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Três dimensões da tragédia da esquerda no início do século XXI

Pode-se dizer que a ação das esquerdas realmente existentes hoje se divide em três as grandes “correntes”. E se, na busca por uma esquerda conectada com os desafios de nosso tempo, conseguíssemos nos pautar pela necessidade de reter as virtudes e descartar os vícios dos?


Do Blog da Boitempo, 29 de Junho de 2017


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Passadas as venturas e desventuras do longo século XX, há muito deixou de representar qualquer novidade a já repetida enunciação da crise do marxismo, em particular, e do horizonte de uma política emancipatória de esquerda, em geral. Como é de amplo conhecimento, ao menos desde meados do século passado, a esquerda debate-se em questões epistemológicas, teóricas e práticas de difícil, ainda que inescapável, enfrentamento: as ‘novas’ identidades e sujeitos políticos, a reconfiguração das relações de produção e o consequente descentramento da classe trabalhadora ‘típica-ideal’, a flexível plasticidade novas formas de exploração e acumulação de capital, o peso e materialidade da ideologia, os desafios postos às leituras de conjuntura frente à complexidade da realidade, a autonomia (relativa?) do político, os limites da razão, entre tantos, e intermináveis, problemas.

Muitas formulações, em múltiplas direções, algumas mais adequadas do que outras, buscaram decifrar essa esfinge há tempos posta em nossa sala. Debatê-las aqui, no entanto, não é meu objetivo. Se é verdade que longas e celebres análises e sínteses já foram produzidas a respeito, é igualmente certo que os becos do pensamento emancipatório continuam nos assombrando. A relação das forças e movimentos revolucionários com a institucionalidade burguesa e o poder do Estado, as aporias da forma partido, os desafios organizativos postos para os (já não tão) novos movimentos sociais, entre outros pontos, seguem todos ainda na agenda. Uma vez assumida essa necessidade, por onde e de onde (re?)começar o necessário (e trágico, no sentido grego clássico da palavra – já que as consequências não pretendidas da ação parecem sempre nos trazer de volta ao mesmo problema inicial) esforço de renovação teórico-político da esquerda?

Penso, como muitos, que convém começarmos pela boa e velha “análise concreta da realidade concreta”. É evidente que nesta há incontáveis aspectos e facetas a serem cobertos, mediados ou condicionados por distintas abordagens. No espaço restrito deste texto, não pretendo ir além de uma primeira e limitada aproximação dessa vasta problemática. Para tal, me detenho a uma dimensão específica: a prática cotidiana das esquerdas nos espaços de luta política em que habita no presente. Partindo desse ponto, classifico em três as grandes “correntes” de ação da esquerda realmente existentes nesta quadra da história – e é evidente que, como tais, estas não são se apresentam em estado ‘puro’, tampouco excludentes entre si: i) uma esquerda institucional-parlamentar ou “estadocêntrica”; ii) a esquerda dita tradicional-radical ou “saudosa”; e, por fim, iii) a esquerda fragmentária ou dita “pós-moderna” (por mais complicada e problemática que seja a utilização deste termo, convém faze-lo a bem da simplificação do debate).

Parece ser basicamente em torno desses três grandes modelos, mais próximas ou distantes de um ou mais desses tipos (ideais?), que as esquerdas têm se situado em termos de leitura de mundo, comportamento e ação política. Todas elas, grandes forças de gravitação, defendo, carregam vícios e virtudes, sendo importante mapeá-los a fim de uma primeira reflexão sobre o assunto. A reflexão se dará, de passagem, e de modo um tanto arbitrário, dadas as limitações características desse espaço, em três níveis: ideológico, epistemológico e político. Para efeitos de análise, assumirei, como ponto de partida, que os representantes de todas as frações são bem-intencionados e que igualmente buscam, por vias distintas, a transformação (radical?) da realidade – o que nem sempre é verificável no mundo da vida (mas isso levaria a discussão para outras e indesejadas esferas). A eles, pois.

