Pages

O mar da dor e da esperança

"Em Alto-Mar", obra inédita de Edmondo De Amicis, descreve a saga dos imigrantes que sonhavam em fare l’America


Da Carta Capital, 13 de Junho, 2017
por Nirlando Beirão 

O Sírio, que levou De Amicis de volta à Itália, naufragou anos depois (Benedito Calixto registrou em quadro)

Crianças de mais de 50 anos de idade, muitas delas, devem se lembrar de um livro chamado Coração (Cuore, no original) e do nome de seu autor, Edmondo De Amicis.

É uma leitura de enternecedora simplicidade e de pedagógica nobreza, narrada por um ginasiano, Enrico Bottini, como se fosse o diário de um ano letivo na Itália do Risorgimento – uma paisagem juvenil onde vicejam princípios tais como a amizade, a ética e a verdade, reforçados por contos de coragem e perseverança lidos aos alunos durante as aulas. A nova e esperançosa Itália faz o pano de fundo.

De Amicis (1846-1908) foi escritor, jornalista e militante da causa da unificação italiana. Coração é de 1886 – um clamoroso best seller. De Amicis tornou-se notável também por seus relatos de viagem: Espanha, Holanda, Marrocos, Londres, Constantinopla.



De Amicis: nas viagens, o coração se deixava levar pela paisagem humana (Foto: Album/Fotoarena)

Em 1894, é convidado pelo jornal El Nacional, de Buenos Aires, no qual colabora, a fazer um ciclo de palestras na capital portenha. Seria sua primeira viagem à América Latina.

Embarca dia 10 de março, em Gênova, no navio Nord America – cujo nome, em disfarce ficcional, ele troca para Galileo. Está decidido a escrever um romance sobre a viagem. Não terá nada a ver com as suas antigas narrativas turísticas. Para começar, não haverá uma única linha sobre a Argentina, seu destino final.

Em Alto-Mar (Sull’Oceano, em italiano) está ganhando sua primeira edição em língua portuguesa, com primorosa tradução de Adriana Marcolini, 128 anos após o lançamento. É, no entanto, de uma espantosa atualidade.

O mar costuma ser um incontornável convite à poesia (“O Atlântico nos embalava com suas ondas longas e plácidas, semelhantes a enormes tapetes azuis-claros decorados por franjas prateadas, empurrados por uma miríade de mãos invisíveis, sem cessar”), mas De Amicis faz de outra matéria a substância de sua literatura: o homem compelido a abandonar a terra em que nasceu e se criou.

A imigração italiana de ontem não é diferente de tantas outras, de tantos momentos, em tantos lugares. É bom lembrar isso, em tempos de intolerância aguda.

De Amicis embarca na primeira classe, para um cruzeiro aventuroso de 22 dias. Sua curiosidade de observador malicioso vai passear pela fauna excêntrica dos parceiros de privilégio, 50 ao todo, e auscultar o sonho plebeu dos 20 passageiros da segunda classe, quase todos artesãos e pequenos comerciantes.

Contudo, acabará por ser emocionalmente sequestrado pela condensação de sentimentos humanos dos 1,6 mil emigrantes empilhados, como uma manada disforme e anônima, no porão da terceira classe – gente que busca na miragem de fare l’America o consolo para a aflição da expatriação forçada. Quatrocentos deles eram mulheres e crianças.

“A proa tinha um aspecto a meio caminho entre uma feira camponesa e um acampamento de ciganos com as barracas desmontadas”, observa De Amicis. “Cada grupo de imigrantes tinha tomado o seu lugar, onde passava a maior parte do dia, e os lugares escolhidos, por tradição, eram respeitados por todos.”

Onde fosse possível se sentar sem impedir a passagem, “tal como uma ninhada de gatos, tinha se plantado um grupinho de amigos ou uma pequena família, com suas cadeiras e um ou outro travesseiro ou cobertor. Algumas delas estavam tão bem escondidas que poderia ser possível passar em frente dez vezes sem descobri-las, porque as pessoas humildes se adaptam a todos os espaços vazios, da mesma forma que a água”.

As armadilhas do oceano e as incertezas do futuro não comprometiam um resignado senso de normalidade que a dura viagem ia adquirindo, ainda assim, jornada após jornada.

Uns molhavam o biscoito no café com as gamelas de lata nos joelhos, alguns lavavam as louças nos tanques, outros estavam agachados embaixo dos parapeitos, nas posições típicas dos camponeses acostumados a descansar no chão, ou passeavam com as mãos nos bolsos, como aos domingos nas praças dos povoados.

“As mulheres, com os cabelos soltos nos ombros, se penteavam diante de espelhinhos de vinte centavos; arrumavam os filhos, que faziam o mesmo que elas, escovando-se, ensaboando-se e enxugando-se; também amamentavam os bebês.”

Quando o mar estava calmo e o ar límpido e fresco, até uma certa alegria era permitida aos miseráveis da terra, agora transeuntes do mar.

