente, um território a ser explorado / Divulgação TVT

A operação Lava Jato, com o apoio da mídia corporativa, instaurou um ambiente de pressão e rejeição que culminou com o golpe de 2016. Ao mesmo tempo, suspendeu os contratos da Petrobras com empreiteiras e aprofundou o desemprego em vários setores da economia.

No lugar da presidenta eleita Dilma Rousseff (PT), entrou o então vice-presidente Michel Temer (PMDB), que, desde sua posse, propõe a retirada de direitos dos trabalhadores, a entrega dos recursos nacionais, o enfraquecimento das empresas públicas e das relações com os vizinhos do continente.

Para analisar os impactos da operação Lava Jato e as consequências para o continente, o Brasil de Fato entrevistou o professor Igor Fuser, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e docente do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Ex-editor do jornal Folha de S.Paulo e das revistas Veja e Época, Fuser é pesquisador nas áreas de Política Externa Brasileira, Geopolítica da Energia, Política na América Latina e Política Externa dos Estados Unidos.

Confira os melhores momentos da entrevista:

Brasil de Fato: A operação Lava Jato está relacionada, de alguma forma, ao clima de desestabilização do governo Dilma, a partir de 2014. Você considera que as investigações estavam orientadas para favorecer o interesse imperialista, ou considera que o desmonte da indústria nacional foi apenas uma irresponsabilidade dos juízes e procuradores?

Igor Fuser: É uma pergunta bem difícil. Porque, para derrubar o governo Dilma, era necessário que se criasse uma situação de escândalo. E eles foram buscar esse escândalo nas relações que o governo brasileiro mantinha com os cartéis das grandes empreiteiras - relações que sempre existiram em todos os governos, não só em âmbito federal, mas em muitos estados e municípios. Era algo de conhecimento amplo na política brasileira, que fazia parte da estrutura do Estado.

A ideia de que havia uma intencionalidade de destruir essas empresas, por enquanto, é uma teoria. Não existe nenhum elemento concreto que fundamente essa teoria. É uma ideia que faz sentido, talvez, mas essa é uma questão em aberto. Ou seja, não há como saber se havia uma intencionalidade do imperialismo norte-americano em destruir essa estrutura, porque são empresas de grande porte, ou porque eram o esteio da economia nacional. Mas eu não descarto essa hipótese.

Em relação aos países vizinhos ao Brasil, você poderia listar as consequências mais importantes da Lava Jato, especialmente para aqueles que também tinham obras das empreiteiras investigadas [Argentina, Brasil, Colômbia, República Dominicana, Equador, Guatemala, México, Panamá, Peru e Venezuela]?

Esse tipo de relacionamento entre empresa privada e poder público não é exclusividade do Brasil. No limite, pode-se dizer que é próprio do capitalismo. Então, à medida que começaram as investigações sobre a Odebrecht e outras empresas que tinhas obras nesses países, sobretudo da América Latina, era inevitável que houvesse repercussão por lá também.

Atores políticos que atuam nesses países usaram as informações que vinham do Brasil pra colocar essas empresas e os outros governos, também, em situação de escândalo.

As consequências são semelhantes àquilo que está acontecendo aqui. É claro que não tão graves como no Brasil, porque essas empresas nem sempre têm um papel tão estrutural na economia, até pelo volume de obras ser menor.

Desde que assumiu, o governo Michel Temer mudou a postura em relação à América Latina. Em termos de políticas econômicas, quais foram as mudanças mais imediatas?

A grande mudança, em relação à América Latina, foi o abandono do projeto de integração regional que havia nos governos Lula e Dilma.

O Mercosul tende a ficar reduzido a um conjunto de acordos comerciais, no máximo. A sobrevivência dele está ao sabor, agora, dos interesses do grande capital e das empresas transnacionais - que sempre se beneficiaram do Mercosul e que querem continuar se beneficiando. Mas a ideia do Mercosul como projeto de desenvolvimento compartilhado, como instrumento de autonomia regional, tudo isso acabou, foi descartado.

Iniciativas de integração regional como a Unasul [União de Nações Sul-Americanas] e a Celac [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos] também estão condenadas ao limbo.