O primeiro ‘tipo’, institucional-parlamentar, é bastante conhecido, já que carrega alguns séculos de existência nas costas, mesmo que venha reconfigurando-se desde então. No aspecto ideológico (discurso-representação de mundo que orienta suas práticas), corresponde ao pragmatismo de esquerda clássico, que encontra centralmente no Estado a razão e causa maior do poder. Daí, como sabemos, derivam-se a opção pelo reformismo gradualista (com ou sem povo) e a crença na capacidade de alcançar uma sociedade plenamente justa e livre pela via incremental, mais ou menos estável, sem rupturas. Na dimensão epistemológica, o abandono da radicalidade anticapitalista e, dessa forma, de uma leitura orientada para a ruptura sistêmica, funciona como uma grave barreira à imaginação crítica e, desse modo, ao seu pensamento pretensamente transformador – algo que acaba levando-a a alianças quase perpétuas com o pensamento liberal-burguês de “rosto humano”: os proxys do keynesianismo econômico e as teorias liberais da sociedade e da democracia, que prezam pela moderação diante das conquistas da modernidade capitalista. Por último, no aspecto político, essa forma de ver a mudança social acaba encontrando afinidade com o institucionalismo utilitarista e a indefectível paixão pelo poder, produtos de uma grave confusão entre mudança e manutenção da realidade. Em suma, ao tentar civilizar o capital, acaba por ele ‘civilizada’.

A esquerda radical tradicional (saudosista, dirão alguns), o segundo tipo, mantém, no que se refere à dimensão ideológica, seu caráter anticapitalista e, por isso, desconfia da cooptação pelo Estado burguês, apostando sua fichas no socialismo e na revolução. No aspecto epistemológico, é certo, isso a possibilita sustentar algum vigor crítico e analítico, bem como certa solidez dos modelos teóricos – ainda que, em alguns casos, em sacrifício da complexidade do real. Na dimensão política, no entanto, e ainda que seja digna de nota sua heroica e valorosa resistência ao longo das décadas, segue, de certo modo, vinculada cognitiva e discursivamente a um mundo pré-queda do Muro de Berlim, como numa grande elegia dos “sobreviventes” da história, presa a questões de outro tempo. Assim articulada, por mais refinada e influente que seja sua crítica anti-sistêmica, tende ao elitismo político e ao nanismo, afastada que está do universo de questões que governam o senso-comum e a vida cotidiana das maiorias sociais. Por fim, um senso de proporção um tanto distorcido e a pouca abertura para pensar e recriar a realidade a partir de novas categorias a faz escorregar em lamentáveis demonstrações de sectarismo e dogmatismo.

Por último, chegamos à esquerda fragmentária, nossa terceira “corrente”. É certo que esta nasce da crise das duas precedentes, e como resposta aos seus problemas supostamente congênitos. Isso se dá em meados do século passado (1968 é, certamente, um marco importante), mas ganha fôlego renovado a partir do fim do dito ‘socialismo real’, perpassado pela retórica do “fim das grandes narrativas” em tempos ‘pós-ideológicos’. Na dimensão epistemológica, busca na efemeridade dos movimentos transitórios, na particularidade como elemento constitutivo, na cognição de corte relativista e na desconfiança da razão remédios contra a fixidez das estruturas e a subsunção da parte pelo todo-totalidade, ciosa que é da procura por novas bases para pensar o problema da liberdade (em detrimento da igualdade?). No aspecto ideológico, a crítica ao capitalismo, quando é o caso, dá precedência à dimensão ético-comportamental, descurando de suas tensões sistêmico-estruturais; sobrevalorizando, dessa forma, esferas micropolíticas de atuação em detrimento de sua contraparte macrossocial. Desse modo, assim como no primeiro tipo, termina por colaborar consciente ou inconscientemente com o (neo) liberalismo e o mito moderno do indivíduo autodeterminado, que aqui se torna – implícita ou explicitamente – a unidade fundamental de análise. No aspecto político, ao manter certa desconfiança da busca por unidades em detrimento das diversidades (como se no fundo estas fossem inconciliáveis), acaba jogando água no moinho da fragmentação político-organizativa. Ao apostar as fichas na imanência fluída das redes sem dar devida atenção aos seus constrangimentos e limites, termina refém de conceitos de horizontalidade e autonomia não raro esvaziados de conteúdo material. Tudo somado, a ideia de projeto político-estratégico perde sentido e horizonte, apontando para uma gestão reativa, imediatista e performática da luta social.

Estarão certos os que dirão ser esta uma forma por demais simplificada de apresentar o panorama. Poucos são os grupos na esquerda que estariam enquadrados em só um desses tipos e é igualmente certo que, dessa forma categorizados, acabam drenados de sua enorme diversidade, bem como histórias particulares e conjunturas constitutivas. Igualmente corretos estarão em criticar certa arbitrariedade dessa classificação no denso, polissêmico e multifacetado campo da pratica teórica, onde o buraco é, sabemos, ainda mais profundo. Defendo, no entanto, que são essas as três grandes forças de gravitação que atraem a maioria das organizações, movimentos e coletivos políticos de esquerda atualmente, forças que precisam ser superadas naquilo que tem de perniciosas, e, quiçá, canalizadas naquilo que tem de irruptivas. Eis, então, a proposição de um primeiro e ainda precário parâmetro que julgo útil e funcional para nos ajudar a começar a ler as tragédias da esquerda no século XXI, em suas potências e misérias – orientada, naturalmente, para a busca de soluções.

