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Transformações exigem política externa ativa: a nova Rota da Seda

Como a China, Brasil precisa apostar de forma ativa em diversificação. Longe de ser estratégia de marketing, são novos tempos que merecem atenção


Da Carta Capital, 15 de Junho, 2017
Por Valéria Lopes Ribeiro e Giorgio Romano Schutte;
Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI) 

Nova Rota da Seda representa o ambicioso projeto de infraestrutura do atual presidente Xi Jinping e envolve mais de 60.

Recentemente, Beijing sediou o 1º Fórum da Nova Rota da Seda, com a participação de líderes nacionais de cerca de trinta países e dezenas de representantes de outros. Estavam presentes os presidentes da Argentina e do Chile.

A iniciativa de Pequim prevê a promoção de uma extensa rede de infraestrutura, comércio e cooperação econômica ao longo dos mais de sessenta países que compõem o extenso trajeto que engloba Europa, Ásia e África. O governo chinês insiste em afirmar que esse esforço não será feito em detrimento dos crescentes laços com América do Sul.

A política externa ativa e altiva que marcou os governos Lula e Dilma baseou-se, entre outras coisas, na compreensão de que o mundo está passando por profundas transformações. E uma destas é a formação de uma multipolaridade num contexto de transferência do eixo dinâmico da economia mundial do Atlântico para o Pacífico.

Para o Brasil isso deveria implicar em apostar na formação de um polo sul-americano para dialogar e participar dessa transformação. E, ao mesmo tempo, ampliar o leque de articulações políticas e econômicas internacionais para interagir com os demais polos de forma autônoma. Daí vinha todo o esforço para não só assistir ao crescimento dos laços comerciais com a China, mas também investir em uma aproximação mais ampla.

O papel do Brasil na construção do BRICS é exemplo disso. Ou quando o Brasil, no governo Dilma, tornou-se um dos primeiros membros do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB). Não se tratava de diminuir ou afastar o país das suas relações com as potências tradicionais, em particular os EUA, mas de diversificar e ampliar essas relações.

A nova iniciativa da China é mais um exemplo de como o Brasil precisa novamente apostar de forma ativa em uma política de diversificação. Longe de ser uma estratégia de marketing, trata-se de sinais dos novos tempos que merecem toda a atenção dos diversos setores da sociedade brasileira e, sobretudo, da política externa.

Desafio da China

Com uma trajetória de expansão econômica que já dura mais de trinta anos a China se consolida hoje como uma grande economia. Mesmo apresentando contradições típicas das economias em desenvolvimento, como a desigualdade de renda, o país ocupa posição central no cenário global principalmente no que se refere à participação no comércio mundial.

Uma das marcas desta expansão foi certamente, e continua sendo, o padrão de acumulação fortemente centrado no Estado e nos investimentos públicos, que remete ao período socialista.

Mais recentemente, após um ciclo de crescimento baseado em amplos investimentos em infraestrutura e indústria pesada, o país entra em um novo ciclo. A prioridade se volta para o crescimento da demanda interna e esforços para aumentar a competência tecnológica do seu parque industrial e exportação de capitais de forma estratégica.

É dentro deste contexto de transformações internas e desafios globais que se insere a estratégia da Nova Rota da Seda, conhecida como One Belt, one Road (OBOR), que representa um ambicioso projeto de infraestrutura anunciado em 2013 pelo atual presidente Xi Jinping e que envolve mais de sessenta países, entre eles asiáticos, europeus e africanos.

O projeto tem como base a ampliação de canais de infraestrutura terrestres (Silk Road Economic Belt) e marítimos (21 Century Maritime Silk Road) que percorrerão um amplo espaço territorial entre Ásia, África e Europa.

China recebeu líderes e representantes do mundo todo para discutir novas formas de estabelecer o comércio internacional (Tiberio Barchielli/Fotos Públicas)

Tudo será financiado por um fundo criado em 2014 especificamente para a estratégia, com investimentos dos principais bancos estatais, em particular o State Administration of Foreign Exchange, o China Investment Corporations, o EximBank e o China Development Bank. O fundo já tem um capital de 40 bilhões de dólares para ser utilizado e, segundo algumas fontes, o governo chinês estaria comprometido com financiamentos que podem chegar a 1 trilhão de dólares na próxima década.

A estratégia OBOR representa, segundo o discurso do governo, objetivos de promoção da cooperação regional, fortalecimento das trocas comerciais e aumento da prosperidade econômica de todos os países ao longo da rota. Além disso, insere-se no apelo recente de Xi Jingping ao fortalecimento de um mundo multipolar e de ampliação da globalização econômica com cooperação regional e integração dos mercados.

Mas para além do discurso oficial o projeto insere-se dentro de um quadro maior dos objetivos geopolíticos e também econômicos da China. Em termos geopolíticos o projeto representa uma postura de política externa mais assertiva da China com Xi Jinping e a estratégia de fortalecer sua posição com relação aos países vizinhos e em regiões estratégicas na Ásia Central e África e ampliar seus espaços de influência.

Um dos corredores previstos, por exemplo, ligará por meio de estradas e ferrovias a cidade de Kashgar em Xijiang ao Porto de Gwadar, no Paquistão. A proximidade do Porto com o Golfo Pérsico seria utilizada pelos chineses como terminal de petróleo e combustíveis líquidos, evitando a necessidade de atravessar o estreito de Malaca, no Sudeste asiático. Além disso, a região se apresenta como zona militar para o Exército chinês, de acomodação de submarinos e porta aviões.

Com relação aos objetivos econômicos, o projeto insere-se principalmente na estratégia de modernização da indústria chinesa. Isso porque a expansão da infraestrutura e investimentos permitiria a possibilidade não só de escoamento de produtos com maior valor agregado, mas também de transferência de parcelas da produção chinesa para outras regiões, levando a que as empresas dentro da China busquem a inovação e modernização.

Além disso, a expansão da infraestrutura pelo interior do país, prevista pelo OBOR, é pensada também como uma saída para ampliar o desenvolvimento das províncias mais pobres e resolver o gap regional chinês. Províncias como Guansu ou Xinjiang, por exemplo, crescem em um ritmo bem inferior em relação às províncias costeiras e ambas serão contempladas com projetos do OBOR, no caso de Xinjiang a questão ainda se relaciona ao enfrentamento de movimentos separatistas islâmicos que atuam na região.

A estratégia OBOR, caso venha a se consolidar, mesmo que em parte, representa de fato uma integração de mercados muito ambiciosa e que pode levar a China a alcançar uma posição ainda mais forte no cenário global, principalmente em termos de modernização de sua economia. Impossível não considerar os impactos e desafios que isso representa para América do Sul, e, em particular o Brasil.

Para criar e aproveitar as oportunidades que serão criadas é preciso, acima de tudo, uma política externa ativa, diversificada e articulada com os demais países da América do Sul. Não se trata de optar por uma ou outra região, mas de entender que o Brasil, junto com seus vizinhos, é e deve ser ator global para interagir com os novos dinamismos em prol de seu desenvolvimento.

Valéria Lopes Ribeiro e Giorgio Romano Schutte são professores de Relações Internacionais da UFABC e membros do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI)

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