A Unasul, por exemplo, deve continuar existindo como uma entidade quase fantasma. A parte que deve ficar é aquela que interessa ao grande capital, mais voltada para a construção de vias de transporte, como rodovias, ferrovias e hidrovias, e para investimentos em mineração e no setor elétrico. E essa parte só vai sobreviver porque contempla o interesse do agronegócio e de outros setores oligopolizados da economia. Mas, fora isso, vai virar uma casca vazia, como a Celac.

A prioridade do Temer é a integração completamente subordinada ao centro do sistema capitalista internacional. Outra coisa muito grave é que, não apenas as iniciativas de integração regional mais articuladas vão ser retiradas da agenda, mas as possibilidades de cooperação mais estreita, de parceria do Brasil com países vizinhos, devem desaparecer também.

Instalou-se na América do Sul o “cada um por si”. Cada um desses países, Brasil e Argentina, com seus governos de direita, vão competir para obter maiores vantagens na relação com o Norte. A América do Sul deixa de existir como um ator no cenário internacional. Ela se torna terreno de caça do capital internacional estadunidense, europeu, japonês, além do chinês. É um território aberto, enfim, pra todo tipo de incursão financeira dos países protagonistas no cenário econômico mundial. A América do Sul deixa de ser ator político para se tornar um território a ser explorado, pilhado. Deixa de existir como uma voz própria, como uma região dotada do mínimo de identidade, de autonomia.

E as consequências podem ser até piores do que vimos no século 20. Afinal, o capital internacional vive uma fase muito mais agressiva do que 20 anos atrás.

Você concorda com a interpretação de que vivemos o “fim de um ciclo de governos progressistas”?

A palavra “ciclo”, na minha avaliação, é empregada de maneira imprópria. Primeiro porque ela dá a impressão de que existem movimentos na história que estão além da possibilidade de interferência humana. Coloca-se um certo fatalismo, que leva ao imobilismo, em última instância.

Outra questão é que esse ciclo não se verificou em todos os países. A Colômbia, por exemplo, passou à margem do tal ciclo progressista. O Peru ensaiou embarcar nesse conjunto de governos, mas optou por permanecer alinhado aos Estados Unidos. O Chile, apesar de ter, no moment,o o segundo mandato de Michelle Bachelet, que no contexto chileno é considerada de centro-esquerda, na prática permaneceu alinhado aos Estados Unidos, com relações bilaterais, e, inclusive, juntou-se ao movimento de linchamento da Venezuela. Sem falar no México…

Da mesma forma, enquanto se fala em fim do ciclo progressista, a esquerda ganha uma eleição no Equador. Então, as coisas não são assim tão simples.

A Venezuela está resistindo. A situação por lá está em aberto. Absolutamente ninguém sabe o que vai acontecer. Há um conflito intenso com duas forças que estão jogando na mesa todas as suas cartas. No México, vai haver eleições, e o candidato da esquerda [Andrés Manuel] López Obrador está novamente com uma chance bastante razoável de ganhar. Na Bolívia, o presidente Evo Morales continua mantendo muito prestígio junto à população: o governo não está em processo de deterioração, de desmanche.

Mas, de alguma forma, temos um período que está se encerrando na história da América Latina. Um período em que foi possível à esquerda ocupar posições de comando dentro do aparelho do Estado, no Poder Executivo principalmente, e isso ser aceito pelas classes dominantes e pelo imperialismo. Muitos desses governos conseguiram desenvolver políticas públicas e levar adiante suas gestões, sendo encarados com certa naturalidade como gestores do Estado burguês. Esse período, ao que tudo indica, está se encerrando.

As classes dominantes, articuladas com o imperialismo, não estão mais dispostas a permitir que isso aconteça. Estão numa ofensiva para expulsar a esquerda dos governos, por meio de golpe, por via eleitoral, por todo tipo de manipulação da opinião pública e do sistema jurídico. Todo esse conjunto de instrumentos está sendo utilizado.

E a coisa não termina aí: não se trata simplesmente de trocar um governo de esquerda por um governo de direita. O objetivo das classes dominantes é destruir organizações políticas, destruir partidos, sindicatos, movimentos sociais e blindar as instituições, blindar o aparelho do Estado, para que não haja uma retomada de gestores progressistas do Estado.

E o discurso anticorrupção emerge, é claro, nesse contexto, como um instrumento clássico do repertório político da direita.

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