Fica posta, no entanto, como sempre, a pergunta sobre as eventuais saídas, sobre o quê fazer diante do quadro acima proposto. Seria uma enorme pretensão dar, de pronto, uma resposta sumária, já que esta será inevitavelmente produto da imprevisível e apaixonante tarefa de invenção política coletiva. No entanto, cabe, como ponto de partida para uma reflexão que seguirá, uma segunda provocação. E se, na busca por uma esquerda conectada com os desafios de nosso tempo, conseguíssemos nos pautar pela necessidade de reter as virtudes e descartar os vícios nos tipos acima descritos?

Dito dessa forma, pareceria demasiado simples, em especial se considerarmos que esses três tipos são irremediavelmente interdependentes, e que, possivelmente, seus vícios e virtudes são, ao fim e ao cabo, inseparáveis entre si; já que cada uma dessas correntes, representa, em última instância, visão de mundo mais ou menos coerente, com sua própria amarração e lógica interna. É igualmente razoável atentar para o fato de que, em geral, o caminho circular que vai de um tipo ao outro acabou por se tornar a via sacra de militantes frustrados e desiludidos com seus próprios espaços de atuação política, sempre em busca de seu próprio (e, por vezes, individual) paraíso organizativo.

Como, então, operacionalizar objetivamente tal proposta? Aí reside, certamente, o mais difícil. Sem pretensão de resolução de problema, nos permitamos ao menos imaginar, especular. Há de se começar por algum ponto, afinal.

Da esquerda de primeiro tipo, buscaremos manter o necessário pragmatismo da ação: o planejamento, desenho e busca pela concretização de novas de propostas de governo da vida política e social, permeada por valores radicalmente democráticos, e que falem diretamente para as necessidades mais prementes e cotidianas das pessoas, no “agora”. Junto disso, a clareza quanto ao caráter contraditório, nada idílico, da política cotidiana, como campo de guerra que é. Da esquerda de segundo tipo, nos caberá manter o vigor crítico, a tenacidade da resistência abnegada, a radicalidade anti-sistêmica e a orientação para projetos estratégicos que tenham como horizonte a superação do capitalismo. Por fim, da última dessas “correntes”, cumprirá reter, em tempos de crise civilizacional, o compromisso com uma renovação ético-estética da política, a criatividade e irreverência na produção de novos arranjos organizativos, o valor da sustentabilidade, o respeito à diversidade e a desconfiança consequente da razão. Poderia ser um bom começo.

Para isso, precisaremos nos livrar do apego ao poder pelo poder e da falência da crítica, do sectarismo dogmático e saudosista e, por fim, da ação fragmentária, individualista e performática de nosso tempo. O necessário e hercúleo esforço de construção de leituras profundas, atualizadas e precisas do capitalismo precisará ser encontrado com a investigação obsessiva e a tentativa prática de novas formas politico-organizativas, compatíveis com as lutas e desafios revolucionários contemporâneos. Eis, assim, a tarefa que a que deve se empreender todo pensamento-ação pretensamente crítico: entender, criticar e transformar o mundo a sua volta.

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Edemilson Paraná é doutorando em Sociologia pela UnB (Universidade de Brasília), e atualmente pesquisador visitante na SOAS – University of London. É autor do livro A Finança Digitalizada: Capitalismo Financeiro e Revolução Informacional (Insular, 2016). Dele, leia também no Blog da Boitempo os artigos “Brasil 2016: preparando a (nova) gestão de uma crise permanente“, “Brexit: o Reino Unido sequestrado pela extrema-direita?“, “O Brexit e as esquerdas: as contradições da razão europeísta“, “Um novo tsunami financeiro global a caminho?“, “Da direta à esquerda: a crise diante da falta de um projeto de país“, “O Brasil no pêndulo das elites: entre liberalismo submisso e desenvolvimentismo autoritário“, “Disputar o povão: neopentecostalismo e luta de classes“, “As raízes da escalada conservadora atual” e “Lula, o cerberus da política brasileira“.

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