Para De Amicis, o contato com os que desertavam da Itália era politicamente sofrido. A realidade que ele encontrou a bordo – assinala Adriana Marcolini, tradutora e curadora da obra – foi um choque.

“A babel de dialetos confirmou-lhe que a Itália ainda não era, de fato, uma nação. Os diálogos e as frases dialetais não só demonstram o escasso uso do idioma italiano na época, mas também conferem sabor à narrativa.”


A maré da terceira classe adaptava-se como podia aos espaços vazios (Ilustração: Arnaldo Ferraguti)O comandante e os estratos superiores da tripulação falam genovês; os camponeses, prioritariamente procedentes do norte, se expressam em vêneto; ouve-se também a bordo o cocoliche, um pastiche de italiano misturado ao espanhol falado por aqueles que já migraram há mais tempo.

Em Alto-Mar foi um sucesso estrepitoso: dez edições em apenas duas semanas. Ajudou a que, dois anos mais tarde, em 1901, fosse aprovada em lei da emigração, exigindo inspeção nos portos para ver se os navios estavam respeitando as regras sanitárias. Na verdade, nem todos os navios eram seguros como o Galileo (127 metros de comprimento, 15 de largura).

O Sirio, no qual De Amicis fez a viagem de volta, após três meses na Argentina e uma escala de três dias no Rio de Janeiro, acabaria por naufragar no Atlântico, alguns anos depois, com 700 imigrantes italianos com destino ao Brasil. O desastre inspirou a tela Naufrágio do Sirio, de Benedito Calixto.

A escala no Rio propicia dois dos bônus da edição brasileira. “O sonho do Rio de Janeiro” é um artigo publicado no suplemento literário do Corriere della Sera, em dezembro de 1902. De Amicis relutou em escrever sobre a cidade, já que considerava a estada insuficiente para conhecer sua realidade, mas acabou, instado por um amigo, convencido a descrevê-la na neblina de um sonho de “beleza onde brilha o verde”.

Acaba narrando um evento curiosamente real, o encontro com dom Pedro II, a convite dele. Impressionou-se com o imperador. “Tinha a figura de um guerreiro, a testa de um filósofo, o olhar de um artista, o sorriso de um amigo.”

Esteve também com a imperatriz Tereza Cristina, de quem elogiou a fluência no italiano. Tremenda gafe, soube depois: a imperatriz era italiana, filha de Francisco I, rei de Nápoles e das Duas Sicílias.

O segundo artigo – “Na baía do Rio de Janeiro” – só viria a ser publicado em 1921, como capítulo de suas memórias póstumas. Não tem nada a ver com a cidade, mas com a desesperada tentativa de um emigrante toscano, gravemente doente, em convencer o comandante do Sirio a acolhê-lo a bordo. Queria morrer na sua terra.

Assustado com o surto de febre amarela que grassava no Rio, o médico do navio recusa. “Juro que não vou morrer!” – se desespera. Em vão. Ele fica. O barco parte. “Em meio àquela baía, com o coração apertado ainda víamos aquela dor imensa sem consolo e tudo o que estava em torno daquela imensa beleza sorria sem piedade para a sua dor.”Morte sem sepultura

Antes da chegada, o evento já esperado (trecho do livro)

"E aquele décimo oitavo dia prometia ser ruim. Nuvens pretas e cinzentas produziam uma abóbada sobre o mar que, de um lado, tinha cor de óleo muito usado e, de outro, parecia de cinzas encharcadas e, aqui e ali, de um betume enegrecido, que se avolumava e se reassentava, como o pez da vala dos trapaceiros (Divina Comédia, canto XXI do Inferno).

Na proa e na popa se formavam muitos grupos e circulava uma notícia: o velho camponês piemontês que estava com pneumonia morrera à noite. O atestado de óbito tinha sido redigido e assinado por duas testemunhas, de madrugada, no salão náutico, depois da devida confirmação do médico.

Embora se soubesse que naquelas longas viagens, em meio a tanta gente, aquele acontecimento não fosse raro, aquilo despertava uma tristeza inquieta, como se fosse uma ameaça para todos (...). Tinha sido uma cena dolorosa. Antes de morrer, o velho quis rever a moça de Mestre para entregar-lhe os poucos trocados e os documentos, para que fizesse chegar tudo ao filho.

Havia tido uma agonia desesperada. O padre não conseguiu fazer-lhe aceitar a morte com resignação.

Nos olhares que ele lançava para os presentes e ao redor, naquele estranho hospital, via-se uma angústia imensa, uma ansiedade infantil por ter de morrer ali, no meio do oceano, e não ter sepultura: segurava com as duas mãos no braço da moça, sem dizer nada mais que: – Oh me fieul! Oh me pover fieul! (Ó, meu filho! Coitado do meu filho!) – e balançava a cabeça com um gesto de infinita desolação. Depois de morto, ficou com o rosto contraído numa expressão de susto e ainda banhado em lágrimas”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário